Frankenstein no comando: Netanyahu rejeita plano de Trump para Gaza
Por Anis Chowdhury*
SYDNEY – Alguém poderia se surpreender pelo fato de Israel ter rejeitado Donald Trump? O apoio incondicional dos EUA e de seus aliados ocidentais a Israel encorajou esse Estado pária. Assim, Israel prossegue com seu genocídio contra os palestinos, desafiando o direito internacional humanitário e a Convenção sobre Genocídio, e a despeito do suposto acordo de cessar-fogo previsto no plano de Trump. Esse é o preço pago por proteger Netanyahu de um mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
O Ocidente cria um Frankenstein
A criação de Israel em território palestino foi um projeto ocidental. O Ocidente ignorou o destino dos palestinos e concedeu impunidade a Israel sob o pretexto do direito de existência do país. A intenção genocida dos fundadores sionistas de Israel era amplamente conhecida. Isso se tornou um fato público em 1948, quando 750.000 palestinos foram deslocados à força e despojados de seus bens para abrir caminho à criação do Estado de Israel. Os palestinos chamam esse evento de “Nakba”, que significa “catástrofe” em árabe.
Entre 1947 e 1949, forças sionistas tomaram mais de 78% da Palestina histórica, embora o plano das Nações Unidas previsse que o Estado de Israel ficaria com cerca de 56% do território. As forças sionistas promoveram uma limpeza étnica e destruíram cerca de 530 vilarejos e cidades, matando aproximadamente 15.000 palestinos em uma série de atrocidades em massa e mais de 70 massacres. Em menos de seis meses — de dezembro de 1947 a meados de maio de 1948 —, grupos armados sionistas expulsaram cerca de 440.000 palestinos de 220 vilarejos.
Desde a fundação de Israel, o Estado ampliou sua limpeza étnica sistemática enquanto o Ocidente fingia não ver. Embora o projeto sionista tenha realizado o sonho de criar “um lar nacional judaico” na Palestina em 1948, o processo de limpeza étnica e deslocamento de palestinos jamais cessou.
O Frankenstein do Ocidente agora sonha com um “Grande Israel” que se estenda “do rio ao mar”. Israel, sob a ótica sionista, sempre encontra pretextos para inviabilizar qualquer plano de paz ou acordo de cessar-fogo. Desta vez, Netanyahu rejeitou o chamado plano de paz de Trump, exigindo que o Hamas fosse “genuinamente” desarmado primeiro.
Trump diz que “a relação é muito boa”, mesmo enquanto Netanyahu rejeita o plano de paz para Gaza. Nenhuma surpresa; relata-se que o antecessor de Netanyahu, Ariel Sharon, ex-primeiro-ministro de Israel, disse ao seu ministro das Relações Exteriores, Shimon Peres: “Não se preocupe com a pressão americana; nós controlamos a América”.
No entanto, para ser justo, fontes israelenses negaram que Sharon tenha feito tal comentário. Ainda assim, o controle de Israel sobre os EUA e seus aliados ocidentais é visível a olho nu.
O Ocidente está nu
Os aliados ocidentais do Estado pária de Israel apenas fingem se importar com o destino dos palestinos sob o pretexto de uma chamada “solução de dois Estados”, enquanto não tomam medidas reais contra a contínua expansão de assentamentos de Israel no Território Palestino Ocupado, desafiando o veredito da Corte Internacional de Justiça (CIJ).
Em 19 de julho de 2024, a CIJ emitiu um parecer consultivo declarando ilegal, à luz do direito internacional, a presença contínua de Israel no Território Palestino Ocupado — incluindo a Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Gaza. A Corte exigiu que a ocupação terminasse o mais rápido possível.
Enquanto isso, a crescente violência dos colonos, apoiada pelas Forças de Defesa de Israel (FDI) contra os palestinos, continua sem trégua.
Em um ato de desafio arrogante, o parlamento de Israel (o Knesset) votou, em 18 de julho de 2024, por 68 votos a 9, a aprovação de uma resolução rejeitando o estabelecimento de um Estado palestino independente.
No entanto, não há protestos por parte dos EUA e de seus aliados ocidentais. Mesmo os países ocidentais que reconheceram simbolicamente o Estado da Palestina permanecem em silêncio enquanto o “Frankenstein” aperta o cerco sobre seus criadores.
Eles são vocais ao exigir o desarmamento palestino como condição para a chamada paz, enquanto o Estado pária de Israel rejeita desafiadoramente o direito dos palestinos a um Estado soberano e aos direitos humanos básicos.
Se se exige que os palestinos se desarmem, então também se deve exigir que o Estado pária revogue seu projeto de lei que rejeita a criação de uma Palestina independente. Ele também deve desmantelar seus assentamentos ilegais no Território Ocupado — incluindo a Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Gaza — conforme exigido pela CIJ.
*Anis Chowdhury, professor emérito da Western Sydney University (Austrália). Ocupou cargos de alto escalão na ONU em Bangkok e Nova York e atuou como Assistente Especial do Conselheiro-Chefe de Finanças (com status e patente de Ministro de Estado) no governo interino liderado pelo Professor Yunus em Bangladesh.
Artigo de opinião publicado originalmente pela Inter Press Service (IPS)
Imagem de ataque em Gaza por Abdul Rahman Salama/Xinhua

Jornalismo e comunicação para a mudança global
