ONU condena o assassinato deliberado de jornalistas em Gaza

ONU condena o assassinato deliberado de jornalistas em Gaza

Anas al Sharif (foto), correspondente da emissora árabe de televisão Al Jazeera, foi assassinado junto com três de seus colegas em um ataque admitido pelo exército israelense. Especialistas das Nações Unidas em direitos humanos, assim como o secretário-geral António Guterres, exigem uma investigação independente, além de respeito e proteção ao trabalho da imprensa no território palestino. Imagem: X-Al Sharif

GENEBRA – Israel assassinou deliberadamente jornalistas para tentar silenciar informações sobre as atrocidades cometidas por seu exército na Faixa de Gaza, denunciaram dois responsáveis pelo sistema de direitos humanos das Nações Unidas, em uma declaração na terça-feira (12/08).

“O assassinato de quatro jornalistas justamente quando Israel anuncia seu plano de tomar o controle da cidade de Gaza não é uma coincidência, mas uma tentativa deliberada de silenciar aqueles que queriam expor ao mundo as atrocidades das FDI (Forças de Defesa de Israel)”, afirma a declaração.

No dia 10 de agosto, um ataque aéreo de Israel atingiu diretamente uma tenda de jornalistas ao lado do hospital Al Shifa, no leste da cidade de Gaza, matando quatro comunicadores da emissora árabe Al Jazeera.

Eram os correspondentes Anas al Sharif, Mohammed Qreiqeh, e os cinegrafistas Ibrahim Zaher e Mohammed Noufal.

A Al Jazeera, em comunicado, condenou “nos termos mais enérgicos” os assassinatos, destacando o fato de que o exército israelense “admitiu seus crimes e dirigiu deliberadamente o ataque contra a localização dos jornalistas”.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, condenou os assassinatos e pediu uma investigação independente, segundo informou seu porta-voz Stéphane Dujarric.

Dujarric lembrou que “pelo menos 242 jornalistas morreram em Gaza desde o início da guerra”, e em nome de Guterres exigiu que “os jornalistas e trabalhadores da mídia devem ser respeitados, protegidos e autorizados a realizar seu trabalho com liberdade, sem medo nem assédio”.

O assassinato, segundo a declaração de Irene Khan, relatora da ONU para a liberdade de opinião e expressão, e de Francesca Albanese, relatora sobre a situação dos direitos humanos nos territórios palestinos, “foi uma tentativa de silenciar informações sobre a atual campanha de genocídio e fome no enclave”.

Ambas atuam como especialistas independentes nos procedimentos especiais do Conselho de Direitos Humanos da ONU, com sede na cidade suíça.

Elas lembraram que, em um comunicado, as FDI afirmaram que os assassinatos foram seletivos e acusaram Al Sharif de ser o líder de uma célula terrorista do Hamas – a milícia islâmica que atacou o sul de Israel em 2023 e deu início ao atual conflito –, citando supostas informações de inteligência e documentos encontrados em Gaza.

No dia 31 de julho de 2025, as relatoras especiais denunciaram ameaças graves e acusações infundadas contra Anas al-Sharif por parte de um porta-voz do exército israelense, qualificando isso como “uma tática bem conhecida e vergonhosa” das FDI para silenciar a verdade sobre os crimes atrozes cometidos em Gaza.

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“É revoltante que o exército israelense se atreva a lançar primeiro uma campanha para difamar Anas al Sharif, acusando-o falsamente de ser membro do Hamas para desacreditar suas reportagens, e depois o mate, junto com seus colegas, por contar a verdade ao mundo”, disseram as especialistas.

Por isso, “exigimos uma investigação independente imediata sobre os assassinatos e que Israel permita urgentemente o acesso total da mídia internacional a Gaza”, acrescentaram na declaração.

Além disso, questionaram: “Se Israel não tem nada a esconder, por que continua impedindo o acesso de jornalistas internacionais?”

Consideraram que, “se Israel voltar a negar uma investigação independente ou o acesso de jornalistas internacionais, reafirmará sua própria culpa e o encobrimento do genocídio”.

O texto de Khan e Albanese enfatizou que “jornalismo não é terrorismo. Israel não apresentou nenhuma prova crível contra nenhum dos jornalistas que atacou e assassinou impunemente”.

Para as relatoras da ONU, trata-se, na verdade, de “atos de um exército arrogante que se considera impune, independentemente da gravidade dos crimes que comete”.

“A impunidade precisa acabar. Os Estados que continuam apoiando Israel devem agora impor sanções severas contra seu governo para pôr fim aos assassinatos, atrocidades e à fome em massa”, concluíram.

O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), com sede em Nova York, declarou-se “horrorizado” pelo assassinato dos jornalistas da Al Jazeera.

“A prática de Israel de rotular jornalistas como militantes sem apresentar provas confiáveis levanta sérias dúvidas sobre sua intenção e respeito pela liberdade de imprensa”, afirmou a diretora regional do CPJ, Sara Qudah.

A Anistia Internacional condenou o ataque como um crime de guerra segundo o direito internacional, e lembrou especialmente de Al-Sharif como um jornalista “corajoso e extraordinário”, que foi premiado por essa organização em 2024 como defensor dos direitos humanos.

O secretário-geral da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ), Anthony Bellanger, também declarou que “após uma campanha de difamação contra jornalistas de Gaza, Israel assassinou cinco funcionários da Al Jazeera em uma tenda onde estavam alojados”.

“Esse ataque deliberado contra jornalistas constitui um crime de guerra e os líderes israelenses devem ser responsabilizados por seus atos atrozes. Condenamos com veemência esse assassinato deliberado de nossos colegas e expressamos solidariedade com toda a equipe da Al Jazeera”, concluiu Bellanger.

Este texto foi publicado originalmente pela Inter Press Service (IPS)

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