Ainda é possível reduzir o calor que assola o planeta

Ainda é possível reduzir o calor que assola o planeta

NAIROBI – A temperatura do planeta provavelmente continuará aumentando nos próximos anos, com riscos e impactos climáticos cada vez mais perigosos, mas ainda é possível reverter essa tendência, segundo um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), divulgado nesta quarta-feira, 02/09.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou a esse respeito que “o calor escaldante deste verão (no Hemisfério Norte), os devastadores incêndios florestais e as mortais inundações são um alerta sobre o que nos espera”.

“Cada fração de grau custará vidas, destruirá meios de subsistência, aprofundará a desigualdade e aproximará os ecossistemas de danos irreversíveis. Devemos fazer com que o aumento da temperatura acima de 1,5 grau (Celsius, °C) seja o menor e mais breve possível. Isso exige uma ambição extraordinária”, acrescentou Guterres.

Com o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, de 2015, a imensa maioria das nações assumiu o compromisso de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, que aquecem a atmosfera, de modo que, até 2050, a temperatura média do planeta não ultrapasse 1,5 °C em comparação com a da era pré-industrial (1850-1900).

Essa temperatura média, de aproximadamente 13,7 °C na segunda metade do século XIX, não deveria aumentar mais de dois graus até o final deste século, segundo o Acordo. Entretanto, na década atual, ela já se aproximou perigosamente do primeiro limite, de 1,5 °C.

O relatório do Pnuma, “Limitação do sobreaquecimento”, aponta que a ação climática pode reverter a tendência atual, reduzindo drasticamente a poluição por metano, protegendo a terra, as florestas e os oceanos e acelerando a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis.

Inger Andersen, diretora-executiva do Pnuma, afirmou que “em todo o mundo, as ondas de calor extremo já estão demonstrando que os impactos climáticos atingirão as pessoas mais rapidamente, com maior intensidade e durarão mais tempo, custando mais vidas e causando maiores perturbações”.

“Agora é o momento de redobrarmos nossos esforços na ação climática. Podemos e devemos voltar ao caminho certo. Reduzindo as emissões de gases de efeito estufa, fortalecendo a resiliência e a adaptação e garantindo que o excesso de 1,5 °C seja o menor e mais breve possível”, destacou Andersen.

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Guterres concordou, ao exigir “maior ambição”, por meio da “aceleração da eliminação progressiva dos combustíveis fósseis e da revolução das energias renováveis, da redução drástica da poluição por metano e da proteção da terra, das florestas e dos oceanos”.

Ele afirmou que, para isso, os governos devem superar as metas estabelecidas em seus planos climáticos nacionais, cumprir os compromissos de emissões líquidas zero — ou seja, retirar ou absorver uma quantidade de gases de efeito estufa equivalente àquela liberada na atmosfera — e ir além.

Os países industrializados, afirmou o secretário-geral, devem triplicar o financiamento destinado à adaptação e garantir que esses recursos cheguem às pessoas que estão em maior situação de risco.

“A ciência é clara. As soluções estão ao nosso alcance e o mundo nunca esteve tão bem preparado para colocá-las em prática. Agora é o momento de aumentar a ambição e acelerar a ação”, reafirmou Guterres.

Entre seus principais pontos, o relatório sustenta que, acima de 1,5 °C, os riscos e impactos se intensificarão a cada fração adicional de grau e a cada ano, incluindo eventos climáticos extremos mais intensos.

Também aumentarão progressivamente a perda de ecossistemas e a submersão dos pequenos Estados insulares em desenvolvimento e das cidades costeiras situadas em baixa altitude, juntamente com graves danos à saúde humana, à segurança alimentar, ao abastecimento de água, à natureza, às cidades, às infraestruturas e às economias.

A probabilidade de ultrapassar pontos de inflexão irreversíveis aumenta conforme a magnitude e a duração das temperaturas mais elevadas, incluindo a desestabilização das grandes camadas de gelo e a degradação da floresta amazônica.

A mitigação e a adaptação devem avançar conjuntamente, dando prioridade a intervenções como o resfriamento baseado na natureza.

As condições para o sucesso incluem forte vontade política e multilateralismo, políticas eficazes, governança inclusiva e financiamento.

E os países com maior responsabilidade pelas mudanças climáticas devem agir mais rapidamente e com a maior ambição.

Este texto foi publicado inicialmente pela Inter Press Service (IPS)

Na imagem: as secas, agravadas pelo calor extremo, afetam comunidades em praticamente todas as regiões do mundo / Johnstocker / Adobe Stock

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