Ártico está apresentando sinais de alerta sem precedentes

No Ártico, o verde vibrante das temperaturas cada vez mais altas invade o branco do gelo ano após ano. Um novo relatório divulgado pela Organização Meteorológica Mundial alerta que o derretimento massivo e crescente do gelo ártico, consequência das mudanças climáticas, está impactando muito além dessa região — na verdade, todo o planeta. Imagem: Grid
POR CORRESPONDENTE IPS
GENEBRA – O Ártico, o termômetro do planeta, está dando sinais de alerta sem precedentes: está aquecendo a uma velocidade vertiginosa, transformando sua paisagem gelada em um ambiente mais quente, úmido e imprevisível, alertou a Organização Meteorológica Mundial (OMM) em um relatório nesta quinta-feira, dia 18.
As mudanças climáticas “estão tornando o Ártico irreconhecível” e “o que acontece lá não fica restrito ao Ártico, pois sua transformação afeta negativamente todo o planeta”, afirma o Relatório sobre o Ártico 2025, um documento endossado por 112 cientistas de 13 países.
O relatório documenta perdas históricas de gelo. As geleiras no Ártico escandinavo e no arquipélago norueguês de Svalbard, na confluência dos oceanos Ártico e Atlântico, sofreram a maior perda líquida anual de gelo já registrada entre 2023 e 2024.
A camada de gelo da Groenlândia, a ilha dinamarquesa no extremo nordeste do hemisfério americano, perdeu 129 bilhões de toneladas de gelo em 2025, um número que, embora inferior à média anual das últimas duas décadas, confirma uma tendência de perda líquida a longo prazo.
No Alasca, entre o Pacífico e o Ártico, as geleiras perderam, em média, 38 metros de espessura vertical desde meados do século XX, reduzindo, de modo geral, a altitude das superfícies de gelo.
O recuo glacial continua sendo um fator crucial para a elevação do nível do mar, com impactos que vão desde ameaças às reservas de água doce em comunidades do Ártico até o aumento do risco de inundações, deslizamentos de terra e tsunamis, afetando pessoas, infraestrutura e o litoral.
O gelo marinho mais antigo e espesso do Ártico (com mais de quatro anos) diminuiu em mais de 95% desde a década de 1980. Em março de 2025, o gelo marinho de inverno do Ártico atingiu sua menor extensão máxima anual em 47 anos de registros por satélite.
O relatório destaca um aparente paradoxo: durante a temporada de neve de 2024-2025, a acumulação ficou acima da média em grandes áreas do Ártico e permaneceu alta até maio. Mas, em junho, a extensão da cobertura de neve caiu abaixo dos níveis normais, em consonância com o que tem sido observado nos últimos 15 anos.
Atualmente, a extensão da cobertura de neve em junho é aproximadamente metade da que era há seis décadas, um sinal claro de uma mudança estrutural no sistema climático do Ártico.
Um dos fenômenos mais impressionantes documentados pelo relatório é o dos “rios enferrujados”. Em mais de 200 bacias hidrográficas do Alasca, o degelo do permafrost liberou ferro e outros elementos que transformaram rios e córregos antes cristalinos em uma coloração alaranjada.
O aumento da acidez e a presença de metais potencialmente tóxicos estão deteriorando a qualidade da água, comprometendo os habitats aquáticos e acelerando a perda de biodiversidade.
Detectado pela primeira vez no final da década de 1990, o “esverdeamento do Ártico” continua a se intensificar. Em 2025, a tundra ártica atingiu seu terceiro nível mais alto de vegetação desde o início dos registros por satélite, estendendo uma série de valores recordes ou próximos a recordes que começou em 2020.
Esse processo tem efeitos de longo alcance nos ecossistemas, nas condições do permafrost e nos meios de subsistência das populações do Ártico, além de influenciar o ciclo global do carbono e o clima planetário.
O relatório destaca as transformações estruturais em curso: o fenômeno da “Atlantificação”, que impulsiona águas mais quentes e salgadas para o norte; a expansão de espécies boreais para ecossistemas tradicionalmente árticos; e a crescente mobilização de metais associada ao degelo do permafrost.
“Calor recorde, níveis recordes de baixa no gelo marinho, recuo das geleiras, aquecimento contínuo dos oceanos e eventos extremos sem precedentes estão redefinindo esta região”, afirma o relatório.
O estudo recebeu apoio da Administração Nacional Atmosférica e Espacial dos EUA e do Programa de Monitoramento e Avaliação do Ártico, que assessora o Conselho do Ártico, composto por Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, Finlândia, Islândia, Noruega, Rússia e Suécia.
O alerta final é inequívoco, afirma a OMM: o que acontece no Ártico não fica restrito ao Ártico. As mudanças na região de aquecimento mais rápido do planeta já estão impactando o sistema climático global, os oceanos e a estabilidade ambiental em todo o mundo.
Artigo originalmente publicado na Inter Press Service

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