A Colômbia ainda precisa cumprir o acordo de paz

NAÇÕES UNIDAS – A violência vivida na Colômbia até agora este ano reflete as deficiências na implementação do acordo de paz de 2016 entre o governo e seu antigo principal grupo guerrilheiro, disse o representante especial das Nações Unidas para a Colômbia, Carlos Ruiz Massieu.
“Se o acordo tivesse sido implementado de forma mais completa nos últimos oito anos, não teríamos situações como as de Catatumbo ou Cauca hoje”, disse Ruiz Massieu ao apresentar o relatório trimestral de sua missão ao Conselho de Segurança da ONU.
O Acordo de Paz, entre o governo do então presidente Juan Manuel Santos (2010-2018) e a guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), foi planejado não apenas como uma cessação das hostilidades, mas também como um instrumento para promover transformações estruturais na sociedade colombiana, lembrou Ruiz Massieu.
A maior parte das FARC – que chegou a contar com mais de 16.000 combatentes – desmobilizou-se, mas alguns grupos dissidentes persistem com ações violentas em várias partes do país, assim como outra formação guerrilheira, o Exército de Libertação Nacional (ELN).
“Muitas disposições do acordo ainda não foram totalmente implementadas. Esse é o caso da reforma rural abrangente, que visa abordar uma longa história de distribuição desigual de terras e pobreza rural nas regiões afetadas pelo conflito”, disse Ruiz Massieu.
Além disso, “as economias ilícitas estão entrelaçadas com o conflito na Colômbia. A solução desse problema é necessária para consolidar a paz. As disposições do Acordo sobre o problema das drogas ilícitas têm o potencial de contribuir para essas soluções”, disse o chefe da missão.
“No entanto, o sucesso de instrumentos como a substituição voluntária de cultivos tem sido limitado, entre outras razões, devido ao fracasso do Estado em entregar a ajuda ao desenvolvimento prometida aos agricultores que erradicaram voluntariamente a coca”, acrescentou.
Na região do rio Catatumbo, na fronteira nordeste com a Venezuela, com milhares de hectares plantados com coca, o controle do território e o tráfico de drogas nos últimos meses marcaram uma luta feroz entre os dissidentes do ELN e das FARC, com milhares de famílias presas no meio dos confrontos.
Os combates deixaram mais de 80 pessoas mortas e forçaram o deslocamento de cerca de 80.000 pessoas, pelo menos metade delas crianças, em vilarejos e cidades.
Por outro lado, nas regiões de Chocó (oeste) e Cauca (sudoeste), a atividade de dissidentes guerrilheiros e outros grupos armados continua a causar mortes e deslocamentos entre as comunidades indígenas e afrodescendentes.
Ruiz Massieu reconheceu, no entanto, que houve “avanços políticos, institucionais e sociais significativos” e que os níveis de violência são menores do que os registrados durante os pontos altos do conflito armado de meio século.
Ela citou a criação de um sistema de justiça transicional focado na verdade, reparação e reconciliação, lembrando que a Jurisdição Especial para a Paz, estabelecida em 2017, acusou os responsáveis por crimes graves e ouviu milhares de vítimas de violência.
Ele também observou que cerca de 12.000 ex-membros das FARC continuam comprometidos com a legalidade e participam ativamente de projetos produtivos.
Isso apesar do fato de 23 ex-guerrilheiros signatários do acordo de 2016 terem sido mortos até agora neste ano, “o que ressalta a urgência de fortalecer a proteção dos ex-combatentes. Se isso não for feito, o processo de reintegração” à vida civil estará em risco.
Por fim, Ruiz Massieu destacou a resiliência “ou quase teimosia” da Colômbia em sua busca pela paz por meio de soluções negociadas, bem como o constante apoio internacional. “Isso mostra o que pode ser alcançado quando a vontade das partes é combinada com um amplo apoio global”, concluiu.
Na sessão do Conselho, a Ministra das Relações Exteriores da Colômbia, Laura Sarabia, reconheceu os desafios restantes, especialmente em termos de segurança para ex-combatentes e comunidades mais vulneráveis.
“Os signatários foram deixados em meio a uma violência que ameaça nos mergulhar em mais anos de agitação”, admitiu.
Ele disse que, no entanto, “houve progresso em regiões importantes como Catatumbo, Nariño (sudoeste) e Cañón del Micay (uma área de cultivo de coca em Cauca), onde a presença institucional começou a deslocar os atores armados”.
“Apesar dos erros do passado e do legado de décadas de conflito, uma nova geração de colombianos continua a sonhar com um país em paz”, observou o ministro das Relações Exteriores.
Este texto foi publicado originalmente pela Inter Press Service (IPS)
Na imagem, um indígena do oeste da Colômbia que, com sua comunidade, teve que deixar suas terras para escapar do turbilhão da violência.

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