Venezuela e EUA: Suspense, com o dedo no gatilho

Por Humberto Márquez
CARACAS – Um clima de suspense vive o Caribe, atento a um possível ataque contra a Venezuela pela poderosa força aeronaval que os Estados Unidos têm deslocado para esse mar, cujo objetivo mais precioso seria a queda do presidente venezuelano Nicolás Maduro.
“Os dias de Maduro como presidente estão contados”, disse o presidente dos EUA, Donald Trump, no programa 60 Minutes da emissora CBS em 2 de novembro. Exatamente um mês depois, diante da pergunta de um jornalista sobre se o presidente venezuelano deixaria o poder, respondeu: “Ele vai”.
No final de novembro, enquanto Washington acumulava forças e canhões apontando para Caracas, houve uma ligação entre ambos os governantes, na qual se misturaram ameaças e propostas, segundo meios de comunicação norte-americanos. Trump foi evasivo. Maduro afirmou que foi uma conversa “respeitosa e até cordial”.
Assim, permanece aberto — e ao mesmo tempo envolto em mistério — o leque de opções, cujos extremos vão desde uma invasão em toda regra à Venezuela até a retirada da frota norte-americana, como início ou conclusão de uma negociação.
“Não acredito numa invasão, embora possam ocorrer bombardeios. O mais provável — não digo que seja imediato, pode demorar um pouco mais — é que isso termine em uma negociação entre os Estados Unidos e a Venezuela”, disse à IPS Phil Gunson, analista sênior para a região andina da organização International Crisis Group.
“A força deslocada por Washington não é apenas para a Venezuela; faz parte de uma reorientação da política externa dos Estados Unidos, com maior ênfase no hemisfério ocidental e principalmente na bacia do Caribe. O que Trump busca é que os Estados Unidos voltem a ser o país que determina o que acontece em seu quintal”: Phil Gunson.
Radicado em Caracas há duas décadas, Gunson observa que “a força deslocada por Washington não é apenas para a Venezuela; faz parte de uma reorientação da política externa dos Estados Unidos, com maior ênfase no hemisfério ocidental e especialmente na bacia do Caribe”.
Em 5 de dezembro, a Casa Branca publicou sua nova Estratégia de Segurança Nacional, na qual desempolga — e dá um toque de Trump — à Doutrina Monroe, formulada há dois séculos sob o lema “A América para os americanos” e com a qual reivindica o papel de hegemon hemisférico que se atribui.
“Trump busca que os Estados Unidos voltem a ser o país que determina o que acontece em seu quintal”, comentou Gunson, cuja organização tem sede em Bruxelas e se dedica ao estudo e formulação de políticas de prevenção de conflitos.
Porta-aviões contra lanchas
A força no Caribe é a maior deslocada na área em seis décadas: o poderoso porta-aviões Gerald Ford, 20 navios de guerra, dezenas de aeronaves de última geração, 15.000 efetivos, reabertura de uma base militar em Porto Rico e instalação de radares em Trinidad e Tobago, vizinho hostil de Caracas.
Desde 2 de setembro, essa força tem destruído, no Caribe e no Pacífico oriental, 23 embarcações acusadas de transportar drogas, matando ao todo 87 ocupantes, demonstrando capacidade de alcançar qualquer alvo nos países que colocou em sua mira: Venezuela, Colômbia e México.
Entre seus argumentos, Trump afirmou que a cada lancha abatida eliminou-se a droga que poderia matar 25.000 norte-americanos.
Por overdose de drogas morreram no ano passado nos EUA 80.391 pessoas, segundo suas autoridades de saúde. O fentanil, a droga mais letal, não chega ao território norte-americano pelo Caribe ou Venezuela, mas sim através da fronteira com o México, onde máfias o produzem com insumos provenientes da China.

O presidente Nicolás Maduro caminha com militares, com sua esposa Cilia Flores à sua direita e os ministros do
Interior e da Defesa, Diosdado Cabello y Vladimir Padrino, à sua esquerda / Presidência da Venezuela
Maduro: Procura-se
A saída de Maduro do poder surge como um grande objetivo. Washington o acusa de ilegítimo por ter roubado a eleição presidencial de julho de 2024 — que teria sido vencida pelo opositor Edmundo González — e de liderar o cartel de narcotráfico “Cartel dos Sóis”, oferecendo recompensa de 50 milhões de dólares por sua captura.
Mas, dentro de sua política de “paz através da força”, Trump envia sinais contraditórios sobre se está disposto a atacar ou se apenas exibe seus canhões para alcançar objetivos por pressão, evitando o inferno de bombas e mísseis.
“Há ainda muita incerteza e não vejo clareza por parte do governo Trump sobre como proceder”, disse à IPS Mariano de Alba, pesquisador associado do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos do Reino Unido.
As alternativas mais prováveis, segundo De Alba, “são ataques cirúrgicos, seja contra instalações vinculadas ao narcotráfico ou às forças armadas, ou um acordo pontual”.
No cenário de um acordo, “o regime de Maduro faz algumas concessões importantes nas prioridades de Trump — imigrantes ilegais, narcotráfico e recursos naturais — e isso lhe permite permanecer no poder, enquanto Trump vende internamente o deslocamento militar como um sucesso”.
De Alba acrescenta que há ceticismo na Casa Branca sobre uma grande operação militar na Venezuela, pelos riscos envolvidos. Além disso, o próprio deslocamento está sendo politicamente complicado, com acusações de congressistas republicanos sobre possíveis crimes de guerra.
O Congresso norte-americano examina se seus comandantes militares cometeram tais crimes ao executarem sobreviventes das “narcolanchas” abatidas — e o tema já entrou de vez na confrontação entre Trump e o Partido Republicano, que o apoia, e o Democrata, que rejeita uma nova aventura bélica.
Analistas militares afirmam que a força deslocada é insuficiente para invadir um país como a Venezuela, com 916 mil km² e 29 milhões de habitantes.
Mas, por outro lado, é força demais para destruir apenas um punhado de pequenas embarcações — o pretexto para o início da operação em agosto — o que leva muitos a crer que o objetivo final é a cabeça de Maduro.
Venezuela, absorta em sua pobreza
Na Venezuela, após décadas de polarização política, devastação econômica, crise humanitária e migração de um quarto da população, a vida segue entre incerteza, expectativa ou desdém por uma eventual confrontação com a maior potência do planeta.
O governo tem tomado diversas medidas de defesa: ativação de sistemas antiaéreos russos, como Pantsir F-1, mísseis Buk-M2E e Igla-S, e entrega de fuzis a civis idosos que estreiam como milicianos.
Com discursos e marchas, o governo e o Partido Socialista Unido (PSUV) afirmam que a população está em alerta e disposta a combater em caso de ataque ou invasão — ressuscitando inclusive a tese da “guerra popular prolongada”.
Mas muitos cidadãos comuns permanecem focados em outras urgências, como a inflação mais alta do mundo — 535% neste ano, segundo o economista Steve Hanke, da Universidade Johns Hopkins — e a contínua desvalorização do bolívar frente ao dólar.
“Não posso fazer compras nervosas caso os marines venham”, disse Josefina, confeiteira, 39 anos, dois filhos, moradora de um bairro operário em Caracas. “Até posso ter nervos, mas no nosso bairro não sobra dinheiro para fazer compras”, afirmou rindo.
O Estudo das Condições de Vida dos venezuelanos, da Universidade Católica Andrés Bello, mostra que já em 2024, antes da depreciação confiscatória deste ano, 73% dos lares viviam na pobreza por falta de renda suficiente para suas necessidades básicas.
Visões sobre o desfecho
A política de Trump é apoiada pela principal líder opositora e Nobel da Paz 2025, María Corina Machado, e seus seguidores, enquanto outros grupos opositores rejeitam tanto possíveis ataques quanto uma invasão aberta.
Gabriel, mecânico de 45 anos de Petare, zona populosa de Caracas, diz: “Tem gente da oposição que deseja uma invasão, mas muitos não queremos, mesmo discordando de Maduro e de como ele tem o país. Teríamos que lutar; a pátria é a pátria.”
Enquanto isso, a pressão aumenta: antes do início da temporada de Natal e férias, Trump declarou que “o espaço aéreo venezuelano pode ser considerado fechado”, e meia dúzia de companhias aéreas da região e da Europa suspenderam voos ao país, já bastante isolado.
“Estão amargando a vida dos venezuelanos. Não vejo, a curto prazo, nada de bom para a população; ela está sendo ainda mais isolada do resto do mundo”, comenta Gunson. “Isso afeta a economia, que começava a mostrar sinais de recuperação e agora retrocede — podendo inclusive voltar à hiperinflação.”
No cenário de invasão, “há possibilidade de caos e vazio de poder, uma situação ainda pior, com elementos das forças armadas lutando entre si. É muito difícil que uma intervenção militar direta dos EUA resulte numa mudança pacífica, rápida e pouco dolorosa”, afirma Gunson.
Quanto à confrontação entre governantes, Gunson diz: “Se Trump recua sem maiores consequências, Maduro se fortalece dentro da coalizão governante: mostraria que enfrentou o império e venceu”.
De Alba acrescenta que, com as eleições legislativas norte-americanas se aproximando, a opinião pública nos EUA está se posicionando contra a escalada militar, com acusações fortes como possíveis crimes de guerra. “Não há ânimo para uma operação que coloque soldados norte-americanos em risco.”
Dados esses movimentos — em que a Venezuela se tornou peça na política interna dos EUA — De Alba acredita que “a balança se inclina para que Trump mantenha a opção de pressão militar e midiática, tentando alcançar um acordo que satisfaça seus interesses, podendo incluir ou não a saída de Maduro”.
Enquanto se aguarda a decisão, cabe recordar a frase do marechal prussiano Helmuth von Moltke: “Nenhum plano, por melhor que seja, sobrevive ao contato com o inimigo”.
Na imagem superior, fuzileiros navais treinam tiro a bordo do navio de assalto anfíbio Iwo Jima no Caribe / Southcom
Este texto foi publicado originalmente pela Inter Press Service (IPS)

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