Como Israel perdeu sua alma

Como Israel perdeu sua alma

Por James E. Jennings

ATLANTA, Estados Unidos – A história dramática do nascimento de Israel em 1948, depois do Holocausto nazista, despertou a admiração e o espanto do mundo. Seus fundadores disseram que Israel seria uma luz para as nações, mas agora a identidade do Estado judeu mudou de vítima de genocídio para autor dele em menos de duas gerações.

O governo do Likud de Israel é acusado de genocídio em Gaza por um comitê especial da ONU, a Corte Internacional de Justiça considerou que a acusação é plausível e, recentemente, 28 nações se uniram para declarar que Israel violou o direito internacional humanitário.

O que houve? Em vez de encarar a verdade de 75 anos de injustiças contra os palestinos que levaram ao terrível massacre e sequestro de reféns pelo Hamas em 2023, a maioria dos israelenses apoia o massacre diário em Gaza, que já dura quase dois anos.

Depois de mais de 100 mil vítimas sob bombardeio constante da população civil sem que ninguém responda, começou a fome.

Bem diferente desses fatos atuais, o pai fundador de Israel, David Ben-Gurion, no Dia da Independência de Israel disse em seu discurso que:

“O Estado de Israel… vai promover o desenvolvimento do país em benefício de todos os seus habitantes; vai se basear na liberdade, na justiça e na paz, como previsto pelos profetas de Israel; vai garantir a completa igualdade de direitos sociais e políticos a todos os seus habitantes, independentemente de sua religião, raça ou sexo; vai garantir a liberdade de religião, consciência, idioma, educação e cultura; vai proteger os lugares sagrados de todas as religiões; e vai ser fiel aos princípios da Carta das Nações Unidas”.

Qualquer observador pode ver agora que Israel, como sociedade e como governo, fez exatamente o contrário. Israel perdeu sua alma ao virar racista, depois racialista, abraçando a visão doutrinária de Menachem Begin de que os judeus são, por natureza e por direito divino, superiores a outras raças.

Isso levou à repressão dos palestinos e, se der chance, ao seu extermínio, como agora se vê claramente em Gaza.

Se o Estado existe para o benefício de todos os seus habitantes, por que o presidente Jimmy Carter, que conseguiu negociar a paz entre Israel e Egito, escreveu um livro chamado “Paz, não apartheid”? Se Israel existe para todos os seus cidadãos, por que os árabes israelenses são cidadãos de segunda classe? Por que os palestinos que fugiram de suas casas em 1948 e 1967 ainda moram em campos, com quase seis milhões de pessoas ainda consideradas refugiados?

Por que, durante décadas de ocupação militar da Palestina, árabes foram mortos, presos e feridos, bairros foram bombardeados, casas foram destruídas, ruas foram devastadas, famílias e bairros foram cercados por muros de concreto e uma população inteira teve negado o direito de viajar? Por que, se Israel protege os lugares sagrados de todas as religiões, sua força aérea bombardeou quase mil mesquitas em Gaza e agora também as poucas igrejas e um hospital cristão que tem lá?

A resposta sionista a essas perguntas talvez seja que os palestinos, submetidos a décadas de domínio militar, não são na verdade cidadãos de Israel. É uma distinção que não faz diferença, já que a autoridade ocupante tem a responsabilidade legal sobre a população sob ocupação, incluindo Cisjordânia e Gaza.

É verdade que tem áreas declaradas como administradas só pelos palestinos, mas ninguém diz que o território palestino seja de verdade livre e independente. O território ocupado e sua população continuam sob o controle do Estado israelense.

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A ideia de que o governo israelense, durante a maior parte de sua história, e especialmente agora, é fiel aos princípios da Carta das Nações Unidas é ridícula. Embora a ONU tenha criado Israel, seus diferentes governos negaram há muito tempo qualquer direito da ONU de limitar seus objetivos expansionistas e seus poderes de guerra.

Isso ficou claro recentemente com duas ações: os ataques conjuntos de Israel e Estados Unidos em junho de 2025 contra o Irã, um Estado membro da ONU, e os bombardeios e destruições sistemáticas durante anos de agências, escritórios, escolas e centros de distribuição de alimentos da ONU em Gaza.

Raphael Lemkin, sobrevivente judeu do Holocausto, criou o termo “genocídio” e fez disso seu objetivo de vida: que fosse incorporado ao direito internacional.

A Convenção sobre o Genocídio foi aprovada pelas Nações Unidas em 1948, mas Israel está descumprindo ela de propósito em Gaza.

O genocídio é um crime grave, mas suas regras no direito internacional são claras: não se pode matar nem criar as condições para a destruição de um grupo de pessoas só porque elas pertencem a esse grupo; não se pode expulsar ou transferir à força esse grupo.

E não se pode promover publicamente fazer isso, que é uma regra fundamental já quebrada por Benjamin Netanyahu, Donald Trump, Yoav Galant (ex-ministro da Defesa israelense, com acusações de crimes de guerra pela Corte Penal Internacional) e outros.

Em janeiro de 2024, a Corte Internacional de Justiça (CIJ), que contou com um juiz israelense ad hoc, Aharon Barak, votou a favor de pedir a punição daqueles que defendessem a expulsão ou transferência da população de Gaza.

Que responsabilidade têm os cidadãos de Israel pelas ações de seu governo? Responsabilidade total como grupo, mas não como indivíduos, a menos que votem especificamente a favor ou defendam ações genocidas. As figuras da oposição israelense, que são muito poucas, são corajosas e merecem elogios.

E os cidadãos dos Estados Unidos, onde tanto democratas quanto republicanos têm ajudado e apoiado há muito tempo a violência de Israel contra aqueles que estão sob sua proteção?

Os governos e os cidadãos de todo o mundo devem se unir para evitar que a fome mate mais crianças em Gaza. Nós, cidadãos americanos, devemos levantar nossa voz agora ou vamos ser classificados para sempre junto com aqueles que permitiram e apoiaram o genocídio atual.

James E. Jennings, doutor em Filosofia, é presidente da Conscience International (Consciência Internacional), uma organização de ajuda nas guerras no Líbano, Síria, Iraque, Palestina, Sudão, Gaza e outros territórios desde 1991. Professor de história e outras matérias em diversas universidades americanas, também é diretor do programa US Academics for Peace (Acadêmicos Americanos pela Paz).

*Imagem em destaque: Desde 2024 os palestinos têm que fazer filas para conseguir uma comida cada vez mais escassa na Faixa de Gaza. A fome é crescente nos últimos meses, denuncia-se, e está sendo usada por Israel como arma de guerra contra os habitantes de Gaza. Imagem: Mahmoud Issa / Médicos do Mundo

*Publicado originalmente em IPS – Inter Press Service

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