Jornalistas correm o risco de morrer de fome em Gaza

PARIS – A Sociedade de Jornalistas (SDJ) da agência France-Presse (AFP) alertou que seus colaboradores na Faixa de Gaza estão em risco de morrer de fome, assim como o restante do pequeno grupo de trabalhadores da mídia ocidental e dezenas de milhares de outros habitantes daquele território palestino em guerra.
“Desde a fundação da AFP em agosto de 1944 (durante a libertação de Paris na Segunda Guerra Mundial), perdemos jornalistas em conflitos, tivemos feridos e prisioneiros entre nós, mas nenhum de nós se lembra de ter visto um colega morrer de fome”, declarou a SDJ em um comunicado divulgado na rede X.
A maioria de seu pessoal deixou a Faixa no ano passado, mas a AFP ainda mantém um redator, três fotógrafos e seis videomakers freelancers, que fazem parte do pequeno grupo de colaboradores de meios ocidentais que continuam reportando sobre a ofensiva militar israelense e o drama dos dois milhões de habitantes de Gaza.
Um fotógrafo da AFP, Bashar Taleb, de 35 anos, pré-selecionado para o Prêmio Pulitzer de jornalismo este ano, vive entre as ruínas de sua casa bombardeada e afirmou: “Tive que parar de trabalhar várias vezes apenas para procurar comida para minha família, para salvá-la da fome, do deslocamento constante e do medo persistente”.
Outro indicado ao Pulitzer, Omar al-Qattaa, também de 35 anos, está alojado nos escombros da casa da família de sua esposa, após seu apartamento ter sido destruído.
“Estou exausto de carregar câmeras pesadas nos ombros e caminhar longas distâncias. Nem conseguimos mais chegar aos locais de cobertura porque não temos energia devido à fome e à falta de comida”, disse ele à agência.
Qattaa depende de analgésicos para um problema nas costas, mas relatou que os medicamentos básicos não estão disponíveis nas farmácias e que a falta de vitaminas e alimentos nutritivos agravou suas dificuldades.
As dores de cabeça e tonturas constantes por falta de comida e água também afetam Jadr al-Zanoun, de 45 anos, colaborador da AFP na Cidade de Gaza, que relatou já ter até desmaiado por conta disso.
“Desde que a guerra começou, perdi cerca de 30 quilos e estou esquelético em comparação com como era antes. Antes, eu terminava rapidamente reportagens e matérias. Agora, mal consigo completar uma reportagem por dia devido à extrema fadiga física e mental, e à beira do delírio”, afirmou Al-Zanoun.
Israel não permite o acesso à Gaza — 365 quilômetros quadrados, 2,3 milhões de habitantes — de jornalistas de meios independentes estrangeiros desde 7 de outubro de 2023, quando lançou sua ofensiva militar em larga escala, em resposta a um ataque do grupo palestino Hamas no sul de Israel que causou cerca de 1.200 mortes.
Desde então, estima-se que cerca de 59 mil palestinos morreram, aproximadamente 140 mil ficaram feridos, dezenas de pessoas são mortas diariamente, a maior parte das construções da Faixa foi destruída e a ajuda humanitária enfrenta bloqueios para chegar à população civil.
Agências das Nações Unidas alertam que pelo menos meio milhão de pessoas enfrentam fome em grau extremo, e mais de mil já morreram tentando obter alimentos distribuídos pela Fundação Humanitária de Gaza — criada por Estados Unidos e Israel, e única autorizada por militares israelenses a atuar na região.
A autoridade de saúde de Gaza, controlada pelo Hamas, informou que mais de 100 pessoas — incluindo 80 crianças — já morreram de fome devido à escassez de alimentos.
Juliette Touma, diretora de comunicação da Agência das Nações Unidas para os Refugiados da Palestina (Unrwa), declarou que, em contraste, a ONU mantém mais de 6 mil caminhões com alimentos, medicamentos e produtos de higiene prontos para entrar em Gaza, estacionados no Egito e na Jordânia, aguardando autorização.
“Médicos, enfermeiros, jornalistas, trabalhadores humanitários — inclusive pessoal da Unrwa — estão com fome, desmaiam por causa da fome e do esgotamento enquanto realizam suas tarefas”, disse Touma.
Em sua declaração, a SDJ francesa foi clara: “Sem intervenção, os últimos repórteres em Gaza morrerão.”
A entidade profissional observou que, embora os jornalistas recebam salários mensais, “não há nada para comprar, ou só a preços completamente exorbitantes”.
A direção da AFP também se pronunciou em defesa de seus repórteres em Gaza e declarou: “Há meses, assistimos impotentes ao dramático agravamento de suas condições de vida. Sua situação hoje é insustentável, apesar da coragem, do compromisso profissional e da resiliência exemplares.”
“Suas vidas estão em perigo, por isso pedimos urgentemente às autoridades israelenses que permitam sua evacuação imediata junto com suas famílias”, acrescentou a agência.
Após essas declarações, o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot, disse esperar conseguir evacuar alguns colaboradores da imprensa de Gaza nas próximas semanas e instou Israel a permitir “o acesso da imprensa livre e independente” à Faixa.
“Peço que se permita à imprensa livre e independente acessar Gaza para mostrar o que está acontecendo lá”, declarou Barrot.
Os jornalistas têm pagado um alto preço em vidas ao cobrir o conflito em Gaza. A organização Repórteres Sem Fronteiras lembrou que “mais de 200 jornalistas foram mortos pelo exército israelense desde outubro de 2023, pelo menos 46 deles enquanto exerciam sua profissão” na Faixa.
Por isso, a organização somou-se ao apelo por “levantar o bloqueio e abrir imediatamente as fronteiras para os jornalistas de ambos os lados”.
Por fim, a comissária europeia de Gestão de Crises, Hadja Lahbib, afirmou: “Israel deve permitir que a imprensa exerça seu trabalho e garantir seu acesso. Jornalistas e civis não podem, e não devem, ser alvos” em conflitos armados.
Foto do jornalista palestino Sami Shehada, que perdeu uma perna durante um ataque israelense e voltou a cobrir os acontecimentos em Gaza. Os comunicadores têm pago um preço alto, com mais de 200 mortos sob fogo de combates e bombardeios, e o pequeno grupo que ainda permanece na Faixa está em risco de morrer de fome. / Imagem: ONU
Este texto foi publicado originalmente pela Inter Press Service (IPS)

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