Limites urbanos de Belém: Como sediar uma COP do clima bem-sucedida

Por Felix Dodds e Chris Spence*
SÃO FRANCISCO (CA) – Sem dúvida, a maioria dos ativistas climáticos e governos ficou entusiasmada quando o Brasil se ofereceu para sediar a Conferência do Clima da ONU de 2025, que acontecerá em novembro.
O Brasil desempenhou um papel crucial na formação da agenda de desenvolvimento sustentável. Foi anfitrião da Cúpula da Terra do Rio em 1992, que estabeleceu a Agenda 21 e o plano para a sustentabilidade no século XXI, a Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento — com 27 princípios destinados a orientar os países em direção ao desenvolvimento sustentável — além de acordos assinados para a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) e os Princípios Florestais.
A partir da Cúpula da Terra no Rio, surgiu um novo órgão da ONU para monitorar a implementação desses acordos: a Comissão de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Também foi negociada, em apenas dois anos, uma nova convenção — a Convenção de Combate à Desertificação (UNCCD) — que, junto com a UNFCCC e a CDB, passou a ser conhecida como as Convenções do Rio.
Talvez menos conhecido seja o fato de que a Cúpula também deu início a outros acordos importantes: o Acordo sobre Estoques de Peixes Transzonais (assinado em 1995, entrou em vigor em 2001), o tratado sobre Poluentes Orgânicos Persistentes (assinado em 2001, entrou em vigor em 2004) e a Convenção de Consentimento Prévio Informado (assinado em 1998, entrou em vigor em 2004).
Em 2012, o Brasil também sediou a conferência Rio+20, que elevou o órgão de governança do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) a um corpo universal — a Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente — e converteu a Comissão de Desenvolvimento Sustentável da ONU no Fórum Político de Alto Nível da ONU. A Rio+20 também foi o ponto de partida do processo que levou à adoção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
Há referências a outras áreas dos ODS ao longo do texto, destacando o papel significativo que o Brasil desempenhou na construção da agenda de desenvolvimento sustentável.
Hora de brilhar de Belém
Tanto a conferência de 1992 quanto a de 2012 foram realizadas no Rio de Janeiro, em parte porque a cidade podia acomodar facilmente o grande número de participantes em seus hotéis.
Em 1992, estima-se que 38.000 pessoas participaram, além de outras 16.000 que estiveram no Fórum das ONGs. A conferência Rio+20 recebeu mais de 45.000 participantes.
Desta vez, o governo brasileiro decidiu sediar a Cúpula do Clima da ONU, COP30, em Belém. A lógica é sólida: a cidade está localizada no leste da Amazônia, tornando-se o lugar ideal para discutir mudanças climáticas e o compromisso do Brasil com a proteção de uma floresta tão vasta que é chamada de “pulmão do planeta”. Simbolicamente, a escolha de Belém faz todo o sentido.
Mas a decisão também gerou controvérsias.
Na verdade, muitos delegados e outros participantes da reunião preparatória da ONU em Bonn, em junho, não ficaram satisfeitos com a escolha de Belém como cidade-sede.
Por quê? Tudo se resume às limitações enfrentadas por uma cidade pequena. As estimativas variam, mas Belém possui apenas cerca de 7.900 quartos de hotel disponíveis. A equipe brasileira está se esforçando para atender à demanda, incluindo navios de cruzeiro (4.000 quartos), acomodações do tipo Airbnb ou aluguéis de curto prazo (16.500 quartos), e até a conversão de escolas.
Isso ainda está longe de ser suficiente para uma Cúpula do Clima da ONU dessa escala e magnitude.
Segundo a Reuters, o presidente da COP30, Correla, afirmou que havia mais de 30.000 quartos disponíveis, em comparação com a estimativa de 20.000 que os oficiais da ONU disseram ser necessária. Para dar perspectiva, aqui estão os números das últimas cinco COPs — excluindo os participantes da chamada “Zona Verde”, que geralmente promove atividades de desenvolvimento sustentável para o público local e para aqueles que não têm acesso ao evento principal.
Estimativa de Participação
Uma forma de estimar o número de participantes é calcular a média das últimas quatro COPs. Está claro que, desde Glasgow, os números aumentaram consideravelmente. Se tomarmos essa média, podemos esperar que a COP no Brasil atraia cerca de 58.000 pessoas.
Esses números ultrapassam em muito a capacidade de Belém. Além disso, a oferta limitada de quartos já está impactando os preços de forma dramática, com diárias ultrapassando US$ 1.000 em muitos casos. Isso é especialmente preocupante para delegações pequenas de países mais pobres e outros participantes essenciais, como grupos indígenas e ONGs, que não têm os recursos financeiros de nações mais ricas.
Belém e os anfitriões brasileiros estão fazendo de tudo para atender à demanda. Dois navios de cruzeiro foram trazidos, oferecendo 6.000 leitos adicionais, que serão disponibilizados a preços mais baixos para delegações de países em desenvolvimento. Estão também trabalhando ativamente para ampliar a capacidade via Airbnb, além de converter escolas e outros espaços em acomodações temporárias.
Segundo uma reportagem recente do New York Times, até “motéis” estão sendo convertidos em hotéis convencionais, com a remoção de elementos “eróticos” como — acredite se quiser — postos de pole dance.
Mesmo com essas soluções criativas, muitos ainda temem que haverá escassez de acomodações.
Uma grande tenda
Por que isso importa? Afinal, alguns acreditam que as COPs estão ficando grandes demais. Críticos de megaeventos apontam, com razão, que essas reuniões enormes geram pesadelos logísticos. Além disso, observam que apenas alguns milhares dos participantes estão realmente envolvidos nas negociações da ONU. Por que precisamos de todos os outros?
Com o avanço de lobbies de combustíveis fósseis e o apoio crescente de alguns políticos, há governos que estão reduzindo seus compromissos climáticos. Isso poderia significar delegações menores.
Mas há um contra-argumento: a maioria do público — e dos governos — continua firmemente comprometida com o enfrentamento da ameaça existencial das mudanças climáticas. Por isso, o mundo precisa de oportunidades para reunir grandes grupos e demonstrar esse compromisso.
A COP30 no Brasil poderia ter sido esse momento. Poderia ter sido um evento histórico, com forte participação de organizações indígenas, grupos comunitários e outros atores tradicionais.
Poderia ter energizado cidadãos preocupados e ativistas climáticos a criar uma narrativa compartilhada para enfrentar a crescente oposição à ação climática. Claro, parte disso ainda acontecerá em Belém, seja com 20.000, 30.000 ou mais participantes. Mas, devido às limitações da cidade, não atingirá o potencial que poderia ter.
Um novo modelo?
Embora seja tarde para mudar o local da COP30, talvez seja hora de considerar um novo sistema. Seria bem-vindo um processo em que a ONU avaliasse as opções propostas pelo país anfitrião. Essa avaliação poderia ser enviada ao Bureau da COP, que tomaria uma decisão em coordenação com o país.
Isso ajudaria a evitar o descompasso entre o número de interessados e a capacidade real de acomodação.
Um bom exemplo foi o processo transparente da África do Sul para a Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável de 2002. O governo permitiu que cidades como Cidade do Cabo, Durban e Joanesburgo se candidatassem. A ONU fez uma visita técnica e concluiu que apenas Joanesburgo poderia acomodar os 37.000 participantes oficiais.
COP31: Austrália e Turquia
Olhando para o futuro, os dois países que desejam sediar a COP31 são Austrália e Turquia.
- Austrália:
- Melbourne: 26.500 quartos
- Sydney: 43.000 quartos
- Brisbane: 21.000 quartos (com mais 3.000 em construção)
- Perth: 16.000
- Adelaide: 10.000
- Canberra: 7.500 → Provavelmente, Sydney, Melbourne ou Brisbane têm capacidade para sediar.
- Turquia:
- Istambul: entre 75.000 e 200.000 quartos
- Dados precisos de Ancara e Izmir são difíceis de obter → Istambul tem capacidade mais que suficiente.
Além da hospedagem, é preciso considerar transporte, tamanho do centro de conferências, e opções de alimentação, incluindo vegetarianas e veganas.
Outra mudança desejável no processo climático é tanto logística quanto substantiva. Como presidente da COP30, o Brasil está desenvolvendo um processo essencial na “Zona Azul” para focar na implementação da UNFCCC e do Acordo de Paris. Com a reputação diplomática do Brasil, essa inovação é bem-vinda.
Futuras presidências devem seguir esse exemplo. Precisamos que as COPs acelerem o foco na implementação, se quisermos manter o aquecimento bem abaixo de 2°C, e preferencialmente abaixo de 1,5°C, até o fim do século.
A Zona Azul aprimorada deve ser o lar de projetos inspiradores e coalizões voltadas não para políticas, mas para ações concretas. Como disse o ex-presidente dos EUA, Barack Obama:
“Somos a primeira geração a sentir os efeitos das mudanças climáticas e a última que pode fazer algo a respeito.”
*Felix Dodds e Chris Spence participam das negociações ambientais da ONU desde a década de 1990. O livro mais recente da dupla, ‘Lobbying Ambiental nas Nações Unidas: Um Guia para a Proteção do Nosso Planeta’, foi publicado em junho de 2025.
Este texto de opinião foi publicado inicialmente pela Inter Press Service (IPS)

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