Mujica – ser humano iluminado (Texto e Podcast)

Mujica – ser humano iluminado (Texto e Podcast)

por EMILIANO JOSÉ

“A vida está cheia de tropeços e fracassos. Pero es hermosa. Vivê-la ao máximo. Com generosidade. Quero o progresso material mas quero antes de mais nada o amor a la vida porque o crescimento econômico não pode ser uma finalidade. Tem que ser um meio.”

Momento de dor.
Não há como negar.
Quando um personagem do tamanho dele parte, a dor nos toma.
Inescapável.
Perdê-lo significa a partida de um ser humano iluminado.
Porque capaz de sempre pelejar.
Cada momento de um jeito.
Nunca, no entanto, deixar de lutar.
Inescapável: fará falta.
A voz serena, lúcida, sábia, corajosa dele será ausência sentida.
Momento de dor.
Mas, inegável: também de celebração.
Bom, muito bom tenhamos sido contemporâneos de um político da dimensão de Pepe Mujica.

De Tupamaro à democracia

Sim, político.
De todos os modos, quis mudar o mundo.
Primeiro, pela luta armada.
Tupamaros, ele um dos dirigentes.
Influenciado pelo espírito daquele tempo, pela visão de que um grupo de homens e mulheres dotados de coragem e vontade podiam mudar o mundo e o país.
Não podiam, mas tentaram.
Ousadia nunca faltou a ele e seus companheiros.
Como aquela façanha de Pando, cidade situada a poucos quilômetros de Montevidéu: tomaram delegacia de polícia, quartel do Corpo de Bombeiros, Central Telefônica, vários bancos.
Era 8 de outubro de 1969.
Como tantas outras ousadas atividades armadas.
Em 1972, ele e tantos outros dirigentes serão presos.
Submetidos a condições carcerárias inimagináveis.
Mais de uma década numa solitária.
Sair de uma prisão como aquela guardando sanidade só a custa de ideais muito sólidos, como os dele e de vários de seus companheiros.
Situa-se então de outro modo na luta política.
Passava a pensar na institucionalidade.
Na democracia.
Numa democracia capaz de promover mudanças na vida do povo.
Fora-se o tempo da luta armada.
Frente Ampla.
Deputado, senador, ministro.
Presidente do Uruguai entre 2010 e 2015.
Novamente senador, em duas eleições, na de 2014 e 2019.

Ateu austero

Ateu, casado com Lucía Topolanski, também militante, ex-guerrilheira, e da vida política, deu exemplos de austeridade ao povo uruguaio.
Dos 230 mil pesos recebidos, algo como pouco mais de 22 mil reais, destinava quase 70% daquele valor ao partido, à Frente Ampla, e a um fundo para construção de moradias.
Na chácara dele, em Rincón del Cerro, zona rural de Montevidéu, cultivava flores e hortaliças.
Cultivava significa: sempre lidou ele próprio com a terra, gostava de fazer isso.
Mantinha-se com o restante do salário, coisa de 30 mil pesos, ajudado por Lucía.
Raro exemplo.
Quando assumiu a Presidência, bom não esquecer, sobretudo nossos inocentes liberais não devem ignorar, inspirava-se na experiência do socialismo do século 21, de Hugo Chávez, a quem considerava o governante mais generoso conhecido por ele. Não terá o mesmo apreço por Nicolás Maduro.
Educação, segurança, meio ambiente e energia, as prioridades anunciadas por ele quando chega à Presidência.
Um dos objetivos essenciais: a erradicação da miséria, redução da pobreza em 50%.

Afrontando o conservadorismo

Afrontou o conservadorismo, colocou-se ao lado das mulheres: descriminalização do aborto, lei aprovada em outubro de 2012.
Foi além: conseguiu aprovar a lei do matrimônio igualitário, em abril de 2013. Com ela, permite-se a adoção aos casais homoafetivos e que a ordem do sobrenome dos filhos seja decidida pelos pais.
O Uruguai, sob Mujica, tornou possível o ingresso de homossexuais nas Forças Armadas.
Seguiu adiante: legalização da maconha.
Já era possível cultivar e possuir maconha para consumo individual, como em outros países.
Agora, no entanto, o Estado passaria a controlar a produção, distribuição e venda.
Medida inédita.
A taxa de desemprego, durante o governo dele, caiu de 13% para 7%.
A pobreza, de 40% para 11%.
Salário mínimo, aumentado em 250%.
O guerrilheiro tupamaro conseguia, na democracia, na ousada democracia uruguaia, começar a mudar a vida do povo.
Nas condições materiais de existência.
Ele, no entanto, não se declarou satisfeito quando saiu da Presidência.
A maior dívida com o povo uruguaio era ainda não ter debelado inteiramente a pobreza.
_ Por que não mudei isso? Porque a realidade é teimosa.
E afirmando valores novos, próprios daquela ousada experiência democrática, liderada por ele.
O mundo mudara.
O guerrilheiro, também.
Não nos sonhos: continuavam os mesmos.
Sabia: o céu não era perto.
Tudo fruto de uma construção cotidiana, a depender da força acumulada pelo povo, e dos engenhos da política fundada na democracia, agora para ele um valor apreciado.

Singular visão de mundo

Com tempo, vai expressando uma visão de mundo, onde misturavam-se o saber vindo das tantas leituras, do marxismo, da literatura, com o conhecimento oriundo da própria experiência, tão rica pelo sofrimento e depois pela beleza da vida política, pelo mergulho no meio do povo.
Visão de mundo da política.
Como numa entrevista a Bob Fernandes, ao criticar as guerras.
A guerra devia ser contra a destruição do meio ambiente.
Devia ser contra o carbono.
Contra a desertificação.
Devia haver uma guerra para multiplicar as florestas.
Guerra para resolver os problemas da infraestrutura mundial.
E o mundo não faz nada disso para valer.
E vivemos, como ele diz, uma atmosfera de mais guerra, armamentismo, e isso numa era atômica.
Nenhuma potência vai aceitar foguete na fronteira, ele diz, provavelmente referindo-se à causa da guerra da Europa e Estados Unidos contra a Rússia.
Na entrevista, reafirma a mentalidade anticonsumista, a preservação da Amazônia, tudo voltado à tentativa de salvar o planeta e os seres humanos do processo destrutivo em andamento.
Defende, como Lula, a quem sempre admirou, uma política de unidade, de cooperação entre os países da América Latina e destaca a importância do Brasil nessa empreitada.
Mas não apenas uma visão de mundo da política estrito senso.
Ia além.
Desenvolve noções de bem viver.

Veja Também:  A aventura da democracia

Pobres são os que querem sempre mais

Insista-se: uma visão anticonsumista.
Já se disse: deu exemplo com a própria vida.
Bateu um recorde: o presidente mais pobre do mundo.
E não por cultivo à pobreza.
Por acreditar na vida simples.
Por acreditar poder viver com pouca coisa, o necessário.
Não aceitava esse título, no entanto, o de presidente mais pobre do mundo:
_ Dizem que sou um presidente pobre. Não, eu não sou um presidente pobre.
_ Pobres são os que querem sempre mais, que não se satisfazem com nada. Esses são pobres porque entram em uma corrida infinita. E não terão tempo suficiente na vida.
Um adversário do dinheiro.
Poderia dizer, com Marx, cuja obra conhecia bem: o dinheiro rebaixa todos os deuses do homem e transforma-os numa mercadoria.
Lamentavelmente, o dinheiro é o valor universal de todas as coisas.
O dinheiro é a essência do trabalho do homem, de sua existência. Essa essência, o dinheiro, domina-o, e ele o homem, debaixo do capital, passa a adorá-la.
É Marx.
Poderia ser Mujica.
É Mujica.
Ele investe contra o capitalismo.
Não de modo doutrinarista.
Não querendo afirmar teorias.
Conclamando as pessoas a viver.
A desfrutar da vida.
A não adorar o bezerro de ouro.

Aos jovens: não se rendam ao deus mercado

Se você é jovem, ele dirá, tem de saber de uma coisa: a vida se lhe escapa, vai embora minuto a minuto, e você não pode ir ao supermercado, ao shopping center, comprar a vida.
Então, ele conclama:
_ Lute por vivê-la!
_ Lute por dar conteúdo à vida!
_ A diferença entre a vida do ser humano e outras formas de vida é que você pode, até certo ponto, dar orientação a ela.
_ Você pode, em termos relativos, ser o autor do caminho de sua própria vida.
_ Não é como um vegetal que vive porque nasceu.
_ Pode dar um conteúdo à sua vida.
Ou, então, ele dirá, pode entregar a vida ao mercado, alienar a vida, orientá-la ao consumo desvairado. Tornar-se um ser preocupado em pagar cartões, endividando-se, entregando-se à lógica do dinheiro, aquele capaz, como diria Marx, como assinaria Mujica, de rebaixar todos os deuses do homem.
Esse recado ela dava aos jovens, sobretudo a eles.
Em quem confiava.
Por isso, deixou essa lição de vida.

Desenvolvimento a favor da felicidade humana

O desenvolvimento não pode ser contra a felicidade, ensina.
Tem de ser a favor da felicidade humana, do amor sobre a terra, das relações humanas, de cuidar dos filhos, de ter amigos – era esse o ensinamento singelo e profundo de Mujica.
Era nos jovens que confiava, também, quando disse, pouco antes de morrer, da necessidade de as lideranças mais velhas serem capazes de passar o bastão, depois de terem contribuído para a formação delas.
Lidar com a morte, com a finitude.
Ela chegou.
E ele dizia:
_ Ninguém gosta da morte, mas, a certa altura da vida, você sabe que um pouco antes ou um pouco depois, ela vai chegar. Por favor, não vivam com medo da morte. Aceite-a como os bichos do mato. O mundo vai continuar girando e nada vai acontecer. Não vai ficar com todo esse medo à toa. É preciso ser mais primitivo.
O mais civilizado, democrático, comunista dos primitivos partiu.
Bom seria fôssemos capazes de honrar o extraordinário legado dele.
Capazes de salvar a terra e a humanidade.
Tirar uma e outra das garras da mercadoria, do consumismo.
Criar sociedades fraternas e solidárias.
Capazes de não se assustar com um dirigente político dirigindo um velho fusca, vivendo numa casa simples.
_ Isso chama atenção do mundo? Então esse mundo está louco porque se surpreende com o normal.
Assim, Mujica.
Um homem comum.
De convicções profundas.
Tal e qual Gramsci se definia.
Mujica viveu a política de um modo distinto.
Fala dela com amor.
É bom saber de um homem assim: um ateu movido pelo amor às pessoas, amor ao povo, sem perder a noção da luta de classes.
Quem sabe, devêssemos guardar essas palavras dele, espécie de manifesto dos últimos tempos da existência, uma fala dele para a multidão, muito recente.
_ A vida está cheia de tropeços e fracassos. Pero es hermosa. Vivê-la ao máximo. Com generosidade. Quero o progresso material mas quero antes de mais nada o amor a la vida porque o crescimento econômico não pode ser uma finalidade. Tem que ser um meio.
_ O fundamental é como passam as pessoas pela vida. Se têm tempo para cultivar os afetos. E o que são os afetos? O amor explosivo quando são jovens. Sim, os filhos, a família. Os amigos. _ Quando você é velho, o amor é um doce costume, uma mansidão melancólica, um entretenimento, contando histórias vividas.
_ Por que, ao fim e ao cabo, que merda nós levávamos quando seguimos num caixão?
_ Por isso, companheiros, é muito longa, sinuosa e complexa a luta que temos pela frente. Mas que sentido tem a vida se nos quitan la esperança de sonhar com um mundo um pouco melhor?
_ Não duvide. Tivesse duas vidas, e eu as gastaria inteiras para ajudar suas lutas porque é a forma mais grandiosa de amar a vida que eu consegui encontrar.
Viva Pepe Mujica.
Eterno.



(Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados)

Publicado originalmente na Teoria e Debate

Tagged: , , , ,