O objetivo do Conselho de Paz dos EUA é minar a ONU?

O objetivo do Conselho de Paz dos EUA é minar a ONU?

Especialistas analisam “Conselho de Paz” proposto por Donald Trump no último dia 22 de janeiro, durante o Fórum Econômico de Davos. (Imagem: logotipo da nova organização que alguns consideram ter semelhanças com o das Nações Unidas).

POR THALIF DEEN

Nações Unidas – A julgar pelos sinais contraditórios vindos da Casa Branca, o Conselho de Paz, criado pelo presidente Donald Trump, tem como objetivo final substituir o Conselho de Segurança da ONU ou as próprias Nações Unidas?

Durante um evento realizado no dia 22, no enclave suíço de Davos, Trump ratificou formalmente a Carta do Conselho, estabelecendo-o como “uma organização internacional oficial”.

Trump, que atuará como presidente do Conselho, estava acompanhado pelos chamados membros fundadores que, segundo ele, “representam países de todo o mundo que se comprometeram a construir um futuro seguro e próspero para Gaza, que proporcione paz duradoura, estabilidade e oportunidades para seu povo”.

Norman Solomon, diretor executivo do Instituto para a Precisão Pública e diretor nacional da RootsAction, disse à IPS que o Conselho de Paz do presidente Trump está sendo concebido como uma espécie de aliança global semelhante à “coalizão de voluntários” que tentou legitimar fraudulentamente a invasão do Iraque liderada pelos EUA em 2003.

Trump está recrutando governos subservientes para se alinharem à sua liderança e empurrarem o planeta cada vez mais para uma guerra de dominação e pilhagem, avaliou. O preço que os membros do “Conselho da Paz”, cujo nome remete a Orwell, pagarão é muito maior do que o valor solicitado, acima de US$ 1 bilhão por participante.

“Em um estilo gangster global, Trump está fazendo planos e criando estruturas de acordo com seus caprichos imperiais”, observou Solomon. “Ao mesmo tempo, os métodos de sua loucura são transparentes, pois ele busca criar novos mecanismos para que os Estados Unidos dominem a maior parte possível do mundo”, acrescentou.

Trump continua a testar os limites da hipocrisia que mascara os planos dos Estados Unidos de obter influência econômica e militar sobre outros países. A mensagem essencial “em nome do Tio Sam” é: “chega de ser bonzinho”, avalia o autor de “War Made Invisible: How America Hides the Human Toll of Its Military Machine“.

Segundo ele, os antecessores de Trump na Casa Branca frequentemente usaram ambiguidade simplista e retórica grandiloquente para ocultar suas verdadeiras prioridades e planos. Mas Trump dispensa os eufemismos para deixar bem claro que acredita que o governo dos Estados Unidos é a luz do mundo e que todos os outros deveriam segui-lo.

No dia 22, o porta-voz da ONU, Stephane Dujarric, disse sobre a formação do Conselho de Paz aos jornalistas: “sejamos claros, estamos empenhados em fazer todo o possível para garantir a plena implementação da resolução 2803 do Conselho de Segurança que, como vocês devem se lembrar, saudou o estabelecimento do Conselho de Paz de Gaza”.

“Parte dessa resolução e do plano apresentado pelo Presidente Trump, como vocês sabem, fazia referência à liderança da ONU na distribuição de ajuda humanitária. Acredito que tenhamos fornecido uma grande quantidade de ajuda humanitária a Gaza, tanto quanto podíamos pagar”, explicou Dujarric.

E acrescentou: “já falamos sobre as restrições, mas vocês sabem o quanto mais conseguimos fazer desde o cessar-fogo. Como parte disso, temos cooperado muito bem com as autoridades norte-americanas e continuaremos a fazê-lo”. Dujarric reafirmou que a ONU continua sendo a única organização internacional com adesão universal.

“Obviamente, vimos os anúncios feitos em Davos. O Secretário-Geral continua a trabalhar com determinação para cumprir os mandatos que nos foram confiados, todos eles amparados pelo direito internacional e pela Carta das Nações Unidas. Quero dizer que o nosso trabalho continua”, disse. Ao ser questionado sobre as semelhanças entre o logotipo da ONU e o logotipo do Conselho da Paz, ele disse que não via nenhuma violação de direitos autorais ou de marca registrada.

Sobre a iniciativa de Trump, Louis Charbonneau, diretor da Human Rights Watch (HRW), disse que os Estados Unidos desempenharam um papel de destaque na criação da ONU e que, “agora, o presidente americano Donald Trump está minando e retirando o financiamento de grande parte dela”.

Durante o último ano, o governo de Washington atacou os programas e agências da ONU porque a administração Trump acredita que a instituição é “anti-americana” e tem uma “agenda hostil” aos seus interesses. Nas negociações da ONU, lembrou Charbonneau, autoridades americanas tentaram remover palavras como “gênero”, “clima” e “diversidade” de resoluções e declarações.

Ele relatou que diplomatas descreveram à Human Rights Watch (HRW) como autoridades norte-americanas se opõem agressivamente à linguagem de direitos humanos que consideram “progressista” ou politicamente correta. Numa aparente tentativa de marginalizar o Conselho de Segurança da ONU, Trump propôs a criação de um chamado Conselho da Paz, que ele próprio presidiria, oferecendo cargos neste conselho a líderes de governos abusivos, incluindo os da Bielorrússia, China, Hungria, Israel, Rússia e Vietnã, destacou.

Inicialmente, o Conselho de Paz tinha como objetivo supervisionar a administração de Gaza após mais de dois anos de ataques e destruição pelas forças israelenses, nos quais os Estados Unidos foram cúmplices. Mas o estatuto do novo conselho sequer menciona Gaza, o que sugere que as ambições de Trump para esse órgão se expandiram enormemente desde sua concepção inicial.

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O estatuto proposto para o Conselho não menciona os direitos humanos e deixa claro que Trump, como presidente da entidade, teria autoridade final para “adotar resoluções ou outras diretrizes” conforme achar conveniente.

Um assento no Conselho da Paz não é barato: a taxa de adesão é de US$ 1 bilhão. Alguns, como o presidente francês Emmanuel Macron, já recusaram o convite para participar. Trump respondeu ameaçando aumentar significativamente as tarifas sobre o vinho e o champanhe franceses.

“O sistema da ONU tem seus problemas, mas é melhor do que um Politburo global. Em vez de pagar bilhões para participar do conselho de Trump, os governos deveriam se concentrar em fortalecer a capacidade da ONU de defender os direitos humanos”, argumentou o representante da HRW.

Aprofundando esse ponto, Solomon destacou que todo o projeto do Conselho da Paz é uma farsa perigosa que busca reconstituir um mundo unipolar que já entrou em colapso, em grande parte, neste século em termos econômicos. A criminalidade da abordagem de Trump, apoiada pela maioria republicana no Congresso dos EUA, é respaldada pelo poderio militar da nação.

“Mais do que nunca, a política externa dos Estados Unidos tem muito pouco a oferecer ao mundo além de gangsterismo, extorsão e chantagem, juntamente com ameaças de violência em massa que às vezes se transformam em ataques militares que destroem qualquer aparência de direito internacional”, argumentou.

Solomon observou que todos os presidentes dos EUA neste século, assim como nos anteriores, ignoraram o direito internacional vigente e substituíram a política externa pelas preferências de seu complexo militar-industrial. Na opinião do especialista, Trump levou essa política a um extremo descarado, aderindo sem pudor ao credo distópico de George Orwell de que “guerra é paz”, enquanto se esforça para destruir o que resta de uma ordem internacional construtiva.

Como exemplo de alguns precedentes da iniciativa, Solomon citou quando o volúvel líder da Indonésia, Sukarno, decidiu deixar a ONU e formar a Conferência das Novas Forças Emergentes como alternativa. Isso não durou muito, já que seu sucessor, Suharto, retomou a participação da Indonésia na ONU. Nenhum dano permanente foi causado à ONU. E tudo foi esquecido e perdoado.

Em um esclarecimento posterior à declaração de Dujarric aos jornalistas, o porta-voz adjunto da ONU, Farhan Haq, afirmou que o Conselho de Paz “foi autorizado pelo Conselho de Segurança para seu trabalho em Gaza, estritamente para esse fim”. “Não estamos falando de operações mais amplas ou de qualquer aspecto que tenha aparecido na mídia nos últimos dias. Estamos falando do trabalho em Gaza”, enfatizou.

“Como sabem, saudamos o cessar-fogo em Gaza e as medidas para o apoiar, incluindo o Conselho de Paz, e continuaremos a trabalhar com todas as partes no terreno para garantir que o cessar-fogo se mantenha. É isso que está acontecendo em Gaza”, afirmou Haq.

Os aspectos mais gerais, acrescentou, são questões que qualquer pessoa que deseje participar deste grupo deve considerar. Obviamente, a ONU tem sua própria Carta e suas próprias regras, e todos podem comparar e contrastar as respectivas organizações.

“A ONU tem coexistido com inúmeras organizações. Existem organizações regionais e sub-regionais, e várias alianças de defesa em todo o mundo. Temos acordos com algumas delas. Com outras, não”, observou Haq.

“Teríamos que ver em detalhes como o Conselho de Paz será configurado depois de estabelecido para saber que tipo de relacionamento teríamos com ele”, explicou.

Entre os participantes* na cerimônia de assinatura realizada na Suíça estavam:

  • Isa bin Salman bin Hamad Al Khalifa, Ministro da Corte do Primeiro-Ministro, Bahrein
  • Nasser Bourita, Ministro das Relações Exteriores, Marrocos
  • Javier Milei, Presidente da Argentina
  • Nikol Pashinyan, primeiro-ministro da Armênia
  • Ilham Aliyev, Presidente do Azerbaijão
  • Rosen Zhelyazkov, Primeiro-Ministro da Bulgária
  • Viktor Orbán, Primeiro-Ministro da Hungria
  • Prabowo Subianto, Presidente da Indonésia
  • Ayman Al Safadi, Ministro das Relações Exteriores da Jordânia
  • Kassym-Jomart Tokayev, Presidente do Cazaquistão
  • Vjosa Osmani-Sadriu, presidente do Kosovo
  • Mian Muhammad Shehbaz Sharif, Primeiro-Ministro do Paquistão
  • Santiago Peña, presidente do Paraguai
  • Mohammed Bin Abdulrahman Al Thani, Presidente do Catar
  • Faisal bin Farhan Al Saud, Ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita
  • Hakan Fidan, Ministro das Relações Exteriores da Turquia
  • Khaldoon Khalifa Al Mubarak, Enviado Especial dos Emirados Árabes Unidos para os Estados Unidos
  • Shavkat Mirziyoyev, presidente do Uzbequistão
  • Gombojavyn Zandanshatar, Primeiro Ministro da Mongólia

Uma longa lista de países, incluindo Canadá, Alemanha, Espanha, França, Itália e outras nações europeias, não compareceram à assinatura, e muitos rejeitaram especificamente o convite para participar do Conselho de Paz de Trump.

Artigo publicado na Inter Press Service.

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