O caldeirão europeu
A Europa tem sofrido com temperaturas que anunciam tragédias. Neste ano, dados indicam mais de 1.300 mortes apenas nas primeiras semanas de verão na França, Reino Unido e Irlanda.
Por Celso Japiassu
Do Porto, Portugal
A Europa tem sofrido com temperaturas que anunciam tragédias. Os anos de 2022 e 2023 contaram mais de cem mil mortes devidas ao calor e assim tem se repetido a contagem da perda de vidas humanas. Este ano de 2026 deve quebrar os recordes. Os dados preliminares indicam mais de 1.300 mortes apenas nas primeiras semanas de verão na França, Reino Unido e Irlanda. A maioria das vítimas são idosos, com condições médicas pré-existentes e a população mais pobre. Os pobres, como sempre, estão mais expostos à tragédia dos acontecimentos.
Os médicos avisam que o estresse térmico sobrecarrega o sistema cardiovascular e aumenta o número de infartos e derrames. O calor extremo agrava doenças respiratórias e pode levar à falência renal por desidratação. Sem contar o impacto na saúde mental e no sono. Estudos realizados em 2026 mostram que o calor noturno está a causar uma crise de privação de sono em massa na Europa, o que reduz a produtividade, aumenta a irritabilidade e agrava transtornos de ansiedade e depressão.
A Europa, historicamente conhecida pelo clima temperado e estações bem definidas, atravessa uma transformação drástica e alarmante. O que antes eram eventos extremos raros, tornou-se uma realidade recorrente e devastadora dos verões no continente.
A solução, apontam os estudiosos, seria uma combinação de inovação tecnológica, mudanças no estilo de vida e, acima de tudo, vontade política. A Europa deve não apenas se proteger, mas também liderar a transição global para um mundo sustentável. O caldeirão europeu é um sinal de alerta para todo o mundo: o tempo de agir é agora, antes que o calor se torne insuportável para as próximas gerações.
Um continente em chamas
O diagnóstico da ciência é inquietante. Segundo o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus (C3S) e a Organização Meteorológica Mundial (OMM), a Europa é o continente que aquece mais rapidamente no mundo, com taxas de aumento de temperatura que representam o dobro da média global. Este aquecimento acelerado é impulsionado por uma complexa combinação de fatores.
A principal causa permanece inalterada: a acumulação de gases de efeito estufa na atmosfera, resultante da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento. Estudos demonstram que as ondas de calor de 2025 e 2026 seriam estatisticamente impossíveis sem a influência humana. O aumento da concentração de CO2 atua como um cobertor térmico, retendo o calor e intensificando a radiação solar.
Além do aquecimento global, alterações na dinâmica da atmosfera têm desempenhado um papel determinante. A “corrente de jato” (jet stream) que normalmente transporta ar fresco do Atlântico para a Europa, tem apresentado ondulações mais pronunciadas e persistentes. Esses “bloqueios atmosféricos”, diz a ciência, aprisionam massas de ar quente e seco sobre o continente por semanas, impedindo a chegada de frentes frias e aumentando as temperaturas. Em 2024, o sudeste da Europa enfrentou sua onda de calor mais longa já registrada, com 13 dias consecutivos de temperaturas extremas, afetando mais de 55% da região.
Os mares que circundam a Europa também estão atingindo temperaturas recordes. Em 2025, as águas do Mediterrâneo e do Atlântico Norte registraram suas maiores temperaturas superficiais, o que contribui para a manutenção de noites tropicais (onde a temperatura não cai abaixo de 20°C) e alimenta a intensidade das massas de ar quente que se deslocam para o interior do continente.
O impacto mais imediato e trágico das ondas de calor é a perda de vidas humanas. O calor extremo é chamado de “assassino silencioso”, pois seus efeitos não são tão dramáticos visualmente quanto os de uma inundação ou furacão, mas sua letalidade é também imensa.
A combinação de calor extremo e secas prolongadas transformou vastas áreas da Europa em “barris de pólvora”. Entre 2024 e 2026, países como Grécia, Portugal, Espanha e até mesmo nações mais ao norte, como a Suécia, enfrentaram incêndios florestais de enormes proporções. Esses incêndios não apenas destroem a biodiversidade e as propriedades, mas também liberam enormes quantidades de carbono na atmosfera, criando um ciclo de retroalimentação que acelera ainda mais o aquecimento global.
Os Alpes
Os glaciares dos Alpes estão desaparecendo. O calor intenso de 2025 causou uma perda de massa glacial sem precedentes, ameaçando as reservas de água doce que alimentam grandes rios europeus como o Reno e o Ródano. A redução do fluxo desses rios tem consequências diretas para o transporte fluvial, a geração de energia hidrelétrica e o resfriamento de usinas nucleares.
Ao mesmo tempo, as ondas de calor estão causando o branqueamento de corais no Mediterrâneo e a chegada de espécies invasoras, desestabilizando as cadeias alimentares locais e afetando a indústria da pesca.
O setor agrícola é um dos mais atingidos. Ondas de calor durante períodos críticos de crescimento das culturas levam a quebras de safra massivas. Em 2025, a produção de cereais, azeitonas e uvas no sul da Europa sofreu reduções e aumentou os preços dos alimentos pressionando a inflação. A pecuária também sofre, com a redução da produtividade de leite e carne devido ao estresse térmico nos animais.
O calor extremo reduz drasticamente a capacidade de trabalho, principalmente em setores ao ar livre, como construção e agricultura. A estimativa é que, na Alemanha, as ondas de calor de 2026 devem resultar em perdas de produtividade superiores a 130 bilhões de dólares. Trilhos de trem podem entortar, o asfalto das rodovias pode derreter e a rede elétrica enfrenta picos de demanda para ar-condicionado, muitas vezes levando a apagões ou à necessidade de racionamento.
Embora a adaptação seja imprescindível para a sobrevivência a curto prazo, a única solução duradoura é a interrupção da queima de combustíveis fósseis, dizem os estudos científicos. A Europa tem liderado o caminho com o “Pacto Ecológico Europeu”, mas as ondas de calor de 2024-2026 mostram que o ritmo da transição energética precisa ser acelerado. Cada fração de grau de aquecimento evitada representa milhares de vidas salvas e bilhões de euros preservados.

Poeta, articulista, jornalista e publicitário. Traballhou no Diário de Minas como repórter, na Última Hora como chefe de reportagem e no Correio de Minas como Chefe de Redação antes de se transferir para a publicidade, área em que se dedicou ao planejamento e criação de campanhas publicitárias. Colaborou com artigos em Carta Maior e atualmente em Fórum 21. Mora hoje no Porto, Portugal.
É autor de Poente (Editora Glaciar, Lisboa, 2022), Dezessete Poemas Noturnos (Alhambra, 1992), O Último Número (Alhambra, 1986), O Itinerário dos Emigrantes (Massao Ohno, 1980), A Região dos Mitos (Folhetim, 1975), A Legião dos Suicidas (Artenova, 1972), Processo Penal (Artenova, 1969) e Texto e a Palha (Edições MP, 1965).
