O Imperador Donald no Hospício do Capitólio

POR FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA
CENA 1 – PRÓLOGO HISTÓRICO (Narrador em off, imagens em preto e branco de gravuras do século XIX.)
Narrador: “Em 1818, antes mesmo da morte de Napoleão Bonaparte, cinco homens já viviam no hospital Charenton, cada um absolutamente certo de ser o imperador francês. Eles imitavam sua postura, seu tom de voz e até seu temperamento — orgulhoso, tirânico, abrupto, colérico. Dois séculos depois, a epidemia mental volta… mas desta vez, o paciente é um ex-presidente americano.”
CENA 2 – SALA DE OBSERVAÇÃO PSIQUIÁTRICA, WASHINGTON (Imperador Donald, em uniforme napoleônico, caminha em círculos, mãos atrás das costas, olhar altivo.)
Donald: “Anotem: o Brasil é meu quintal, o Canadá é minha fazenda, e a ONU é meu gabinete de generais. Nenhum juiz, nem mesmo esse tal de Alexander The Great, vulgo Chandon, pode contrariar meu destino!”
(Ele se vira bruscamente para um assessor, apontando com um cabo de vassoura como fosse uma espada.)
Donald: “E tragam o mapa da América do Sul. Quero redesenhar as fronteiras para ficarem mais… como províncias americanas. Como minha assinatura…”
CENA 3 – CORREDORES DO CONGRESSO AMERICANO (Dois assessores cochicham enquanto observam a movimentação.)
Assessor 1: “Ele está pior. Hoje tentou impor o toque de recolher em Brasília. A partir do porta-aviões ancorado no Lago Paranoá.”
Assessor 2: “Pior foi ontem, quando ordenou construirmos um Arco do Triunfo em frente ao Capitólio… usando apenas mármore brasileiro. Disse ser um ‘tributo ao nosso quintal’.”
CENA 4 – EMBAIXADA DO BRASIL, WASHINGTON (O embaixador brasileiro fala ao telefone com o Itamaraty, enquanto pela janela vê trumpistas, dublês de capachonaristas, fantasiados de Napoleão e marchando com bandeiras brasileiras.)
Embaixador: “Sim, senhor chanceler. A situação é… peculiar. O Imperador exige reconhecermos seu direito de nomear o próximo presidente do Brasil. E ameaçou confiscar nosso café se não aceitarmos. O detalhe é os EUA nunca terem produzido um grão sequer…”
CENA 5 – MONÓLOGO DO PRESIDENTE BRASILEIRO (Olha para a câmera enquanto coloca açúcar na xícara de café.)
Chanceler: “No hospício de Charenton, havia cinco Napoleões. Aqui, só há um — mas ele vale por dez. Não se negocia com delírios, mas se pode usá-los. Se ele quer ser imperador, tirar a coroação das mãos do papa e se autocoroar, deixemos a coroa pesar na cabeça… até quebrar o pescoço político.”
CENA 6 – CLÍMAX NO CAPITÓLIO (Trump, de uniforme, discursa para apoiadores fantasiados de soldados imperiais.)
Donald: “Hoje Washington… amanhã Brasília! O Brasil voltará a ser meu quintal particular! E quem se opuser será… deportado para Portugal!”
(Corte rápido para parlamentares apavorados na galeria, enquanto a notícia explode nas redes: ‘Imperador Donald declara guerra comercial ao Brasil’.)
CENA FINAL – FECHO DO NARRADOR: “Quando o inconsciente coletivo se ativa, não há vacina. O que começa como um delírio individual pode contagiar um país inteiro… e às vezes, até dois: EUA e Israel. Em Charenton, eram cinco Napoleões. No mundo pós-moderno, basta um com acesso ao X, uotzap ou Instagram.”
(Fade out. Som distante de tambores militares misturados ao barulho de máquina de café.)
Logo foi emitido um“edital de internação compulsória”, como documento oficial da Suprema Corte americana, ordenando o Imperador Donald ser internado — com laudos médicos, diagnósticos e notas diplomáticas brasileiras no rodapé.
SUPREME COURT OF THE UNITED STATES
Case Nº 2025-HOSP-001
In the Matter of: Donald J. Trump
(Also Known as: “Sua Majestade Imperial Donald I, Napoleão de Mar-a-Lago”)
EDITAL DE INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA
Em nome do povo dos Estados Unidos da América, e para preservar a segurança nacional, a ordem pública e a sanidade coletiva:
Considerando:
- O referido cidadão passou a acreditar, com convicção inabalável, ser o legítimo sucessor de Napoleão Bonaparte;
- Manifestou delírios geopolíticos, declarando o Brasil ser seu “quintal imperial” e o Canadá ser “uma província anexa”;
- Ordenou, sem competência legal ou lógica, a construção de um Arco do Triunfo em frente ao Capitólio, a renomeação da Casa Branca para “Palácio das Tulherias 2.0” e a implantação de toque de recolher em Brasília;
- Tentou mobilizar tropas imaginárias para “tomar Brasília” a fim de obrigar o Congresso brasileiro a aprovar leis só existentes em seus discursos;
- Apresenta comportamento social compatível com o Quadro Napoleônico Avançado — orgulhoso, tirânico, abrupto, colérico, caprichoso e incapaz de aceitar café sem coroação prévia;
Fica decretado:
I – O paciente será imediatamente removido para o Hospital Psiquiátrico Presidencial de Charenton – Unidade Washington, especializado em Napoleões de Hospício, onde permanecerá até cessar a autoproclamação imperial ou pelo menos parar de desenhar mapas do Brasil em guardanapos;
II – Fica proibido ao paciente com tornozeleira-eletrônica tal como seu Capachonaro:
a) Usar uniforme militar histórico fora de festivais temáticos;
b) Emitir decretos imperiais sobre países soberanos, especialmente o Brasil;
c) Aproximar-se de cafeterias brasileiras, dado seu vício insuperável em cafeína;
III – A Embaixada do Brasil será autorizada a enviar um emissário psiquiátrico, acompanhado de baristas oficiais, para avaliar se a abstinência de café agrava ou atenua o quadro clínico;
Dado e passado na Suprema Corte, em 7 de agosto de 2025.
Assina: Chief Justice Alexander The Great
[Rodapé – Anotação diplomática confidencial do Itamaraty]
“Caso a internação falhe, sugerimos promover um baile de carnaval no Salão Oval, pois estudos demonstram marchinhas, confete e serpentina têm efeito temporário na contenção de delírios imperiais. É como a definição de hospício: ‘quem está não é; quem não está é…”.
Foto: Casa Branca/Flickr

Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da UNICAMP. Obras (Quase) Completas em livros digitais para download gratuito em http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/). E-mail: [email protected].
