Amazônia corre o risco de se tornar uma savana, afirma estudo

Estudo publicado na revista Nature revela que combinação de temperaturas cada vez mais altas e desmatamento pode lervar Amazônia a ponto sem retorno. (Imagem: Neil Palmer/CIAT – Flickr)
POR CORRESPONDENTE IPS
Inter Press Service
LONDRES – A combinação do aumento das temperaturas e da perda florestal devido ao desmatamento está aproximando a Amazônia de um ponto crítico sem retorno, com o risco de que grande parte de sua área atual se transforme em uma savana seca, alerta estudo publicado na revista científica Nature nesta quarta-feira, 6 de junho.
“Cerca de dois terços da floresta amazônica podem se transformar em florestas degradadas ou ecossistemas semelhantes a savanas diante do aquecimento global entre 1,5 e 1,9 graus Celsius (°C), caso o desmatamento aumente para entre 22 e 28% da Amazônia”, afirma o estudo.
A grande maioria dos países se comprometeu, pelo Acordo de Paris de 2015, a trabalhar para garantir que a temperatura média do planeta não ultrapasse 1,5°C acima dos níveis pré-industriais (1850-1900) até o ano de 2050.
Nos últimos três anos, a temperatura média tem oscilado em torno de 1,4°C, e o limite de 1,5°C poderá ser atingido 20 anos antes, no final desta década.
Segundo um estudo do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático (PIK), na Alemanha, se o desmatamento atingir entre 22% e 28% — e hoje já está em torno de 17% a 18% —, mesmo um aquecimento moderado poderá desencadear mudanças irreversíveis em grandes áreas florestais.
“O desmatamento torna a Amazônia muito menos resiliente do que prevíamos. Ele resseca a atmosfera e enfraquece a capacidade da floresta de gerar chuvas”, disse Nico Wunderling, cientista do PIK e principal autor do estudo.
Essa situação teria profundas implicações para a América Latina e para o sistema climático global. A Amazônia não só armazena carbono e abriga uma biodiversidade única e enorme, como também gera até metade de sua própria precipitação.
A perda de árvores interrompe a reciclagem da umidade, resseca a atmosfera e enfraquece a capacidade da floresta de se sustentar. Isso pode levar a efeitos em cascata: secas mais intensas, aumento de incêndios florestais e alterações nos padrões de chuva em toda a América do Sul.
A redução das chuvas afetaria, por exemplo, importantes áreas agrícolas no sul do Brasil ou na bacia do Rio da Prata, colocando em risco as colheitas, a energia hidrelétrica e a segurança hídrica.
Países como Bolívia, Brasil, Colômbia ou Peru – altamente dependentes desses sistemas – enfrentariam impactos econômicos significativos na maior floresta tropical e bacia hidrográfica do mundo, que também inclui Equador, Guiana, Surat, Venezuela e Guiana Francesa.
O colapso da floresta teria grandes impactos sobre milhões de indígenas, muitos em isolamento voluntário, e causaria uma enorme perda de biodiversidade. Globalmente, grandes quantidades de carbono seriam liberadas, agravando ainda mais as mudanças climáticas.
Johan Rockström, diretor do PIK e coautor do estudo, observou que “até agora, a floresta amazônica desempenhou um papel fundamental na estabilização do sistema terrestre como sumidouro de carbono, reguladora do ciclo da água e lar da mais rica biodiversidade terrestre do planeta.
No entanto, “o desmatamento contínuo está minando essa estabilidade e aproximando a floresta de um ponto de inflexão”, observou. “Isso não seria apenas devastador para a região, mas poderia ter consequências de longo alcance para todo o planeta”, acrescentou.
Dos 8.470.209 quilômetros quadrados da Amazônia, em 1985 a floresta tropical cobria cerca de sete milhões de quilômetros quadrados, 82% da área total da ecorregião, segundo a Rede Amazônica de Informações Socioambientais Georreferenciadas (Raisg).
A bacia abriga 25% da biodiversidade terrestre. Contém pelo menos 40.000 espécies de plantas e milhares de espécies de animais, com mais espécies de peixes do que qualquer outro sistema fluvial.
Seu papel na geração de água doce (entre 16 e 20% do total mundial) e na absorção de dióxido de carbono (460 milhões de toneladas de CO2 por ano) é insubstituível.
Na Amazônia, espalhada por nove nações, vivem cerca de 47 milhões de pessoas, das quais 1,5 milhão pertencem a cerca de 400 povos indígenas.
Os cientistas enfatizam que interromper o desmatamento e restaurar a cobertura florestal poderia fortalecer substancialmente a resiliência da Amazônia ao aquecimento global, que agora é inevitável.
As mudanças pelas quais a Amazônia passou “não são inevitáveis. Interromper o desmatamento, juntamente com a restauração ecológica das florestas degradadas e uma rápida redução das emissões (de gases de efeito estufa que aquecem o planeta), ainda podem mitigar os riscos”, concluiu Rockström.

Jornalismo e comunicação para a mudança global
