Ameaças assombram a campanha eleitoral e a paz na Colômbia

Por Correspondente da IPS
NAÇÕES UNIDAS – As ameaças contra candidatos presidenciais para a eleição que será realizada na Colômbia, em 31 de maio, destacam-se no quadro de preocupação com a paz nesse país apresentado nesta terça-feira, 21, pela Missão de Verificação das Nações Unidas. “Reitero minha condenação às ameaças relatadas contra candidatos presidenciais e faço um apelo às autoridades estatais para que garantam a segurança de todos os participantes no processo eleitoral”, afirmou perante o Conselho de Segurança da ONU o representante do secretário-geral, Miroslav Jenča.
Já na reta final da campanha, o presidente Gustavo Petro alertou sobre um possível atentado contra o senador Iván Cepeda, candidato da esquerda, além de ameaças também recentes contra os candidatos de direita Paloma Valencia e Abelardo De la Espriella, os três favoritos na disputa segundo as pesquisas.
Cepeda é candidato do Pacto Histórico, a aliança que apoia Petro; Valencia, do Centro Democrático, o partido do ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010), e De la Espriella lidera sua formação de extrema direita, Defensores de la Patria.
No ano passado, o pré-candidato presidencial Miguel Uribe, do Centro Democrático, foi assassinado por um jovem atirador enquanto fazia campanha diante de um grupo de pessoas em plena via pública no centro de Bogotá.
O ministro da Defesa, Pedro Sánchez, reuniu seu Conselho de Inteligência no fim de semana passado e foram adotadas medidas para garantir a segurança dos candidatos, suas famílias, sedes de campanha e atividades proselitistas, as quais foram comunicadas particularmente a cada aspirante.
O ministro do Interior, Armando Benedetti, deu detalhes como o envio de 107 especialistas da Unidade Nacional de Proteção, 160 policiais e 39 veículos blindados para proteger os 13 candidatos à presidência.
Na ONU, o Conselho de Segurança ouviu o relatório trimestral de Jenča como parte dos Acordos de Paz de 2016, que permitiram a desmobilização da que foi a principal guerrilha durante seis décadas, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
Grupos dissidentes das Farc, que se recusaram a se desmobilizar, ainda persistem em algumas regiões da Colômbia, além de outra guerrilha, o Exército de Libertação Nacional, remanescentes de grupos paramilitares e os braços armados de vários cartéis dedicados principalmente ao narcotráfico.
Jenča lembrou ao Conselho que, quando voltar a se reunir sobre a Colômbia em julho, já haverá um novo governo se preparando para assumir o poder em agosto. Um segundo turno entre os dois candidatos mais votados poderá ocorrer em junho.
“Quem assumir a presidência enfrentará um desafio formidável para consolidar a paz e a segurança nas regiões ainda afetadas pelo conflito”, afirmou Jenča.
O enviado da ONU reconheceu os avanços políticos do partido Comunes, surgido das antigas Farc, cujos representantes completaram seu mandato com assentos garantidos no Congresso e reafirmaram seu compromisso com o Acordo de Paz.
“Acolho com satisfação os compromissos expressos por seus líderes de continuar cumprindo o Acordo de Paz”, disse Jenča.
O diplomata também descreveu em primeira mão a devastação vivida na região do Catatumbo, no nordeste, na fronteira com a Venezuela.
Após uma visita em janeiro, relatou que encontrou moradias gravemente danificadas por ataques com drones entre grupos armados rivais, explosivos encontrados perto de escolas e comunidades aterrorizadas por minas antipessoais.
“Enquanto persistirem a violência, as disputas territoriais ou os vazios de governança em qualquer parte do país, existe o risco de minar a estabilidade nacional”, advertiu Jenča.
O Conselho de Segurança retomou a prática de incluir vozes da sociedade civil em suas deliberações sobre a Colômbia. Olga Lucía Quintero Sierra, cofundadora da Associação Camponesa do Catatumbo, foi a responsável por dar esse testemunho.
Quintero Sierra falou da violência vivida em sua região, mas também de esperança. Revelou que 54 camponesas do Catatumbo receberam 724 hectares de terra como parte do programa de adjudicação para mulheres rurais do Acordo de Paz.
“Essa conquista não representa apenas acesso à terra, mas a possibilidade de reconstruir nossos projetos de vida”, afirmou.
No entanto, sua mensagem também foi um alerta: a implementação parcial do Acordo de 2016 não é suficiente. “Cada descumprimento, cada atraso, cada tentativa de ignorar o que foi pactuado representa um golpe na esperança. Ainda assim, seguimos resistindo e persistindo, porque nos recusamos a renunciar à Paz”, afirmou.
Quintero aproveitou o fórum para fazer três apelos concretos: que a Missão de Verificação continue seu trabalho de forma integral, que o novo Congresso regulamente a Jurisdição Agrária e Rural, e que o próximo governo assuma a paz como prioridade de Estado.
Por sua vez, a chanceler Rosa Villavicencio, que representou o governo colombiano na sessão, defendeu os recursos da Missão de Verificação diante dos cortes orçamentários que atingem o sistema das Nações Unidas.
“Instamos a Secretaria-Geral a que não sejam considerados mais cortes na atual vigência para a Missão de Verificação”, afirmou a funcionária.
O governo, a líder camponesa e o representante da ONU concordaram que a paz na Colômbia não é um fato consumado, mas um processo que exige vontade política contínua, recursos internacionais e, sobretudo, presença do Estado nos territórios onde a violência ainda dita as regras.
Na imagem: Na região do Catatumbo, no nordeste da Colômbia, a violência desencadeada pelos confrontos entre grupos armados continua evidente, e agora também atinge os candidatos presidenciais na forma de ameaças à sua segurança. A Missão de Verificação da ONU aponta esse cenário como um desafio para a eleição de maio e para o novo governo que tomará posse em agosto / Crédito: Verdad Abierta
Este texto foi publicado inicialmente pela Inter Press Service

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