Cresce o sufocamento e a censura sobre a mídia independente na Turquia

Cresce o sufocamento e a censura sobre a mídia independente na Turquia

Por Romain Chauvet

ATENAS – A prisão do prefeito de Istambul, Ekrem Imamoğlu, rival direto do presidente turco Recep Tayyip Erdoğan, em 19 de março passado, desencadeou protestos massivos por toda a Turquia, que foram respondidos com milhares de detenções, incluindo de jornalistas.

Menos de uma semana depois, a polícia de Istambul invadiu as residências de vários profissionais da mídia, entre eles o fotógrafo da agência francesa AFP Yasin Akgü. Os jornalistas detidos foram liberados e, aguardando julgamento, enfrentam penas de até três anos por violar a lei de reuniões e manifestações.

“Está cada vez mais difícil trabalhar na Turquia. A liberdade de imprensa tem se deteriorado constantemente há mais de uma década”, afirma Özgür Öğret, representante do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) no país.

Ele acrescenta que “os jornalistas enfrentam desde pressões judiciais até violência direta no campo, além de ameaças de detenções arbitrárias. Os problemas relacionados à liberdade de imprensa são múltiplos, e sua gravidade aumentou com os anos”.

Também em março, as autoridades turcas detiveram e expulsaram o jornalista da BBC britânica Mark Lowen após mantê-lo detido por 17 horas, alegando que ele representava “uma ameaça à ordem pública”. Posteriormente, Joakim Medin, jornalista sueco, foi detido por acusações de terrorismo quando seu avião pousou na Turquia. Ele permanece na prisão aguardando julgamento desde então.

“A expulsão de Mark Lowen e a detenção de Joakim Medin são um recado das autoridades aos jornalistas estrangeiros de que não serão tratados de forma diferente dos colegas locais”, destaca Öğret. “Infelizmente, as violações à liberdade de imprensa na Turquia, incluindo as detenções, tornaram-se corriqueiras, o que é um grande sinal da deterioração”, complementa.

Uma situação cada vez mais difícil

Essa deterioração não é novidade na Turquia, e na última Classificação Mundial da Liberdade de Imprensa da Repórteres sem Fronteiras (RSF), o país ocupa a 159ª posição entre 180 países.

“Desde os protestos de 2013, a cada ano fica mais difícil”, conta Ilksen Mavituna, editor-chefe da emissora independente Açik Radyo. Criada há 30 anos, a rádio contava com mais de um milhão de ouvintes diários antes de ser forçada a encerrar sua frequência FM em outubro de 2024.

As autoridades turcas rescindiu sua licença depois que a emissora veiculou um programa que fazia referência ao genocídio armênio.

“É realmente difícil entender por que agora o Conselho Supremo de Rádio e Televisão da Turquia decidiu nos fechar”, diz Mavituna.

Ele acrescenta que “operávamos de forma completamente legal, cooperando e conhecendo nossos limites. A autocensura é uma realidade muito dura na Turquia. É preciso encontrar formas criativas de expressar suas opiniões”.

Os meios independentes são cada vez mais raros no país. A RSF aponta que 90% da mídia nacional está agora sob controle governamental. As notícias sobre os protestos se mantêm graças a um punhado de jornais e canais que operam fora das redes pró-governo, bem financiadas.

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Outro jornalista, que pediu para permanecer anônimo e trabalha como fixer (facilitador no terreno para enviados especiais) para veículos internacionais que cobrem a Turquia, alerta sobre o endurecimento das restrições nos últimos anos.

“Eles estão usando o processo de credenciamento de visto como ferramenta para bloquear ou atrasar a chegada da imprensa estrangeira ao país e impedir que trabalhem sobre determinados temas”, explica. “Se você não cobre uma notícia exatamente no momento em que acontece, perde-se o mais importante, seu impacto ou relevância imediata”, garante.

Devido a esses atrasos, tanto o jornalista quanto seus colegas estrangeiros cobriram os recentes protestos sem credenciamento.

“Eu tinha muito medo de trabalhar sem credencial de imprensa”, revela, observando que as consequências para os jornalistas locais são mais graves. “Os jornalistas estrangeiros são deportados, mas se me detiverem ou me prenderem, não tenho certeza de que me soltariam tão facilmente”, reflete.

Informar apesar de tudo

Apesar dos riscos, a Açik Radyo continua informando através de seu site e podcasts, graças às doações dos ouvintes. A emissora, que emprega pouco menos de 30 pessoas e trabalha com outros 200 voluntários, também iniciou procedimentos legais para recuperar sua frequência FM.

“Perdemos um quarto da nossa audiência após o fechamento da nossa frequência FM. É um número enorme”, explica Mavituna.

E acrescenta: “Buscamos uma nova audiência na internet, mas precisamos recuperar nossa frequência FM. Precisamos do rádio para comunicar em caso de um grande terremoto em Istambul, por exemplo. Poder transmitir no ar, não apenas pela internet ou GSM (Sistema Global de Comunicações Móveis), é uma questão de vida ou morte”.

O discurso do governo no poder, acrescenta, alimenta a desconfiança em relação aos jornalistas estrangeiros, o que dificulta ainda mais seu trabalho.

“Alguns acreditam que a mídia internacional está sempre contra a Turquia ou o povo turco. Então, quando saímos às ruas para buscar depoimentos ou fazer entrevistas, muitas pessoas nos rejeitam dizendo: ‘Vocês são um canal estrangeiro, só vêm para nos mostrar como inimigos, sempre mostram o pior de nós'”, explica.

A essas preocupações soma-se o temor de que a atitude e a retórica do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação à imprensa sirvam de modelo e contribuam para um clima ainda mais hostil para o jornalismo na Turquia.

“Estou bastante certo de que nosso governo e nossas autoridades adotarão as ideias de Trump contra os meios de comunicação”, alerta Mavituna. “O futuro não vai ser fácil para nós, mas, é claro, continuaremos fazendo nosso trabalho”, finaliza.

*Imagem: Engin Akyurt/Pixels

**Publicado originalmente em IPS – Inter Press Service

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