Brasil, potência agrícola em expansão e exemplo com vulnerabilidades

Brasil, potência agrícola em expansão e exemplo com vulnerabilidades

A soja invadiu o centro-oeste do Brasil a partir da década de 1970, dominando o Cerrado, o bioma de savana mais biodiverso do mundo, na orla da floresta amazônica. De cultura marginal, tornou-se o principal produto agrícola do país na década de 1990 e seu maior produto de exportação. Imagem: Mario Osava / IPS

POR MARIO OSAVA
Inter Press Service

RIO DE JANEIRO – O Brasil é um caso singular de desenvolvimento agrícola acelerado, tendo aumentado sua produção de grãos em quase nove vezes em 50 anos. Apresenta-se como um modelo de agricultura tropical, mas possui vulnerabilidades exacerbadas por guerras e, de forma mais existencial e permanente, pela crise climática.

De 39,4 milhões de toneladas de cereais, leguminosas e oleaginosas em 1975, a colheita anual saltou para 346,1 milhões de toneladas em 2025, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

De uma economia que importava quase 30% dos alimentos que consumia, o país se tornou um grande exportador, com um superávit de US$ 149 bilhões no setor agrícola. As importações foram limitadas a US$ 20 bilhões, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária .

Durante esse período de cinco décadas, a população do Brasil dobrou, passando de 107 milhões para 213 milhões, segundo o mesmo IBGE. Em 1975, ainda era predominantemente rural, com 52% da população. O censo de 2022 indicou que 87% dos brasileiros vivem em cidades.

Em outras palavras, o salto na produção agrícola ocorreu durante um período de intenso êxodo rural, com a rápida urbanização da população brasileira.

A pesquisa científica que permitiu ao país incorporar vastas áreas do Cerrado, a savana brasileira, antes consideradas impróprias para a agricultura, é frequentemente citada como um fator decisivo na transformação do Brasil em um dos celeiros do mundo.

Razões financeiras por trás do boom?

“Existem várias explicações, mas talvez uma das mais importantes seja a restrição de recursos externos para a importação de alimentos. O Brasil era muito dependente de alimentos importados, e isso foi agravado pela crise da década de 1980”, avaliou Jorge Arbache, professor de economia da Universidade de Brasília.

Durante aquela “década perdida”, os países da América Latina e muitas outras nações em desenvolvimento sofreram uma crise de dívida externa devastadora que forçou severos ajustes econômicos.

O Brasil então vivenciou um ressurgimento da hiperinflação, que atingiu 235% em 1985, e o início de um processo de desindustrialização . O setor manufatureiro viu sua participação no produto interno bruto (PIB) diminuir, em contraste com a agricultura.

Do ponto de vista agronômico, isso foi decisivamente impulsionado por um investimento significativo em pesquisa e desenvolvimento voltado para o setor agrícola. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), criada em 1975, desempenhou um papel fundamental, mas outras instituições especializadas também foram importantes.

“Isso resultou em um plano agrícola sofisticado no Cerrado”, lembrou Arbache, referindo-se ao bioma que constitui a savana mais biodiversa do mundo.

A produção de milho e algodão também apresentou aumentos significativos nas últimas duas décadas, impulsionada pela soja, a principal cultura cultivada entre novembro e março. O algodão ou o milho são plantados imediatamente depois, na mesma área. Com duas ou três colheitas por ano, a agricultura tropical é naturalmente competitiva. Imagem: Mario Osava / IPS

A soja crucial

A adaptação da soja ao solo ácido e ao clima do Cerrado, que abrange dois milhões de quilômetros quadrados no centro do Brasil, foi fundamental para o crescimento da produção agrícola. Em 2025, essa oleaginosa, que também é uma leguminosa, representou 48% da produção total de grãos no Brasil, ou 166,1 milhões de toneladas.

Há cinquenta anos, era uma cultura marginal restrita ao extremo sul do país. Hoje, Mato Grosso, estado da região Centro-Oeste, ocupado principalmente pelo Cerrado e em parte pela Amazônia, responde por 30,4% da safra nacional de soja.

“A grande capacidade da soja de se adaptar a diferentes solos e climas favoreceu essa expansão. A Embrapa e outros centros de pesquisa conseguiram selecionar variedades com produção espetacular no Centro-Oeste”, explicou Jean Marc von der Weid, economista agrícola com mestrado pela Universidade Paris I Panthéon-Sorbonne, na França.

Mas o mais importante foi o investimento em recursos humanos e extensão rural, por meio de uma rede que levou conhecimento aos agricultores, disse Arbache à IPS em entrevista de Brasília.

Além disso, o cultivo da soja impulsionou o plantio de milho e algodão, dos quais Mato Grosso se tornou o maior produtor nacional nos últimos anos. Isso ocorre porque essas duas culturas constituem a segunda safra anual nas mesmas áreas, uma vantagem da agricultura tropical.

A incidência solar durante todo o ano permite a fotossíntese contínua e, portanto, duas ou três colheitas por ano, limitadas apenas pelo clima, especialmente pelas chuvas. É isso que garante a crescente importância do Brasil e de outros países tropicais na produção mundial de alimentos, afirma Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura do Brasil.

“Não conheço nenhum outro caso (de desenvolvimento agrícola) comparável ao do Brasil. Existem projetos específicos, controlados, quase experimentais, para o plantio de culturas em zonas áridas, mas nada significativo em uma perspectiva global”, observou Arbache.

Uma das vulnerabilidades era que a concentração de grãos na fronteira agrícola centro-oeste gerava uma forte demanda logística.

desenvolvimento de estradas, ferrovias e hidrovias não acompanhou o ritmo do progresso agrícola, resultando em armazenamento insuficiente e altos custos de transporte no quinto maior país do mundo, com 8,6 milhões de quilômetros quadrados.

Uma pequena área da floresta amazônica em chamas. Cada árvore derrubada ou queimada na Amazônia representa milhares de litros de água perdidos diariamente nos chamados “rios voadores”, que transportam água da chuva para as áreas agrícolas mais produtivas do sul do Brasil. Imagem: Mario Osava / IPS

Crescimento sustentável apesar das vulnerabilidades?

Existem também outras vulnerabilidades críticas.

“Nossa agricultura é muito dependente de insumos importados, tecnologias, fertilizantes, diversos agroquímicos, serviços digitais, e grande parte do comércio é dominada por empresas internacionais”, disse o professor de economia Arbache.

Veja Também:  Lula promove sessão para documentário sobre oceanos de Attenborough; PT faz treino para apoiadores na eleição

“O valor agregado local é relativamente baixo. O setor tem um ponto fraco. Uma crise internacional, como a que está ocorrendo atualmente, poderia levar nossa agricultura à ruína, devido a um modelo de negócios muito vulnerável”, observou ele.

Refere-se à invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, desde fevereiro de 2022, e à guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, que começou em 28 de fevereiro, afetando o fornecimento de dois insumos essenciais: fertilizantes e diesel.

O Brasil importa aproximadamente 85% dos fertilizantes que consome. A Rússia, principalmente, e países do Oriente Médio como Arábia Saudita e Catar são seus fornecedores e, portanto, fontes de insegurança, como evidenciado pelas guerras na Ucrânia e contra o Irã.

Mas, sem dúvida, a maior vulnerabilidade está relacionada ao clima, disse von der Weid, fundador da organização não governamental AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia, originalmente Consultoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa, sigla que mantém, à IPS em sua residência no Rio de Janeiro.

A insuficiência de ferrovias e armazéns está elevando o preço da soja e de outros grãos de exportação brasileiros. Essa infraestrutura logística está localizada em Anápolis, no estado de Goiás, região centro-leste do país, onde duas ferrovias se conectam. Imagem: Mario Osava / IPS

Será que o boom das monoculturas está caminhando para a falência?

O agronegócio, como é conhecida a agricultura industrial em larga escala e monocultura , “está caminhando para a insolvência geral”, argumentou ele. Eventos climáticos extremos estão causando perdas crescentes e exigindo subsídios e perdão de dívidas cada vez maiores, a ponto de se tornarem inviáveis ​​financeiramente, afirmou.

Esse fenômeno já ocorreu de forma brutal no estado do Rio Grande do Sul, no extremo sul do Brasil, onde chuvas torrenciais em maio de 2024 afetaram 2,4 milhões de pessoas, com pelo menos 183 mortes, submergiram cidades inteiras, mataram milhares de animais e inundaram as principais plantações.

As ondas de calor reduziram a produção mundial de café e cacau e estão causando danos significativos à soja e ao milho, as culturas mais volumosas do Brasil, sendo o milho o mais vulnerável à seca, explicou Von der Weid.

As áreas mais produtivas para o agronegócio, no Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, dependem em grande parte das chuvas provenientes da Amazônia , nos chamados ” rios voadores “.

A umidade proveniente do Oceano Atlântico, próxima ao Equador, transportada pelos ventos alísios que sopram de leste para oeste, penetra na floresta amazônica e se expande devido à transpiração das árvores. Ao encontrar a Cordilheira dos Andes, as nuvens se espalham pelo centro-sul do Brasil e por partes do Paraguai, Argentina e até mesmo do Uruguai.

A agricultura nessas áreas depende desses rios de superfície, mas a população rural ligada ao agronegócio está entre os negacionistas das mudanças climáticas . A extrema direita, liderada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022), é a mais ativa no combate ao ambientalismo , mesmo sendo vítima direta da crise climática.

Agricultores do Corredor Seco da América Central recebem treinamento na construção de um tanque de pedra, uma das tecnologias de captação de água da chuva utilizadas na região semiárida brasileira, que visitaram em junho de 2018 para uma troca de conhecimentos sobre como lidar com a seca. Imagem: Mario Osava / IPS

Será que a região semiárida é a resposta para o futuro?

A irregularidade climática causa secas e chuvas excessivas, dispersas e imprevisíveis, de maneiras diferentes mesmo em locais próximos, e é generalizada e imposta de forma semelhante ao que ocorre na ecorregião semiárida do Nordeste do Brasil, onde a AS-PTA tem sido mais ativa desde sua fundação em 1983, explicou Von der Weid.

Nessa região, predomina outro tipo de agricultura, que no Brasil é chamada de agricultura familiar, porque envolve pouca terra e o trabalho principalmente de famílias na produção rural.

O Nordeste concentra 47% das propriedades agrícolas familiares, segundo o censo do IBGE de 2017. É onde as práticas agroecológicas mais se difundiram, mesmo por razões naturais, ou seja, condições adversas, como chuvas concentradas em poucos meses, águas subterrâneas salobras, calor e muita pobreza.

As secas periódicas no Nordeste já não causam os desastres sociais que costumavam ocorrer repetidamente na região, com êxodos massivos de pessoas para o sul mais desenvolvido e industrializado, invasão de cidades e saques a empresas.

A disseminação de cisternas para coleta de água da chuva, mais de 1,2 milhão desde 2003, foi o principal fator nas mudanças ocorridas e que limitou os danos sociais das secas na região semiárida.

A maioria dessas cisternas, mais de um milhão, é usada para fornecer água potável e água para cozinhar para as famílias. O restante, destinado à produção, é usado para irrigar jardins e para o gado.

Isso foi complementado por vários programas sociais, como o Bolsa Família, um subsídio direto aos mais pobres, benefícios para aposentados e pessoas com deficiência, e compras governamentais de alimentos produzidos por agricultores familiares para merenda escolar e instituições de assistência social.

Essas são “tecnologias sociais” que foram exportadas para regiões semiáridas do continente africano, como o Corredor Seco da América Central e o Chaco argentino.

O futuro da agricultura será agroecológico, afirma Von der Weid, uma exigência para a adaptação às mudanças climáticas e às condições adversas que os agricultores já enfrentam na região semiárida.

“A crise do agronegócio já se instalou e está se agravando, apesar de sua atual solidez no Brasil. Os subsídios não podem ser prorrogados indefinidamente”, concluiu.

Tagged: