A vida cotidiana piora dia a dia devido ao colapso energético em Cuba

A vida cotidiana piora dia a dia devido ao colapso energético em Cuba

Por Dariel Pradas*

HAVANA, 10 de abril – “Eu me levanto super cedo. Às cinco da manhã. Como é lógico, sempre sem luz. Isso não muda em nenhum momento”, conta à IPS Fernanda, de 51 anos, uma contadora que vive a meio quilômetro da emblemática Praça da Revolução, no município de Cerro, um dos 15 da capital de Cuba.

Com a ajuda de uma lâmpada recarregável, Fernanda prepara o café da manhã, passa a roupa, se veste, sai à rua e, ainda no escuro, caminha algumas quadras pelo bairro até o local onde uma amiga a busca de carro e a leva gratuitamente até seu local de trabalho: um banco.

Ela começa a trabalhar assim que chega. Ou duas ou três horas depois, dependendo de quando a eletricidade é restabelecida.

“Você pode passar a manhã inteira perdendo tempo, porque não dá para fazer nada sem eletricidade. Tem que esperar que digam (os chefes) que você pode ir embora”, explica Fernanda, que pediu para não divulgar seu sobrenome.

Ultimamente, ao meio-dia, costuma sair; volta a pé, se não houver triciclos elétricos circulando — o meio de transporte com melhor relação entre preço (meio dólar a passagem) e frequência — desde que, em fevereiro, o bloqueio petrolífero dos Estados Unidos e as medidas de racionamento da venda de combustível deixaram quase paralisados os ônibus e os carros clássicos dos anos 1950 que funcionavam como táxis coletivos.

Depois de caminhar cerca de seis quilômetros, chega em casa, ainda sem luz, e em um momento tão aleatório quanto “la bolita” — a loteria clandestina jogada nos bairros de Havana — a eletricidade chega e começa o que Fernanda chama de “a maratona”.

“Se for de dia, corre para pegar água”, é a primeira coisa que diz fazer.

Liga o motor para bombear água de uma cisterna subterrânea para outra no telhado, para que depois desça por gravidade e saia pelas torneiras da casa, sem necessidade de eletricidade.

Mas Fernanda não pode ligar esse motor até que outras três famílias, que compartilham a cisterna subterrânea e não têm outras no telhado — ou nem mesmo lajes de concreto para sustentá-las — consigam encher baldes e recipientes. Se ligar antes, a pressão que empurra a água para o telhado impediria que essa mesma água fluísse para as casas deles.

É melhor não entrar em conflitos com os vizinhos, então Fernanda não tem outra opção senão encher seus próprios baldes enquanto isso, por precaução.

Logo os vizinhos dão dois toques na janela, sinal de que ela já pode ligar o motor. No entanto, quando tenta fazê-lo, muitas vezes a luz já foi embora, e Fernanda tem que lavar louça e tomar banho com jarros de água.

Mal passou uma hora. Em outras ocasiões a eletricidade dura duas horas e, raramente, quatro. Depois volta a faltar por oito, dez ou talvez doze horas, e retorna por uma ou duas horas novamente, em uma maratona após outra.

Cada vez que a luz chega, não é só necessário cuidar do motor de água, mas também cozinhar, ligar a geladeira e carregar celulares, lâmpadas e ventiladores recarregáveis. Sua mãe, uma aposentada de 72 anos que vive com ela, ajuda nessas tarefas.

“Quando a colocam (a eletricidade) de madrugada, tem que levantar”, diz Fernanda, explicando que sempre que vai dormir — cedo, por tédio — deixa a luz acesa, para acordar caso ela volte.

“De qualquer forma, com o calor não dá para dormir… os mosquitos… o desconforto que vai aumentando”, acrescenta.

Na sala de sua casa, tem um altar com pedras, copos cheios de água, crucifixos e outros elementos religiosos do sincretismo afro-cubano, dedicados a seus santos iorubás. Não é “fanática”, mas acende velas e pede coisas de vez em quando; sobretudo, saúde. Curiosamente, nunca pensou em pedir luz, eletricidade. “Isso ninguém resolve”, explica, sorrindo e resignada.

Não sou das mais afetadas

Quando falta luz na casa de Fernanda, também falta na casa de Marta, uma habanera de 54 anos que dedicou 30 anos de sua vida ao setor educacional. Ambas compartilham o mesmo circuito dentro da rede elétrica nacional e vivem relativamente perto uma da outra.

Como Fernanda, Marta também cuida de sua mãe de 82 anos — além da sogra — e sua primeira preocupação ao acordar é saber se há luz ou não.

“Se acordo sem luz, acordo sem água”, diz Marta, que, como a maioria dos cubanos, sobrevive entre cortes programados, outros imprevistos e longos apagões nacionais totais, dos quais ocorreram sete no último ano e meio, dois deles em março.

Mas, ao contrário de Fernanda, ela tem sua cisterna subterrânea na garagem e a compartilha apenas com uma vizinha. Se há luz, enche os reservatórios do telhado; se não, leva baldes diretamente do subsolo. Água nunca falta.

Embora existam outros contrastes — uma casa cinco vezes maior, onde vive com cinco pessoas — o maior está no “ecoflow” que decora sua sala: uma bateria portátil que se tornou popular em Cuba devido à crise elétrica e virou um objetivo na vida de muitos cubanos.

Veja Também:  Amazônia corre o risco de se tornar uma savana, afirma estudo

O mercado cubano foi inundado por dispositivos desse tipo, especialmente da marca EcoFlow — com preços entre 600 e 3.000 dólares, dependendo da potência e capacidade — a ponto de as pessoas chamarem assim também baterias de outras marcas.

Mas o preço é proibitivo para a maioria das famílias cubanas, já que o salário médio mensal no país, segundo dados oficiais, é de apenas 13 dólares.

Fernanda também não pode pagar, embora ganhe cerca de 77 dólares por mês somando seu salário no banco e um segundo emprego fechando contas de uma cafeteria privada dois dias por semana.

Marta ganha menos que o salário médio em seu trabalho numa biblioteca, e também não poderia arcar com o custo nem somando as pensões das duas idosas que cuida e o salário do marido. Mas tem parentes no exterior que enviam remessas e ajuda.

Foi assim que o ecoflow acabou na sala de sua casa, cercado por extensões e fios que se espalham pelas paredes até a geladeira, quatro televisores e algumas luzes pela casa.

Mesmo com todo esse consumo, o equipamento dura quase 17 horas e carrega em 50 minutos — o suficiente para aproveitar a única hora de eletricidade que o circuito costuma receber após mais de 10 horas de apagão.

“Não me considero uma das mais afetadas”, reconhece Marta.

Mas, de qualquer forma, só quando há eletricidade Marta pode ligar o motor de água, lavar, cozinhar com panelas elétricas e realizar outras tarefas — então, mesmo que a luz chegue de madrugada, ela se levanta imediatamente.

“Hoje não pude ir ao trabalho porque não tinha luz nem água e estou responsável por duas idosas doentes. Elas são minha prioridade. Ontem, no trabalho, minha mãe me ligou porque a luz voltou e eu corri para casa. São seis minutos de distância. Quando cheguei, a luz já tinha ido embora”, conta, balançando a cabeça.

Marta tem certa flexibilidade no trabalho, que permite ficar em casa boa parte da semana, mas ainda assim precisa estar sempre atenta, mesmo com o ecoflow, se há ou não eletricidade. “Você vive em constante estresse”, suspira.

Partir do zero

Quando Marta e Fernanda se preparam para começar o dia, Tomás Leyva (foto acima), de 62 anos, está prestes a terminar o seu.

Ele é agente de segurança há cerca de 30 anos na Agência Geral de Segurança e Proteção, ligada ao Ministério dos Transportes. Há uma década vigia, no turno da noite, a entrada de um prédio multifamiliar também no município de Cerro.

Tomás termina seu turno às 6h da manhã, após 12 horas de trabalho, e entra numa rotina totalmente nova, que mudou há menos de uma semana, após se mudar para Havana.

Antes, pegava um ônibus interprovincial em Nueva Paz, a quase 80 km ao sudeste da capital. Como seu uniforme o identificava como trabalhador do setor de transporte, sempre conseguia embarcar sem passagem, mesmo em pé.

“Eu saía às três da tarde para a estrada, e por volta das quatro vinha o ônibus. Eu ficava com vergonha, porque havia muita gente esperando. Eu me afastava um pouco e, quando o ônibus parava na minha frente, eu entrava, as pessoas corriam e, antes de chegarem, o motorista fechava as portas”, conta.

“As pessoas protestavam, eu ficava com vergonha, mas o que eu podia fazer?”, acrescenta.

Com o agravamento da crise energética e a redução do transporte interprovincial, decidiu mudar-se para a casa da filha em Havana.

Suas condições de vida melhoraram bastante, pois vive em um “circuito protegido”, onde os apagões são menos severos.

No entanto, os trajetos até o trabalho se tornaram mais difíceis, devido à precariedade do transporte urbano.

“Antes eu viajava com ar-condicionado, mas outro dia quase desmaiei, com gente em cima de mim. Quando peguei o ônibus P-12, estava completamente lotado”, lembra.

Ao observar as condições dos serviços e da infraestrutura, preocupa-se com o futuro do país. “Quanto dinheiro vai ser necessário para consertar isso… Isso saiu do controle. Tudo tem que começar do zero. Do zero. Reconstruir tudo desde o começo. Quantos anos vamos levar nisso?”, reflete.

Na imagem maior, vendedores ambulantes comercializam produtos do lado de fora de um prédio em Havana. A venda ambulante é uma forma de aumentar a renda, inclusive para quem já tem emprego / Foto Jorge Luis Baños / IPS

*Jornalista residente em Cuba, correspondente da Inter Press Service (IPS)

Este texto foi publicado originalmente pela Inter Press Service (IPS)

Leia também: No porto de Matanzas, a 100 quilômetros a leste da capital de Cuba, o navio de bandeira russa Anatoly Kolodkin atracou em 31 de março, descarregando 100 mil toneladas de petróleo, o que representa um alívio para a crise energética provocada pelo bloqueio de combustíveis imposto pelos Estados Unidos desde o final de janeiro. Clique aqui para ler esta reportagem na íntegra.

Tagged: , ,