Conselho da Paz: Outro desígnio imperial quixotesco de Trump

O proposto “Conselho da Paz” de Trump, estruturado em torno de chefes de Estado — incluindo a Rússia —, é estruturalmente inadequado para pôr fim à guerra entre Israel e Hamas e para governar Gaza no pós-guerra de qualquer maneira sustentável.
Por Alon Ben-Meir*
NOVA YORK – Em uma coletiva de imprensa no Fórum Econômico Mundial em Davos, em janeiro, Trump revelou seu recém-criado Conselho da Paz para encerrar a guerra entre Israel e Hamas. E em coletiva na Casa Branca, ele explicou que criou o conselho porque “a ONU deveria ter resolvido todas as guerras que eu resolvi. Eu nunca fui até eles. Nunca sequer pensei em ir até eles”.
Trump afirmou que o Conselho da Paz lidará com o fim da guerra entre Israel e Hamas em Gaza. Trump convidou vários chefes de Estado para integrar o Conselho e ameaçou impor tarifas pesadas aos países daqueles que recusassem o convite. Paradoxalmente, também convidou o presidente russo, Vladimir Putin, para fazer parte do grupo.
Mesmo uma análise superficial da estrutura do Conselho — sua composição executiva, papel e responsabilidades — deixa claro que Trump se colocou no centro de tudo, desde as operações até a tomada final de decisões. Na prática, ele codificou a dominância dos Estados Unidos, desde que estivesse no comando.
Ele concedeu a si mesmo autoridade para vetar qualquer decisão de que não gostasse, convidar ou remover qualquer membro do Conselho, aprovar a agenda, designar seu sucessor e até dissolver completamente o Conselho. Além disso, reservou para si um papel central mesmo após deixar a presidência.
Falhas do Conselho e de sua Estrutura
De mais de uma forma, a criação desse Conselho dissolve o sistema internacional do pós-guerra construído pelos Estados Unidos e ergue um novo sistema com ele próprio no centro. E, enquanto Trump busca consolidar poder autoritário internamente, agora tenta se projetar no palco internacional como se fosse um imperador, presidindo um conselho composto majoritariamente por chefes de Estado. Embora os membros possam se manifestar, eles permanecem estruturalmente subordinados a ele.
Nenhum Assento para os Principais Interessados
O Conselho da Paz e o Conselho Executivo paralelo para Gaza foram concebidos para se sobrepor a um comitê palestino tecnocrático, sem conceder assento à liderança política palestina na mesa principal, apesar de os palestinos serem os principais interessados. Exige-se que o Hamas se desarme, sem especificar como, e que se retire da governança administrativa.
A Autoridade Palestina é relegada a um papel gerencial “apolítico”, o que, na prática, reproduz o problema histórico de tentar impor soluções aos palestinos em vez de negociar com eles. Isso tem repetidamente minado iniciativas de paz anteriores e não oferece um caminho para uma paz regional ou global sustentável.
Conflito de Interesses
O Conselho é presidido pelo próprio Trump, com a filiação efetivamente comprada por meio de uma taxa de US$ 1 bilhão para um “assento permanente”, criando conflitos evidentes entre lucro, prestígio e construção da paz. Rússia, Israel, monarquias do Golfo e outros atores com interesses diretos em vendas de armas, influência regional e rotas energéticas não são garantidores neutros, mas partes interessadas que provavelmente instrumentalizarão Gaza para suas próprias agendas estratégicas.
Tutela de Estilo Colonial
A arquitetura do plano prevê explicitamente figuras internacionais e chefes de Estado supervisionando a reconstrução, a segurança e a governança de Gaza, transformando efetivamente o território em um protetorado administrado por potências externas.
Defensores dos direitos humanos e observadores regionais já criticam o modelo como uma tutela de estilo colonial que nega soberania genuína, o que já vem gerando resistência local, deslegitimando o arranjo e fornecendo combustível ideológico para grupos militantes dispostos a sabotá-lo.
Objeções Israelenses e Regionais
A liderança israelense manifestou publicamente objeções à composição e ao desenho das estruturas para Gaza. Está enfurecida com o papel atribuído à Turquia e ao Catar, forçando Netanyahu a se distanciar de aspectos do plano, mesmo aderindo ao Conselho sob pressão de Trump.
Ainda assim, o governo israelense vê membros-chave do Conselho e seus mecanismos como hostis ou incompatíveis com seus princípios de segurança. Israel provavelmente dificultará a implementação ou a esvaziará na prática, transformando o Conselho em uma arena de conflito entre aliados, em vez de um instrumento de resolução de conflitos.
Rivalidade entre Grandes Potências Dentro do Conselho
Ironicamente, o Conselho prevê a participação simultânea de rivais como Rússia, União Europeia e Estados alinhados aos EUA, enquanto, ao mesmo tempo, Moscou resiste aos termos de paz apoiados pelos EUA na Ucrânia e explora crises no Oriente Médio para enfraquecer a influência ocidental. Esse arranjo convida o Conselho a se tornar mais um palco de competição entre grandes potências, no qual Rússia, Hungria, Belarus e outros podem obstruir ou diluir medidas que não sirvam a seus interesses geopolíticos mais amplos.
Isso sem mencionar, é claro, as preocupações e suspeitas generalizadas entre líderes europeus sobre a presença de Putin como um ator adversário à mesa — uma receita para discórdia que impede ações concretas.
Base Legal Incerta
Outro grande problema do Conselho de Trump é sua apresentação como alternativa — e possível substituto — das Nações Unidas, sem qualquer base legal, filiação universal ou autoridade vinculante no direito internacional.
Um clube autoselecionado por Trump, composto majoritariamente por chefes de Estado convidados, atrelado a uma administração específica dos EUA e ancorado em contribuições financeiras significativas, carece de legitimidade processual para impor arranjos de segurança, arbitrar disputas ou garantir de forma crível os direitos palestinos no longo prazo — algo a que Trump não dá qualquer atenção.
Mandato Excessivamente Ambicioso e Pouco Especificado
As responsabilidades do Conselho já se expandiram da supervisão de um cessar-fogo em Gaza para uma ampla carta de intenções de “promoção da estabilidade” e “resolução de conflitos globais”, o que é ostensivo e irrealizável, além de indicar um desvio de missão antes mesmo de começar.
Um mandato tão variável, com múltiplas estruturas sobrepostas (Conselho da Paz, Conselho Executivo de Gaza, Conselho Executivo Fundador), quase certamente gerará disputas burocráticas, paralisia e incoerência — especialmente quando crises além de Gaza passarem a competir por atenção e recursos.
Sem dúvida, trata-se apenas de mais uma encenação de Trump, sempre fingindo ser o único capaz de propor ideias “fora da caixa”. Como muitas de suas iniciativas, este chamado Conselho da Paz se enquadra na mesma categoria — transacional e reversível.
É uma ideia grandiosa que não pode ser sustentada estruturalmente, não possui capacidade de aplicação prática e depende de uma lógica contraditória para cumprir sua missão, que, de qualquer forma, permanece aberta e irrealista.
*Alon Ben-Meir é professor aposentado de Relações Internacionais, mais recentemente no Center for Global Affairs da Universidade de Nova York (NYU). Ele lecionou cursos sobre negociação internacional e estudos do Oriente Médio.
Este texto foi publicado originalmente pela Inter Press Service (IPS)

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