Aumentam as necessidades em Myanmar após o terremoto

Por Correspondente da IPS
GENEBRA – Uma grave escassez de água potável, alimentos e suprimentos médicos afeta os sobreviventes do terremoto de 28 de março em Myanmar, enquanto aumenta o número de mortos, já próximo aos 3000, segundo indicavam, nesta terça-feira, 1º, relatórios do governo e de agências das Nações Unidas.
“Comunidades inteiras foram arrasadas, com crianças e famílias dormindo ao relento sem casas para onde retornar”, disse a jornalistas, da cidade de Yangon, em Myanmar, a representante adjunta do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Julia Rees.
Para as equipes de ajuda que chegaram principalmente de Bangladesh, China, Índia, Rússia e Tailândia, “as condições continuam sendo extremamente difíceis, já que trabalham sem eletricidade nem saneamento, dormindo ao relento, como as comunidades que servimos”, acrescentou Rees.
O tremor de 7,7 graus de magnitude que sacudiu Myanmar (também conhecido por seu antigo nome, Birmânia) e a vizinha Tailândia já provocou 2719 mortos, 4521 feridos e há pelo menos 440 desaparecidos, segundo o governo militar birmanês.
Na Tailândia, a cidade mais afetada foi sua capital, Bangkok, com 21 mortos. Outras 70 pessoas ainda devem estar presas em edifícios ou em seus escombros.
As réplicas do terremoto continuaram no centro de Myanmar, um país de 676.000 quilômetros quadrados e 55 milhões de habitantes, e ali intensificam seus esforços as equipes de busca e resgate, segundo indicou o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (Ocha).
O principal responsável humanitário da ONU no terreno, Marcoluigi Corsi, destacou que, enquanto se estreita o período crítico para encontrar sobreviventes sob os escombros, “as pessoas têm medo de entrar em suas casas, por causa das réplicas, e sem eletricidade nem água corrente enquanto lutam contra o calor do verão”.
Mais de dois milhões de pessoas em áreas do centro do país enfrentam necessidades urgentes de água potável, higiene, abrigo, alimentos e medicamentos, segundo a Ocha.
Relata-se uma grave escassez de suprimentos médicos, incluindo kits de traumatologia, bolsas de sangue, anestésicos, dispositivos de assistência, medicamentos essenciais e tendas para os trabalhadores sanitários.
Os relatórios até o momento informavam que a resposta humanitária recebeu 56 milhões de dólares, apenas cinco por cento das necessidades estimadas em 1,1 bilhão de dólares.
Foi informado que a ONU disponibilizou 15 milhões de dólares de seu fundo de emergência para as tarefas de socorro. O Banco Asiático de Desenvolvimento disponibilizou outros três milhões de dólares.
As agências da ONU pedem ação urgente para auxiliar as populações de Myanmar antes da próxima temporada de monções, que corre o risco de piorar a crise.
Mesmo antes deste desastre, Myanmar enfrentava uma avassaladora crise humanitária, com quase 20 milhões de pessoas necessitadas devido a conflitos e desastres climáticos, incluindo as recentes inundações graves. Cerca de 15 milhões de pessoas passavam fome, segundo estimativas da ONU.
A grave situação sanitária não é a única crise que a população de Myanmar enfrenta. O porta-voz da Agência da ONU para os Refugiados (Acnur), Babar Baloch, disse que o país “está cambaleando” após quatro anos de conflito desencadeado por um golpe militar em 2021.
Ao golpe e à prisão de milhares de opositores seguiram-se protestos, fortemente reprimidos, e depois surgiram guerrilhas, principalmente entre as etnias minoritárias que habitam nas regiões fronteiriças, gerando-se um denso clima de confrontação interna, que incluiu ferozes combates e bombardeios aéreos.
Baloch falou de “uma dupla tragédia” para o povo de Myanmar, destacando o fato de que, mesmo antes de ocorrer o devastador terremoto, todas as zonas afetadas já abrigavam 1,6 milhão de pessoas deslocadas.
Também a enviada especial da ONU para Myanmar, Julie Bishop, disse que “o terremoto expôs as vulnerabilidades mais profundas que o povo de Myanmar enfrenta, e destacou a necessidade de a comunidade internacional prestar atenção sustentada à crise mais ampla”.
E referindo-se ao conflito e ao avanço das forças opositoras em várias partes do país, disse que “todas as partes devem permitir urgentemente espaço para a ajuda humanitária, e garantir que os trabalhadores humanitários possam operar com segurança”.
*Imagem: Equipes chinesas realizam operações de resgate de vítimas após o terremoto que devastou Myanmar, e também a Tailândia. SMG International
**Publicado originalmente em IPS – Inter Press Service | Versão e revisão: Marcos Diniz

Jornalismo e comunicação para a mudança global
