Madonna pede ao papa para ir a Gaza antes que seja tarde demais

[Este artigo não expressa a opinião editorial do Fórum 21, que considera incorretas e inadequadas as críticas feitas ao Papa Francisco e ao atual Papa Leão XIV, embora tenhamos total acordo quanto às denúncias e exigência de medidas efetivas para impedir o genocídio perpetrado pelo governo de Israel contra o povo palestino, principalmente na Faixa de Gaza. Carlos Tibúrcio, editor]
Na sua conta Instagram, a cantora Madonna escreveu ao Papa Leão XIV, sobre o que se passa em Gaza :
« Como mãe, não suporto ver o sofrimento deles. As crianças do mundo pertencem a todos. O senhor é o único dentre nós que pode ir até lá sem ser impedido. Temos de salvar crianças inocentes ».
O que fez o papa Francisco para impedir os bombardeios de civis e o genocídio em curso ? O que disse ou fez seu sucessor para impedir a limpeza étnica de Gaza, a fome como arma de guerra ?
Quando o mundo vivia a Segunda Guerra Mundial, os nazistas queimavam judeus em fornos depois de os matarem em câmaras de gás nos campos de concentração.
O mundo ignorava as atrocidades do Holocausto dos judeus mas informações chegaram ao Vaticano, segundo se soube depois da guerra.
Numerosos livros e filmes julgaram sem piedade o silêncio cúmplice do Papa Pio XII.
Há 22 meses, o Estado de Israel começou uma campanha – que a imprensa chama de « guerra » – de destruição de toda forma de vida na Faixa de Gaza, território que desde 2007 vive sob bloqueio total por mar, terra e ar.
O termo guerra é inapropriado para o que se passa em Gaza onde um dos mais poderosos exércitos do mundo bombardeia uma população civil desarmada, depois de ter praticamente aniquilado o Hamas, cuja força militar não podia ser comparada nem de longe ao exército de Israel, armado pelos Estados Unidos e por alguns países europeus.
Desde 2007, tudo que entrava ou saía de Gaza era controlado por Israel, depois da vitória do partido islamista Hamas, que começou a governar o enclave depois da vitória eleitoral sobre o Fatah. Mas entrava comida para uma população de mais de dois milhões de habitantes, escolas funcionavam, hospitais eram abastecidos e funcionavam. E o Hamas governava a Faixa de Gaza.
O bloqueio total com fechamento de todas as passagens foi decretado por Israel depois do atentado terrorista do 7 de outubro no qual o Hamas e outros grupos armados palestinos mataram centenas de israelenses e levaram dezenas de outros como reféns. Alguns ainda sobrevivem nos túneis do Hamas.
Depois de quase dois anos de bombardeios a escolas, hospitais, campos de refugiados seguidos de transferência da população do enclave para uma área que representa apenas 12% do território de Gaza, Israel decidiu instalar a fome como arma de guerra.
O bloqueio da ajuda humanitária controlada pela ONU, a criação de um organismo americano-israelense para substituir a distribuição de alimentos a uma população entregue à fome, a todo tipo de doenças decorrentes, entre outras coisas, de falta de água potável, e desprovida de qualquer tipo de assistência médica adequada, levou ao caos atual. Cada dia temos a contabilidade macabra de mortos na distribuição caótica de alimentos, além dos mortos nos bombardeios que nunca cessaram.
A organização do caos vem funcionando perfeitamente.
Quando não morrem nos bombardeios, os habitantes de Gaza morrem de fome, de doenças e de tiros nos aglomerados mortíferos em busca de farinha para enganar a fome.
O que fez o papa Francisco além de falar de paz e destilar citações evangélicas?
O que vem fazendo o papa Leão XIV a não ser manter um silêncio ensurdecedor?
A História vai julgá-los e considerá-los tão culpados de omissão como o papa Pio XII, que silenciou quando Hitler exterminava os judeus ?

Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional.
