O mundo que se desfaz

POR CELSO JAPIASSU
A realização da COP 30 no Brasil dá bom motivo para pensar sobre as ameaças que pairam sobre o pequeno planeta azul. E nos remete mais uma vez à advertência que faz o relógio do tempo que está a passar. Em 2025, o Doomsday Clock (Relógio do Juízo Final) foi ajustado para 89 segundos antes da meia-noite, o que significa o momento mais próximo do “fim simbólico” desde sua criação em 1947. Esta marcação reflete preocupações crescentes como a guerra na Ucrânia, crise no Oriente Médio, expansão nuclear, mudanças climáticas e riscos ligados à inteligência artificial.
O Relógio do Apocalipse, como também é chamado, foi criado por um grupo de cientistas para marcar o tempo que falta para o fim do mundo, o Dia do Juízo que a Bíblia registrou no Apocalipse. Está localizado fisicamente nos escritórios do Bulletin of the Atomic Scientists, no átrio do Keller Center, sede da Harris School of Public Policy da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos.
O que fez o relógio ser acertado para tão grande proximidade do desastre foi o estado atual da guerra da Ucrânia com o seu perigo atômico que veio se juntar à destruição do planeta pelas mudanças climáticas e às ameaças biológicas representadas pelos surtos de doenças infecciosas das quais a pandemia de coronavírus foi uma amostra. “A transmissão dessas doenças é um perigo para toda a humanidade. As doenças não têm fronteiras e podem ser devastadoras”, alertou Rachel Bronson, presidente da revista Bulletin of the Atomic Scientists durante a apresentação dessas novas e más notícias.
Quando o Doomsday Clock foi inaugurado, em 1947, a humanidade se sentia ameaçada pela novidade das armas nucleares, que passaram a significar perigo para a própria vida na Terra. O ano em que o relógio marcou a maior distância da meia-noite foi 1991, com o fim da Guerra Fria. Esteve a 17 minutos do fim e os cientistas respiraram aliviados. Depois vieram as alterações climáticas que passaram a ser assinaladas como uma ameaça a partir de 2007. Desde 2020 estava a 100 segundos do fim e foi agora acertado para mais perto da meia-noite.
As crises
Os tempos de agora são marcados por diferentes crises que reforçam o que disse Antônio Gramsci em seus Cadernos do cárcere: “O velho mundo está morrendo, o novo tarda a nascer. Nesse claro-escuro, surgem os monstros”. Gramsci morreu em 1937. Não viu, mas anteviu o que veio depois.
A Finlândia e a Suécia anunciaram sua adesão ao pacto da OTAN, ampliando a fronteira com a Rússia, que se sente cada vez mais cercada pela pressão ocidental. A OTAN conta agora com 32 países que prometem reagir em conjunto caso haja uma agressão a cada um deles. A Ucrânia espera a sua vez. Neste último caso seria ultrapassada a linha vermelha de que fala a Rússia e haverá a possibilidade concreta de um ataque nuclear.
As permanentes crises do capitalismo geram pânicos que provocam a falência de bancos e afetam todo o sistema financeiro, dilapidam a poupança da classe média e destroem os empregos das classes trabalhadoras. A presença cada vez mais forte do pensamento da direita e da extrema direita no poder político abala a democracia liberal construída pelos partidos sociais-democratas no pós-guerra e o fascismo volta a ser uma presença inegável no futuro da Europa.
Desglobalização
Refugiados buscam a sobrevivência escapando das crises e das guerras na África e no Oriente Médio, sofrem a tragédia dos naufrágios no Mediterrâneo e tornam-se pivôs de novas crises alimentadas politicamente nos países da Europa para onde se dirigem em busca de abrigo. Hoje, no mundo, eles são 103 milhões.
O projeto da União Europeia encontra-se em perigo e o marco foi o Brexit, inspirado e executado pela extrema direita fortalecida no espectro político do Reino Unido. O próprio UK também se encontra a enfrentar outra crise, que compromete a sua unidade pelo desejo de independência da Escócia e da sempre instável República da Irlanda.
Após os anos em que o mundo comemorou o chamado processo de globalização, dá-se agora o fenômeno contrário da desglobalização fazendo ressurgir os nacionalismos que François Miterrand tanto temia e que, segundo acreditava, conduzem inexoravelmente à guerra.
A crise permanente do Oriente Médio, com suas conotações políticas, econômicas, geográficas e religiosas encontra-se em constante fervura. O Irã continua a procurar caminhos para desenvolver o seu projeto atômico e conquistar a hegemonia da região. As tensões com Israel tendem a se agravar e o papel dos Estados Unidos tem sido o de promover a instabilidade regional. O mais crucial instante foi a invasão do Iraque. E as ações empreendidas antes e depois que inadvertidamente provocaram e alimentaram o surgimento de grupos islâmicos radicais. O Oriente Médio concentra a maior produção de petróleo do mundo e o domínio do petróleo tem sido a razão dos conflitos desde o fim do Império Turco-Otomano e dos protetorados franco-britânicos.
Nesse mundo marcado e ameaçado por diferentes e graves crises, cresce o significado da China e seu poder desestabilizador do precário equilíbrio internacional até agora conhecido pelo Ocidente. A presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen, reconheceu as intenções estratégicas da China, que pretende a liderança internacional como a maior e mais influente potência global por volta de 2049, quando se completam os cem anos da revolução comunista liderada por Mao Tse Tung. E citou a demonstração da força militar chinesa no mar do Sul da China, no mar do Leste da China e na fronteira com a Índia. Para garantir o que ambiciona, a China dispõe de meios econômicos, tecnológicos, militares e políticos.
É o mundo até agora conhecido que se desfaz.
Foto: Marinha do Brasil/RS

Poeta, articulista, jornalista e publicitário. Traballhou no Diário de Minas como repórter, na Última Hora como chefe de reportagem e no Correio de Minas como Chefe de Redação antes de se transferir para a publicidade, área em que se dedicou ao planejamento e criação de campanhas publicitárias. Colaborou com artigos em Carta Maior e atualmente em Fórum 21. Mora hoje no Porto, Portugal.
É autor de Poente (Editora Glaciar, Lisboa, 2022), Dezessete Poemas Noturnos (Alhambra, 1992), O Último Número (Alhambra, 1986), O Itinerário dos Emigrantes (Massao Ohno, 1980), A Região dos Mitos (Folhetim, 1975), A Legião dos Suicidas (Artenova, 1972), Processo Penal (Artenova, 1969) e Texto e a Palha (Edições MP, 1965).
