Embargo de petróleo dos EUA prejudica turismo e transporte em Cuba

Embargo de petróleo dos EUA prejudica turismo e transporte em Cuba

Turistas russos chegam ao Aeroporto Internacional de Varadero, em Matanzas, a 100 quilômetros a leste de Havana, para retornar à Rússia em um avião fretado pelo país. A escassez de combustível de aviação representou um golpe devastador para o já fragilizado setor turístico cubano. (Imagem: Jorge Luis Baños / IPS)

POR DARIEL PRADAS

HAVANA – O setor turístico de Cuba já começa a sofrer uma onda de cancelamentos de reservas de hotéis, após relatos de que a ilha ficou sem combustível de aviação em decorrência do embargo de petróleo imposto pelo governo de Donald Trump no final de janeiro.

“Primeiro, cancelaram duas das minhas reservas de fevereiro. Depois, de repente, começaram a cancelar todas as minhas reservas restantes. Eu tinha quase todo o primeiro semestre do ano reservado. Agora não sei o que vou fazer”, disse Lisandra Pérez, que administra três casas de aluguel para estrangeiros em Havana, à IPS.

Fontes do setor de aviação, como a Administração Federal de Aviação dos EUA, informaram no domingo, dia 8, que as autoridades cubanas comunicaram aos pilotos e controladores de tráfego aéreo que não há combustível de aviação nos principais aeroportos do país.

Rotas curtas, como as que vão de Cancún, no México, a Havana, ou da Flórida, nos Estados Unidos, não sofreram impactos significativos em seus cronogramas, pois possuem o combustível necessário para a viagem de volta.

Na segunda semana de fevereiro, começaram as perturbações na indústria do turismo em Cuba, especialmente depois de a Air Canada anunciar que, a partir de segunda-feira, dia 9, suspenderia os seus 16 voos semanais para quatro cidades cubanas.

O Grupo WestJet, que opera as companhias aéreas WestJet, Sunwing Vacations, WestJet Vacations e Vacances WestJet Quebec, afirmou ter iniciado uma “redução ordenada” de suas operações em Cuba para diminuir a pressão sobre os recursos locais.

Ambas as companhias aéreas disseram que enviariam aviões vazios de Montreal e Toronto para Cuba para trazer de volta ao Canadá cerca de 3.000 cidadãos que atualmente estão visitando a ilha.

“Cuba sofre com uma escassez crônica de combustível há vários anos. Esse bloqueio de petróleo só agrava a situação. Haverá mais apagões. E isso significa que o dia a dia das pessoas em Cuba será mais difícil”, Daniel Torralbas.

A suspensão dessas rotas será um grande golpe para um setor que já enfrenta dificuldades, visto que o Canadá tem sido a principal fonte de turistas para Cuba durante anos.

Outras companhias aéreas, como a russa Rossiya Airlines e a Nordwind Airlines, também suspenderam suas rotas para essa nação insular caribenha e elaboraram estratégias para repatriar os cidadãos que haviam chegado ao país como turistas.

Companhias aéreas, como a espanhola Iberia, optaram por flexibilizar suas políticas de cancelamento para facilitar a saída de Cuba dos passageiros, ou adicionaram escalas em terceiros países para reabastecimento.

“Alguns clientes não vieram porque seus voos foram cancelados. E outros não vieram porque não se sentiram à vontade para vir a Cuba devido à situação atual”, com frequentes cortes de energia, escassez de gasolina e outras dificuldades, acrescentou Pérez.

Um pequeno petroleiro navega pela Baía de Havana. Vender petróleo para Cuba tornou-se inviável após uma ordem executiva dos EUA que ameaça impor tarifas e outras medidas contra os países que fornecem petróleo bruto à ilha. Imagem: Jorge Luis Baños/IPS

Nenhum sinal de petróleo

A paisagem urbana de Havana já sofreu mudanças drásticas: os chamados “almendrones” – carros clássicos da década de 1950 ou anteriores – que costumavam servir como táxis compartilhados, foram substituídos por triciclos elétricos chineses que não atendem à demanda de pedestres.

De modo geral, os preços dos bilhetes têm aumentado desde sábado, dia 7, quando a empresa estatal Cimex suspendeu a venda de combustível em moeda nacional e limitou a venda em dólares a 20 litros por veículo – a US$ 1,30 por litro –, após uma fila muito longa numa plataforma digital.

No mercado informal, a gasolina já está custando mais de cinco dólares o litro, segundo a cotação informal, e ainda não se sabe exatamente quando Cuba receberá um novo carregamento de combustível.

Assim, os moradores de Havana percorrem longas distâncias a pé para chegar ao trabalho ou a casa, em meio a crescentes pilhas de lixo, porque a coleta de lixo é mais uma vítima da escassez de combustível, que agora se agravou.

“Cuba sofre com uma escassez crônica de combustível há vários anos. Esse bloqueio de petróleo só agrava a situação. Haverá mais apagões. E isso significa que o dia a dia das pessoas em Cuba ficará mais difícil”, disse o economista cubano Daniel Torralbas à IPS.

Em 6 de fevereiro, o governo anunciou um plano de contingência para lidar com a crise de combustíveis, com medidas que incluem o racionamento da venda de combustíveis, a descentralização da sua importação e a autorização para que qualquer empresa – incluindo as privadas – o compre no exterior.

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Além disso, como parte do plano, o teletrabalho será ampliado, os trabalhadores serão realocados e a semana de trabalho será reduzida para quatro dias, de segunda a quinta-feira.

Segundo Torralbas, a vida profissional das pessoas será afetada negativamente: se ocorrerem cortes de energia nos locais de trabalho, ou mesmo se, por esse mesmo motivo, os trabalhadores não descansarem bem, haverá perda de produtividade.

“As empresas deixariam de cumprir seus planos, e os salários atrelados ao cumprimento desses planos poderiam cair; portanto, a renda familiar também diminuiria”, acrescentou.

Segundo uma reportagem publicada na quinta-feira, dia 12, pelo jornal russo Izvestia, citando fontes da embaixada russa em Havana, “espera-se que a Rússia forneça petróleo bruto e derivados de petróleo a Cuba em um futuro próximo como ajuda humanitária”.

O Kremlin reconheceu estar em “contato próximo” com Cuba, “discutindo opções para fornecer assistência”, disse o porta-voz presidencial Dmitry Peskov em uma coletiva de imprensa naquele mesmo dia.

A última vez que a Rússia enviou petróleo para a ilha foi em fevereiro de 2025, quando entregou 100.000 toneladas métricas de petróleo bruto.

No entanto, por ora, a ajuda evita violar a ordem executiva assinada por Trump em 29 de janeiro, que imporá tarifas aos países que fornecem petróleo a Cuba.

“Cuba não está sozinha”, diz uma faixa em inglês que acompanha as doações de medicamentos para crianças com câncer em Cuba, administradas pelo Projeto Hatuey, com sede nos EUA, em Havana. Vários países anunciaram o envio de ajuda humanitária a Cuba após o embargo de combustível imposto pelos Estados Unidos. Imagem: Jorge Luis Baños / IPS

Ajuda humanitária

Na quinta-feira, dia 12, dois navios da Marinha mexicana atracaram no porto de Havana, vindos de Veracruz, com 814 toneladas de suprimentos, sendo este o único carregamento de ajuda humanitária enviado a Cuba.

O carregamento inclui 536 toneladas de alimentos — leite líquido, produtos cárneos, feijão, arroz, atum, sardinha, óleo, biscoitos e artigos de higiene pessoal —, além de 277 toneladas de leite em pó destinadas a programas de atendimento prioritário.

Segundo informações do Ministério do Comércio Interno, a doação beneficiará pessoas na região oeste da ilha, com prioridade para crianças de até 13 anos e pessoas com mais de 65 anos, gestantes e crianças com baixo peso e estatura, além de famílias vulneráveis ​​em Havana e na província de Mayabeque, que faz fronteira com a capital a leste.

O México prometeu um segundo carregamento, enquanto busca maneiras de retomar os embarques de petróleo para a ilha e evitar as sanções dos EUA por fazê-lo.

A presidente mexicana Claudia Sheinbaum anunciou na sexta-feira 13 que, visto que as aeronaves podem retornar sem reabastecer, seu governo estaria disposto a estabelecer uma ponte aérea com Cuba, caso a ilha a solicitasse, com o objetivo de facilitar o apoio de outras nações.

A Espanha, por sua vez, enviará alimentos e produtos de saúde para aliviar a escassez, e o Chile fez uma contribuição de um milhão de dólares para o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), destinada a garantir água potável, saúde e nutrição para as crianças cubanas.

Além da ajuda governamental, uma coalizão de ativistas, partidos políticos e sindicatos, liderada pela Internacional Progressista, está preparando uma missão marítima para enviar ajuda a Cuba, na chamada Flotilha Nossa América.

Entretanto, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) instou, na terça-feira, dia 17, em conferência de imprensa com a presença da IPS, a mobilização de fundos para garantir que o processo educativo para as crianças continue em segurança.

O projeto Rebuilding Hope, promovido pela UNESCO para restaurar o aprendizado e fortalecer a resiliência de professores e alunos, após o trabalho realizado em comunidades afetadas pelo furacão Melissa em outubro de 2025, buscará enfrentar o desafio de apoiar o sistema educacional durante a crise de combustíveis.

“A questão é que o projeto precisa crescer e não ser interrompido por uma situação climática, porque constatamos que os problemas são decorrentes de uma situação prolongada, devido à deterioração das condições de trabalho dos professores e à falta de motivação”, disse Cristopher Simpsons, músico e membro do projeto, à IPS.

Do ensino secundário aos centros universitários, passarão a adotar um modelo de ensino híbrido, anunciou o governo em um pronunciamento televisionado na sexta-feira, dia 6.

Muitos centros de ensino superior já fecharam as portas, após devolverem milhares de estudantes que viviam em alojamentos universitários às suas comunidades de origem.

“O custo da inação recairá sobre toda uma geração”, disse a vice-ministra da Educação, Cira Piñeiro, na conferência realizada na terça-feira, dia 17.

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