A Europa em crise

A Europa em crise

O conflito na Ucrânia, o primeiro em grande escala no continente em décadas, colocou a segurança europeia no centro do palco

POR CELSO JAPIASSU

Uma guerra que se trava em seu território com risco de se ampliar; o alto preço de insumos básicos como o gás e a eletricidade; inflação e aumento do custo de vida; instabilidade política; incerteza quanto ao futuro, além da recente humilhação sofrida pelos seus líderes diante de Donald Trump. Todos esses fatos trazem preocupação à Europa e a palavra crise voltou a ser pronunciada.

A ascensão de movimentos populistas e da extrema-direita junto com a crescente polarização política trouxeram também ameaça à própria coesão da União Europeia.

O conflito na Ucrânia, o primeiro em grande escala no continente em décadas, colocou a segurança europeia no centro do palco. A dependência energética e a ameaça de escalada do conflito ucraniano levaram a UE a reavaliar a sua política de defesa e segurança. Em 2024 a Europa aumentou 17 por cento no investimento em segurança e defesa. Atingiu níveis recorde, que superaram o final da Guerra Fria, com previsão de continuar em 2025, além dos 800 bilhões de euros num fundo para o Plano Rearmar a Europa. A OTAN pressiona para o objetivo de 2,5 por cento do PIB nos gastos com rearmamento.

A Alemanha e a França, principais motores econômicos da Europa, vivem tempos de crescimento fraco, dívidas públicas elevadas e estagnação industrial. A Alemanha, historicamente a mais desenvolvida economia do bloco, enfrenta tempos de exportações fracas, consumo privado lento, elevados custos de energia e uma crise na indústria automóvel, com projeções de crescimento quase nulas para 2025. A França também lida com instabilidade política e uma dívida pública que ultrapassa 112% do PIB, gerando preocupações quanto à sustentabilidade das finanças públicas de todo o continente.

O caso Nord Stream

Os gasodutos Nord Stream 1 e 2 foram construídos para transportar gás natural da Rússia diretamente para a Alemanha, atravessando o Mar Báltico, e daí redistribuir para outros países da Europa. Os dois gasodutos eram cruciais para o fornecimento energético europeu a baixo custo, com capacidade conjunta de transportar até 110 bilhões de metros cúbicos de gás por ano. Isto gerou conflitos diplomáticos e o projeto era fortemente criticado pelos Estados Unidos e países do leste europeu.

Em 26 de setembro de 2022, os dois gasodutos foram alvo de explosões submarinas consideradas como sabotagem deliberada, cujos autores permanecem oficialmente desconhecidos. A Europa passou a comprar gás dos Estados Unidos a preços muito superiores. Talvez por essa razão existam tantos rumores nos círculos de inteligência europeus que apontam para a presença da CIA na operação classificada como muito sofisticada.

A explosão dos gasodutos provocou a maior fuga de metano já registrada, com enormes impactos ambientais e cortou a via estratégica de abastecimento de gás russo para a Europa Ocidental.

Desaceleração

A crise de liderança dentro da UE, acentuada pela queda da coligação governamental na Alemanha e pelas turbulências políticas francesas, traz dúvidas sobre políticas econômicas e os rumos da integração europeia, especialmente diante das próximas eleições na Alemanha que podem redefinir o futuro das políticas do bloco.

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A Zona Euro e a União Europeia apresentam modestas projeções de crescimento para 2025, cerca de 0,9% a 1,1% no ano, o que reflete a dificuldade em estimular investimentos, baixa produtividade, crise industrial e diminuição do consumo da indústria e da classe média, como ocorre na Alemanha, França e Itália.

Os economistas chamam a atenção para as mudanças abruptas na política comercial dos EUA sob Donald Trump e riscos de mais tarifas sobre produtos europeus colocando pressão sobre as exportações do continente, e ainda com a guerra comercial e a fragmentação da economia mundial.

Além do envelhecimento populacional e baixas taxas de natalidade, muitos países enfrentam problemas de produtividade e investimento insuficiente em infraestrutura, tecnologia e transição verde, o que ameaça a competitividade europeia nos próximos anos.

A desaceleração econômica afeta negativamente a vida dos europeus, e traz aumento da incerteza, do desemprego e da pressão sobre os serviços sociais, além dos padrões de consumo.

O crescimento econômico lento resulta em menos contratações, salários estagnados e instabilidade no mercado de trabalho, tornando mais difícil encontrar emprego estável, principalmente para os jovens e trabalhadores menos qualificados. A lentidão da economia provoca a redução do poder de compra, obrigando as famílias a reverem gastos diante da inflação persistente e do aumento do custo de vida.

O almejado sistema de bem-estar social encontra-se ameaçado. A estagnação limita a capacidade dos governos de investir em serviços públicos essenciais, como saúde, educação e segurança social, aumentando a pressão sobre sistemas já sobrecarregados pelo envelhecimento da população. O índice de dependência entre idosos e população ativa cresce, tornando mais difícil o financiamento de pensões e cuidados de saúde, sobretudo em regiões rurais e periferias.

Endividamento

A alta dívida pública e privada, agravada por juros elevados e crescimento baixo, aumenta a tensão financeira e endurece as condições de crédito para famílias e empresas. Os países mais endividados enfrentam custos crescentes para manter seus compromissos, o que vai resultar em cortes orçamentais e menor apoio do Estado à população.

A desaceleração cria um ambiente de pessimismo, incerteza e insegurança nas pessoas e afeta o bem-estar psicológico e social dos europeus. O temor de recessão e de deterioração dos padrões de vida aumenta o sentimento de ansiedade diante da fragmentação política e das tensões geopolíticas.


Ministros europeus e representantes da OTAN e da UE discutem Guerra da Ucrânia em Roma, Nato – 2025 – Reprodução / @secgennato

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