Hospedagens escassas afetam conferência climática na Amazônia

Por Mario Osava
RIO DE JANEIRO – A hospedagem tornou-se um fator-chave da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30), marcada para novembro em Belém, uma das capitais da Amazônia brasileira, onde será central a negociação sobre o financiamento climático.
Os custos muito elevados de hotéis e aluguéis de moradias para a ocasião ameaçam limitar a participação dos países pobres — justamente os que mais precisam de recursos para se adaptar às mudanças climáticas. Também os representantes da sociedade civil enfrentam dificuldades para garantir sua presença.
O tema gerou uma crise na reunião preparatória realizada em junho na cidade alemã de Bonn. Alguns países e organizações ambientalistas internacionais ameaçaram se ausentar. A mudança da sede da COP30, hipótese sugerida anteriormente, foi descartada diante da decisão categórica do governo brasileiro de mantê-la na Amazônia.
O objetivo vital das cúpulas anuais da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) é limitar o aquecimento global a 1,5 grau Celsius. Para isso, os países em desenvolvimento estimam ser necessário um financiamento anual de US$ 1,3 trilhão, proveniente principalmente dos países ricos.
Na conferência de 2024, a COP29, realizada em Baku, capital do Azerbaijão, foram acordados US$ 300 bilhões anuais até 2035 — valor considerado insuficiente. Por isso, a negociação continuará em Belém, incluindo a necessidade de implementação efetiva.
O valor anteriormente comprometido, de US$ 100 bilhões anuais, acordado em 2009 na COP15, em Copenhague, nunca foi cumprido.
“Se os países pobres não participarem devido ao alto custo da hospedagem, não será possível aumentar o financiamento para US$ 1,3 trilhão”, destacou Marina Mattar.
Diante disso, ativistas climáticos acreditam ser necessária uma mobilização massiva como forma de pressionar os governos dos países industrializados — historicamente responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa que aquecem o planeta — a elevar suas contribuições financeiras.
“Se os países pobres não participarem devido ao alto custo da hospedagem, não será possível aumentar o financiamento para US$ 1,3 trilhão”, reforçou Marina Mattar, diretora-executiva da Perspectivas, uma consultoria em relações institucionais.
Esforço para hospedar a todos
Mas o esforço criativo do governo e das autoridades locais precisa superar as limitações hoteleiras e o surto de ganância despertado nos proprietários de hospedagens, inclusive residenciais, diante da explosão de demanda que será gerada pela COP30, marcada para acontecer entre os dias 10 e 21 de novembro.
Belém, capital do estado do Pará, no norte amazônico do Brasil, tem 1,4 milhão de habitantes. Seus hotéis oferecem capacidade para mais de 14 mil hóspedes, segundo a presidência da conferência, liderada pelo embaixador André Corrêa do Lago.
Os imóveis disponíveis para aluguel temporário durante a COP30 somam mais de 15 mil camas. A isso se somam dois navios de cruzeiro contratados para servir como hotéis no porto de Belém, com 3900 cabines e capacidade para acomodar 6000 hóspedes.
Além disso, novos hotéis estão em construção, e está previsto adaptar escolas, quartéis militares e sedes religiosas para receber mais 9877 hóspedes, conforme a organização da conferência. Somando tudo, a capacidade de acolhimento ultrapassaria os 45 mil hóspedes, insiste a organização.
A expectativa de público na COP30 é de 50 mil participantes, dos quais 7000 integram delegações oficiais de países e organismos internacionais.
“Em Baku, o dia de maior movimento teve 28 mil pessoas”, lembrou Elizabete Grunvald, presidente da Associação Comercial do Pará, envolvida nos esforços para garantir a hospedagem de todos os participantes.
Preços assustadores
O alarme, no entanto, foi provocado pelos altos custos da hospedagem, diante de uma suposta escassez. Parece caótico: os hotéis variam de 320 a 4900 dólares por dia, segundo a plataforma de reservas Booking. Os contrastes se repetem nas casas de aluguel por temporada.
Essa especulação ocorre em todas as COPs e já era previsível em Belém, por se tratar de uma cúpula sem precedentes na cidade, gerando uma demanda muito superior à oferta, comentou Grunvald à IPS por telefone, desde Belém.
Mas um esforço de moderação do governo federal e das autoridades locais, junto com hotéis e agentes de aluguel, conseguiu “certa acomodação”, que ainda não é ideal, mas já permitiu uma leve redução dos preços, acrescentou.
Um argumento utilizado é que cobrar preços abusivos seria “um tiro no pé”, anulando o legado da COP30 para a cidade, que é a ampliação do turismo a longo prazo, argumentou a líder empresarial.
Nos navios, por exemplo, foi fixado um custo máximo de 220 dólares por hóspede para as delegações de 98 países menos desenvolvidos e insulares, e de 600 dólares para os demais.
Houve protestos de países pobres, que consideram os 220 dólares ainda excessivos, e também de países latino-americanos, que ficaram de fora do grupo prioritário.
Apesar de tudo, Grunvald encara com otimismo a preparação da COP30 e acredita que os preços irão cair à medida que a cúpula se aproximar, com a recuperação do bom senso por parte dos proprietários de imóveis para aluguel e gestores de hotéis.
Os antecedentes de outras COPs
Mattar pensa da mesma forma, embora reconheça que os preços em Belém estão muito acima dos das COPs anteriores que frequenta desde 2016, quando ocorreu em Marrakesh, cidade do Marrocos com 1,1 milhão de habitantes.
Essas conferências do clima aconteceram desde então em várias cidades menores que Belém, como Sharm el-Sheikh, no Egito (2022), com 73 mil habitantes, e Glasgow (2021), na Escócia, com 650 mil habitantes.
Mas, em geral, são cidades com mais hotéis, por serem centros turísticos ou por terem uma economia mais desenvolvida e densa que a de Belém, destacou Mattar à IPS por telefone, desde São Paulo.
Na COP24, realizada na cidade polonesa de Katowice em 2018, ela teve que procurar um hotel em Cracóvia, a 77 quilômetros de distância, para fugir dos preços exorbitantes.
Mas os organizadores querem que a COP30 tenha uma participação massiva, como costuma acontecer nas conferências mundiais realizadas no Brasil, como a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1992, no Rio de Janeiro, e a do G20 (Grupo das 20 maiores economias do mundo), marcada para a mesma cidade em novembro de 2024.
Uma COP30 inclusiva amplia as possibilidades de sucesso nos objetivos climáticos, num momento em que eventos extremos afetam populações em todos os continentes e diante das dificuldades de cumprimento do Acordo de Paris, firmado na COP21, em 2015, na capital francesa, pelo qual cada país estabeleceu metas para limitar o aquecimento global a 1,5 grau Celsius.
Além disso, pela primeira vez a COP ocorre na Amazônia, que é “solução climática para o mundo, não um problema”, segundo Mattar.
É uma oportunidade singular para muitos atores climáticos. Os indígenas brasileiros pretendem mobilizar entre 3000 e 4000 “parentes”, como se autodenominam, durante a conferência em Belém.
Para eles e outros ativistas de movimentos populares, não há as mesmas dificuldades de hospedagem que preocupam as delegações governamentais e as organizações ambientalistas. Eles se alojam em acampamentos improvisados, escolas e outros espaços adaptados, com poucos banheiros. Ter uma rede de dormir é o suficiente para eles.
Também haverá uma participação empresarial sem precedentes, segundo Mattar. Os agricultores, por exemplo, ocuparão a chamada “Agrizone”, em alusão à Zona Azul, exclusiva das COPs para delegações oficiais e organismos internacionais, e à Zona Verde, onde se reúne a sociedade civil.
Na imagem, o Parque da Cidade, em Belém. Foi construído no local onde ficava o antigo aeroporto e vai abrigar os participantes COP30 / Alexandre Costa/Agência Pará
Este texto foi publicado originalmente pela Inter Press Service (IPS)

É correspondente da IPS desde 1978, e está à frente da editoria Brasil desde 1980. Cobriu eventos e processos em todas as partes do país e ultimamente tem se dedicado a acompanhando os efeitos de grandes projetos de segurança, infraestrutura que refletem opções de desenvolvimento e integração na América Latina.
