Três monoteísmos liderados por fanáticos se enfrentam no Oriente Médio

Três monoteísmos liderados por fanáticos se enfrentam no Oriente Médio

O Armagedom, do livro do Apocalipse, foi lembrado nos Estados Unidos por cristãos fundamentalistas para falar da vitória final de Trump. (Imagem: ChatGPT)

POR LENEIDE DUART-PLON

Cientistas sociais e sociólogos não hesitam em classificar o Irã como uma teocracia, um regime político no qual o poder religioso e o político se fundem e a mais alta autoridade do país, o aiatolá eleito por seus pares, é um chefe religioso do Islã xiita – um dos dois ramos da religião muçulmana – majoritário no Irã e no Iraque principalmente.

Ao ler reportagem sobre o entorno de Trump, reuniões com líderes cristãos fundamentalistas no Pentágono e na Casa Branca, e ver o vocabulário religioso que acompanhou a mensagem de Trump no site oficial da Casa Branca, tem-se a impressão que a mistura do religioso com o político foi longe demais. Não se pode classificar de laico um presidente que escreve, ao declarar o início de uma guerra : « Que Deus abençoe os bravos homens e mulheres das Forças Armadas dos Estados Unidos. Que Deus abençoe os Estados Unidos da América ».

Para culminar, vemos, chocados, o presidente americano em sua mesa de trabalho, cercado de homens e mulheres com a mão direita em posição de quem abençoa, de olhos fechados, pedindo a Deus para iluminar o presidente e levá-lo à vitória final na guerra contra o Irã. É bom lembrar que em seu primeiro mandato, Trump criou na Casa Branca o Gabinete da fé.

Mas teocracia é o Irã.

Em Israel, os religiosos que fazem parte do gabinete do primeiro-ministro Netanyahu não escondem de ninguém que tudo farão para conquistar todas as terras vizinhas do Líbano, da Síria, do Iraque, e da Jordânia, além de parte do Egito, que pertenceriam ao « Grande Israel », objetivo final de todas as guerras de conquista do regime sionista. O embaixador americano em Israel, Mike Huckabee, chegou a afirmar em entrevista ao jornalista Tucker Carlson, em 20 de fevereiro deste ano, que Israel deve anexar todo o Oriente Médio « já que toda aquela terra faz parte da promessa de Deus a Abraão, segundo a Bíblia. »

Mas teocracia é o Irã.

Quanto mais lemos sobre as motivações (ou pretextos) para a guerra entre esses três beligerantes mais nos convencemos de que o que circula nos primeiros escalões é a diabolização do inimigo, sob um discurso religioso delirante que justifica a guerra. No caso de Israel, o objetivo final é a conquista e anexação de territórios dos países limítrofes.

Alguns comandantes americanos disseram às suas tropas que « esta é uma missão divina » e pastores costumam dizer que o governo Trump está liderando uma luta existencial pela defesa da fé cristã no mundo.

Mas teocracia é o Irã.

Segundo foi noticiado num artigo publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos na primeira semana da guerra, mais de 100 militares americanos reclamaram que oficiais do alto escalão violaram a separação da Igreja do Estado ao justificarem a guerra contra o Irã. Um deles disse à sua unidade que seus homens não deveriam ter medo pois a guerra contra o Irã « faz parte do plano de Deus » e que Trump foi « ungido » por Jesus para instaurar o Armagedom.

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Os denunciantes afirmaram que mensagens como esta foram recebidas por militares em mais de 30 bases militares dos Estados Unidos segundo a Military Religious Freedom Foundation que monitora e defende a separação da Igreja e do Estado.

Armagedom ? Quem sabe o que esta palavra do livro do Apocalipse vem fazer em plena guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, no Oriente Médio, região que foi o berço dos três monoteísmos ?

Na tradução da Bíblia de Jerusalém, se escreve Harmagedôn, nome de uma montanha (Meguido) que costeia a cadeia do Carmelo, lugar em que o rei dos judeus Josias, foi derrotado. « Este lugar tornou-se um símbolo de desastre para os exércitos que nele se reúnem », diz a nota de pé de página do capítulo 16, do livro do Apocalipse, o mais misterioso livro da Bíblia, último dos 66 livros da Bíblia cristã. O Armagedom é o último combate entre as forças do Bem e do Mal.

O dicionário Oxford explica que « o Armagedom no Novo Testamento (livro do Apocalipse) é a última batalha entre o Bem e o Mal antes do Julgamento Final e a palavra Armagedom também passou a significar um conflito catastrófico capaz de destruir o mundo ou a espécie humana »

É preferível pensar que os que veem Trump como « ungido » por Jesus para « instaurar o Armagedom » se enganam e estão fazendo uma interpretação apressada do Apocalipse.

Leneide Duarte-Plon, de Paris.
Leneide Duarte-Plon é co-autora, com Clarisse Meireles, de « Um homem torturado, nos passos de frei Tito de Alencar » (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, lançou « A tortura como arma de guerra-Da Argélia ao Brasil : Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado ». Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional.

A autora escreveu com Leila Duarte o livro “O Apocalipse e a volta do Messias” (Ed. Mauad, 1999), um estudo sobre o livro do Apocalipse.

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