Recordando Fidel Castro, um herói dos povos oprimidos
Por Anis Chowdhury*
SIDNEY — O dia 13 de agosto marcou o 100º aniversário do nascimento do líder revolucionário cubano Fidel Alejandro Castro Ruz — simplesmente Fidel Castro. Em meio à intensificação do cerco dos Estados Unidos e à ameaça de invasão, os cubanos comemoraram o centenário do nascimento de seu querido líder com eventos que incluíram uma Feira Internacional do Livro, exposições de arte, concertos e encontros de delegados de organizações de esquerda de todo o continente.
Cuba resistiu a mais de seis décadas de um bloqueio econômico ilegal dos Estados Unidos — isto é, não autorizado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas — desde sua revolução, em 1959. O país derrotou a invasão militar apoiada pela CIA — a Invasão da Baía dos Porcos, em 1961 — realizada por cubanos que fugiram para os Estados Unidos após a Revolução. Castro sobreviveu a 638 tentativas de assassinato da CIA.
Wayne Smith, um diplomata americano com longa experiência em Cuba, acredita que Fidel Castro será lembrado porque “enfrentou os Estados Unidos e sobreviveu”. Quando Castro morreu, em 2016, o principal veículo de comunicação americano CBS publicou um artigo de opinião intitulado “Como Fidel Castro enfrentou os EUA — e venceu”.
O bloqueio ilegal contra Cuba contribui para a escassez de alimentos, medicamentos, combustível e produtos essenciais, aumentando o custo da vida cotidiana para o povo cubano. No entanto, quando Castro recebeu o papa João Paulo II em 1998 e deixou que as imagens falassem por si mesmas, o mundo viu Cuba sobrevivendo apesar do embargo comercial americano.
O legado de Castro
O legado de Castro foi resumido da melhor maneira por Ken Livingstone, ex-prefeito de Londres. Em 2006, durante sua visita a Cuba, Livingstone afirmou: “O que é impressionante aqui é que vocês têm um país que sofreu um bloqueio econômico ilegal dos Estados Unidos por quase meio século e, ainda assim, conseguiu oferecer ao seu povo o melhor padrão de atendimento à saúde, uma educação brilhante… fazer isso sob um contexto de guerra econômica é um tributo a Fidel Castro.”
Assim, Cuba alcançou um elevado nível de desenvolvimento humano, medido pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Em comparação com a média mundial de 0,746, calculada com base em 185 países, o IDH de Cuba era de 0,762 em 2023. Em 1994, o IDH cubano chegou a 0,887. Por trás desse IDH superior à média mundial estão uma taxa de alfabetização de adultos próxima de 100% e uma elevada expectativa de vida, de aproximadamente 78,1 anos ao nascer.
Esses são resultados da oferta gratuita de serviços de saúde e educação para todos, considerados direitos. Cuba possui a maior proporção de médicos por pacientes do mundo, com 9,8 médicos para cada mil habitantes (2021), em comparação com 0,9 em 1960. Sua taxa de mortalidade infantil, de 3,86 por mil nascidos vivos, está entre as mais baixas do mundo. No Hospital Pediátrico William Soler, em Havana, mais de 90% dos recém-nascidos que necessitaram de cirurgia neonatal sobreviveram aos procedimentos.
A malária, a poliomielite, o tétano e o sarampo foram erradicados em Cuba graças a anos de investimentos na atenção primária e à atenção diligente à saúde da população. O compromisso de longa data de Cuba com a saúde contribuiu para uma resposta bem-sucedida à pandemia de COVID-19. Cuba gasta uma proporção maior de seu Produto Interno Bruto com educação do que qualquer outro país do mundo.
Infelizmente, o recente endurecimento do bloqueio unilateral e ilegal pelo governo Trump está impondo custos pesados e revertendo os avanços singulares alcançados por Cuba em seu desenvolvimento.
Um verdadeiro internacionalista
Castro foi um verdadeiro líder internacionalista do proletariado e apoiou os combatentes pela liberdade, especialmente na África. Em um comício que reuniu aproximadamente 1 milhão de cubanos em 1962, Fidel Castro apresentou a Segunda Declaração de Havana, um chamado à ação revolucionária dirigido aos combatentes anti-imperialistas e da classe trabalhadora em todo o mundo. Castro frequentemente reiterava que a ajuda internacionalista do povo cubano às lutas de libertação representava “o pagamento de nossa dívida com a humanidade”.
Castro enviou seu primeiro lote de apoio militar ao presidente argelino Ben Bella em 1963. A Cuba de Castro treinou revolucionários em Angola, Guiné-Bissau, Namíbia, República Democrática do Congo e Cabo Verde e lutou ao lado deles contra o domínio colonial. Castro classificou o apartheid como “uma criação do capitalismo e do imperialismo ocidentais”, e Cuba ajudou a derrubar o sistema de apartheid na África do Sul, fornecendo recursos e treinamento aos combatentes do Congresso Nacional Africano (ANC).
Apesar das dificuldades impostas ilegalmente pelos Estados Unidos, Cuba sempre esteve ao lado dos povos oprimidos e desamparados do mundo. Em 1960, Cuba participou dos esforços de ajuda após o terremoto no Chile. Em 1963, enviou profissionais de saúde para ajudar o recém-independente Estado da Argélia.
A Cuba de Castro vem enviando equipes de profissionais de saúde para todo o mundo a fim de combater desastres e epidemias. Médicos cubanos estavam presentes no Haiti durante o surto de cólera que se seguiu ao terremoto de 2010; chegaram à África Ocidental durante a crise do Ebola de 2013–2016. E, quando a COVID-19 se espalhou pela Europa, duas equipes cubanas de profissionais de saúde desembarcaram na Itália. Até o final de abril de 2020, mais de 1.000 profissionais cubanos de saúde estavam ajudando países estrangeiros a responder à COVID-19.
Castro concebeu e implementou um modelo inclusivo de assistência médica que levou os médicos até o povo. Ele ampliou a ajuda médica cubana a outros países, demonstrando o caráter essencialmente internacionalista e humano da Revolução Cubana.
Clare Wenham, professora-assistente de política global de saúde na London School of Economics and Political Science, observou: “O programa internacional de saúde trata de solidariedade; Cuba acredita que populações saudáveis são a base da sociedade global e quer apoiá-las de todas as maneiras possíveis.”
Mandela e Castro
Como muitos revolucionários e combatentes pela liberdade do Sul Global, Nelson Mandela foi inspirado pelo triunfo da Revolução Cubana em 1959. Encarregado da tarefa de iniciar um exército de guerrilha em 1961, Mandela recorreu aos escritos dos comunistas cubanos em busca de orientação.
Mandela visitou Cuba em 1991 para expressar sua gratidão a Castro, chamando a Revolução de Castro de “uma fonte de inspiração para todas as pessoas que amam a liberdade”. Mandela acrescentou: “Admiramos os sacrifícios do povo cubano para manter sua independência e soberania diante de uma campanha cruel orquestrada pelo imperialismo. Nós também queremos controlar nosso próprio destino.”
Durante um evento público em Havana, Mandela pediu a Castro que visitasse a África do Sul. Referindo-se a Castro, Mandela perguntou: “Quem treinou nosso povo, quem nos deu recursos, quem ajudou tantos de nossos soldados, nossos médicos? … Você ainda não veio ao nosso país — quando virá?”
Castro participou da posse presidencial de Mandela em maio de 1994. Barbara Masekela, ex-embaixadora da África do Sul nos Estados Unidos e que acompanhou Mandela a Cuba em 1991, disse que a amizade de Mandela com Castro havia “nascido nas trincheiras da luta pela liberdade”.
Um verdadeiro amigo dos oprimidos
Norberto Fuentes, escritor que já foi próximo de Castro e atualmente vive exilado, acredita que a relevância do líder cubano está em ser “o porta-voz do silêncio, do homem que não tem exército, não tem Congresso, não tem rosto. O homem que não tem nada.”
Milhares de internacionalistas cubanos contribuíram para batalhas decisivas pela independência de países africanos, ao mesmo tempo em que promoviam a cooperação nas áreas de saúde, educação e treinamento.
Apesar das dificuldades decorrentes do bloqueio ilegal dos Estados Unidos, a Cuba de Castro permaneceu como um exemplo brilhante de internacionalismo e ocupa um lugar especial na história das lutas populares contra o imperialismo.
*Anis Chowdhury, professor emérito da Western Sydney University (Austrália). Ocupou cargos de alto nível nas Nações Unidas em Bangkok e Nova York e atuou como Assistente Especial do Conselheiro-Chefe para Finanças (com status e posição de Ministro de Estado) no Governo Interino liderado pelo professor Yunus. E-mail: [email protected]; [email protected].
Este texto foi publicado originalmente pela Inter Press Service (IPS)
Imagem de Fidel Castro / Reprodução da Internet

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