Ecopsicologia busca adaptar saúde mental à crise climática

Ecopsicologia busca adaptar saúde mental à crise climática

A juventude brasileira celebrou o 20º aniversário da criação de uma política nacional para jovens de 15 a 29 anos, destinada a garantir seus direitos, educação, saúde e cultura. No entanto, a política não inclui uma solução de saúde mental para a crise climática que afeta o futuro dessa faixa etária. (Imagem: Paulo Pinto / Agência Brasil)

POR MARIO OSAVA

RIO DE JANEIRO – Entre os jovens chilenos, 42% não querem ter filhos, principalmente devido à crise climática, segundo pesquisa do Instituto Nacional da Juventude, órgão do Ministério do Desenvolvimento Social e da Família do Chile.

A situação no país sul-americano não é excepcional em um mundo de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, onde a informação circula rapidamente por toda parte.

Faz parte do contexto que gerou uma nova área do conhecimento, a ecopsicologia, que estuda a conexão entre a mente humana e a natureza, buscando lidar com os efeitos das mudanças climáticas na saúde mental.

Além disso, tem efeitos políticos, como um dos fatores, a ascensão da extrema-direita em todo o mundo, incluindo o negacionismo ambiental frente à dificuldade de encarar um futuro de destruição devido ao aquecimento global.

“A ecopsicologia critica o antropocentrismo e o Antropoceno, dois conceitos relacionados: um que nos coloca no centro do universo, da natureza e das espécies, e o outro que se refere à era em que nossa ação sobre a natureza passou a prevalecer, inclusive em termos de destruição”, Christian Dunker

Os dados chilenos resultam de uma pesquisa na qual participaram 1513 jovens com idades entre 15 e 29 anos, conforme divulgado pelo instituto em 18 de abril de 2024.

Entre aqueles que descartam ter filhos, ou mais filhos para aqueles que já são pais, 67% afirmaram que as mudanças climáticas influenciaram esse desejo negativo, em um resultado quase igual entre mulheres (68%) e homens (66%).

Quase metade, exatamente 46%, afirmou que planeja se mudar de seu local de residência devido aos riscos climáticos. Esses números excluem aqueles que não responderam e aqueles que responderam “Não sei”.

Uma publicação no Instagram do Ministério do Desenvolvimento Social e da Família do Chile divulga alguns resultados de uma pesquisa sobre juventude e clima no país: 91% se mostram pessimistas e preveem diversos impactos negativos em sua qualidade de vida e saúde mental. Imagem: Injuv / Instagram

Novas doenças mentais

Juntamente com a ecopsicologia, conceitos como ecoansiedade, ansiedade climática e angústia surgiram em estudos dedicados ao tema em muitos países.

Instituto Brasileiro de Ecopsicologia (IBE) foi fundado em Brasília em 2016, nove anos depois do Centro de Ecopsicologia do Uruguai.

Sociedade Internacional de Ecopsicologia, que realizou seu décimo congresso em Brasília, em julho de 2025, foi fundada em 2005 como uma sociedade europeia em Neuchâtel, na Suíça. Ela alcançou status global em 2017.

O congresso deste ano teve como tema “Ecopsicologia e a Crise Climática”, sob o lema “Restaurando nossa relação com o planeta”. Ele antecedeu a 30ª Conferência das Partes (COP30) sobre mudanças climáticas, realizada em Belém, na região norte da Amazônia brasileira, de 10 a 22 de novembro.

A ecopsicologia é um ramo da psicologia social, “às vezes entendida como um encontro com outras disciplinas como antropologia, filosofia e teoria política”, explicou o psicólogo social Christian Dunker à IPS por telefone, de São Paulo.

“Trata-se de uma área de conhecimento recente que ainda não se tornou autônoma como disciplina universitária, a ponto de merecer um curso de graduação” no Brasil, observou ele.

Conhecimento e negação

Seu batismo foi formalizado em 1992 com a publicação do livro “A Voz da Terra”, do americano Theodore Roszak, que sistematiza as conclusões de um grupo de pesquisadores da também americana Universidade de Berkeley , que estudavam o assunto desde a década de 1980.

Roszak detalha os oito princípios da ecopsicologia, que começam por identificar um inconsciente ecológico, a profunda conexão entre os seres humanos e a natureza, que, quando reprimida, como a sexualidade para a psicanálise freudiana, gera “a loucura da sociedade industrial” em sua relação com o meio ambiente natural.

Como um estudo sobre “a relação da nossa subjetividade com a natureza”, “a ecopsicologia critica o antropocentrismo e o Antropoceno, dois conceitos relacionados: um que nos coloca no centro do universo, da natureza e das espécies, e o outro que se refere à era em que nossa ação sobre a natureza passou a prevalecer, inclusive em termos de destruição”, destacou Dunker.

A ansiedade climática tornou-se um “catalisador para outras ansiedades”, e isso gera “ações e reações negacionistas que amplificam o 1% de dúvidas existentes no debate científico como forma de negar a angústia dos outros”, observou ele.

“É uma maneira simples de projetar a ansiedade nos outros e, assim, obter segurança”, ainda mais se a negação for praticada “em um grupo de ódio contra outros grupos”, disse o psicólogo, professor da Universidade de São Paulo.

O negacionismo ambiental e climático prevaleceu durante o governo de extrema-direita do ex-presidente Jair Bolsonaro, de 2019 a 2022, e contaminou aparentemente a maioria no Congresso Nacional, que neste ano aprovou uma série de medidas que enfraquecem as leis de proteção ambiental no Brasil.

A ecopsicologia, ao mesmo tempo que oferece ferramentas para cuidar de pessoas com ansiedade e angústia decorrentes da crise climática, promove uma reavaliação da relação da humanidade com a natureza, focada em uma harmonia perdida nos últimos séculos.

Uma floresta amazônica visitada pelo então presidente dos EUA, Joe Biden, em novembro de 2014. As florestas conservadas, além de mitigarem a crise climática, são consideradas um “remédio” pela ecopsicologia, um novo campo da psicologia social. Imagem: Casa Branca / Fotos Públicas

Resgatando o conhecimento ancestral

Trata-se de “reaprender a escutar a natureza”, pondo fim ao “excesso da dimensão masculina dominante da nossa cultura” e equilibrando-a com a dimensão feminina da nossa psique, que é mais sensível às conexões com a natureza, segundo Marco Aurélio Carvalho, fundador e diretor do IBE.

Uma nova coexistência com a natureza, menos destrutiva, exige também o resgate do conhecimento ancestral, dos povos nativos, das “culturas derrotadas e dizimadas” pela “arrogância euro-americana branca”, que detêm um conhecimento “que esquecemos ou reprimimos”, afirmou ele em palestra explicativa sobre o novo ramo da psicologia, no site do IBE.

Como exemplo, ele mencionou o povo sentinelês da Ilha Sentinela do Norte, na Índia, devastado por um tsunami em 2004. Havia temores de extinção dessa população e de sua cultura, mas três dias depois soube-se que ninguém havia morrido.

Eles “sabiam ler a natureza”, previram o risco através de “avisos de animais marinhos” e refugiaram-se nas montanhas, recordou Carvalho, psicólogo clínico com doutoramento em desenvolvimento sustentável.

A “obsessão pelo crescimento”, pela escala cada vez maior e ilimitada, é outro aspecto do Antropoceno, com cidades que se tornam maiores e mais populosas a cada dia, e, portanto, desejadas por seres humanos que ignoram “a escala social apropriada para as pessoas”, criticou ele.

As cidades gigantescas distanciam ainda mais os seres humanos da natureza, sendo essa a origem da ansiedade climática, argumenta ele.

A ecopsicologia defende que os “direitos do planeta” devem ser reconhecidos e respeitados, e que o inconsciente ecológico reprimido deve ser libertado, a fim de resgatar uma consciência que conduza a uma relação diferente com a natureza, uma relação de conexão e sem a destruição recente e atual, resume Carvalho.

O contato com a natureza preservada é uma forma de aliviar a ecoansiedade e as preocupações climáticas, recomendou ela.

O banho de floresta é uma forma popular de terapia no Japão, onde é conhecido como shinrin-yoku. Um estudo da Universidade de Chiba revelou que a imersão em florestas reduziu os níveis de cortisol, um marcador de estresse, no sangue dos participantes em 13%.

Também registrei melhorias na hipertensão e em outros indicadores cujos desequilíbrios frequentemente causam problemas cardíacos.

“A angústia é, por definição, uma emoção contagiosa; ela soma medos, fobias, ansiedades, e tudo isso é canalizado para essa forma básica de emoções que é a angústia, e as ansiedades climáticas fazem parte desse sistema circular”, explicou Dunker.

Os efeitos são exacerbados no ambiente digital atual, com a manipulação das mudanças climáticas para fins políticos. Isso significa que as ansiedades climáticas estão intrinsecamente ligadas a questões de raça, classe e gênero, porque a crise climática afeta desproporcionalmente diferentes etnias, os pobres e as mulheres, concluiu ela.

Artigo originalmente publicado na IPS.

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