COP30: Prefeitos reivindicam protagonismo e financiamento na luta climática

COP30: Prefeitos reivindicam protagonismo e financiamento na luta climática

Por Mario Osava

RIO DE JANEIRO — É nas cidades que se sofre e se combate a crise climática, destacaram prefeitos de todo o mundo reunidos no Rio de Janeiro para reivindicar o reconhecimento de seu protagonismo nessa luta, com o correspondente financiamento.

O Fórum de Líderes Locais aconteceu entre terça (4) e ontem, quinta-feira (6), promovido pela presidência brasileira da 30ª Conferência das Partes (COP30) da convenção sobre o clima e a fundação Bloomberg Philanthropies, criada pelo empresário e ex-prefeito de Nova York, Michael Bloomberg.

Foi um encontro prévio que levará à COP30 — que começa na próxima segunda-feira, 10 de novembro de 2025 e termina no dia 21, em Belém, uma capital amazônica no norte do Brasil — as reivindicações e propostas das cidades.

Também as levarão à Cúpula de Líderes políticos, que foi ontem, quinta (6) e hoje, sexta (7), a excepcional antessala da COP decidida pelo Brasil, para poder amenizar os problemas logísticos da reunião climática anual, onde se esperam mais de 40 mil pessoas.

O papel destacado dos prefeitos ganhou dimensões dramáticas nos Estados Unidos, onde o governo central, presidido por Donald Trump, nega a mudança climática e desativa os programas e fundos ambientais.

Por isso teve uma forte presença no fórum a coalizão America is all in (Estados Unidos está totalmente comprometido), que busca reafirmar o compromisso dos Estados Unidos com o Acordo de Paris, apesar da retirada de seu governo.

O acordo mundial assinado em 2015 na capital francesa fixava como meta conter o aquecimento planetário a 1,5 graus Celsius, para evitar efeitos incontroláveis como os crescentes eventos extremos.

Trump abandonou o acordo em 2017, durante seu primeiro governo — de 2017 a 2021 —, e voltou a fazê-lo neste primeiro ano após sua segunda administração. A coalizão, uma resposta a essa decisão, conta atualmente com 368 prefeitos e 10 governadores de estados, além de 4.724 líderes empresariais, religiosos e culturais.

Está presente em todos os 50 estados do país e representa dois terços da população e três quartos da economia, segundo o site do movimento, que assumiu as metas nacionais acordadas em Paris, de reduzir as emissões dos gases de efeito estufa em 50% até 2030, em comparação com as de 2005, e 100% em 2050.

A luta climática se faz de baixo, onde “acontece a magia”, e nos Estados Unidos muitos estados e cidades se adiantaram nas metas de mitigação, disse à IPS Gina McCarthy, ex-administradora da Agência de Proteção Ambiental (EPA) que copresida a coalizão junto com dois governadores e um prefeito.

O Museu de Arte Moderna, um símbolo da arquitetura modernista brasileira, acolheu o Fórum de Líderes Locais, a maioria prefeitos, de todo o mundo para um encontro de três dias com debates sobre o papel das cidades na luta climática e a necessidade de financiamento às suas ações para se adaptar e mitigar os efeitos do aumento das temperaturas. Imagem: Mario Osava/IPS

Trump realça papel das cidades

Em contrapartida, no governo central “não acontece nada” atualmente, acrescentou em um dos debates que liderou no fórum. As críticas reiteradas ao presidente Trump durante o encontro acentuaram a necessidade de fortalecer a ação climática dos governos subnacionais.

Trump é “o principal destruidor do clima”, definiu o prefeito de Londres, Sadiq Khan, ao inaugurar, na segunda-feira (4), a cúpula mundial do C40 Cidades, uma rede de articulação de 97 cidades de todos os continentes que somam 920 milhões de habitantes.

O grupo promoveu várias reuniões temáticas no âmbito do Fórum de Líderes Locais, sobre transição energética, água, lixo e as cidades do futuro.

“A crise do clima é uma crise de desigualdades”, destacou em seus discursos a prefeita Yvonne Aki-Sawyerr, de Freetown, capital de Serra Leoa, que copresida o C40 junto com Khan e introduziu assim o tema da justiça climática e as distintas necessidades do Sul global.

A dramática carência de financiamento para as cidades dos países em desenvolvimento se refletiu na declaração do prefeito Carlos Piedrahita, de Mocoa, capital do estado de Putumayo, no sul da Colômbia, que tem 63 mil habitantes e sofreu uma avalanche por causa de chuvas torrenciais em 2017, que provocou pelo menos 336 mortes.

“Até hoje não foi possível reconstruir as moradias para 2 mil pessoas que vivem em barracos, em situação difícil, sem água”, assinalou o prefeito no Fórum de cidades da Amazônia, que reúne municipalidades dos oito países da região.

Falta capacidade de investimentos para as necessárias obras de infraestrutura, o financiamento climático deve considerar que as vidas humanas também são importantes, não apenas a preservação da água e da floresta amazônica, reivindicou.

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Finanças são o tema central das COPs do clima há vários anos. Na COP29, realizada no ano passado em Baku, ficou acordada a meta de alcançar 300 bilhões de dólares de aportes anuais ao mundo em desenvolvimento até 2035, longe da meta pretendida de 1,3 trilhão de dólares.

Na COP30 se tratará especialmente da “implementação” das metas já acordadas e da adaptação aos eventos climáticos extremos que proliferam no mundo e tendem a se intensificar ante a batalha já considerada perdida de conter o aquecimento em 1,5 graus.

O grupo de prefeitas e representantes da coalizão America is all in, de prefeitos, governadores de estados e líderes empresariais, religiosos e culturais dos Estados Unidos, que impulsionam ações climáticas em oposição ao negacionismo do presidente Donald Trump. No centro, a copresidenta do movimento, Gina McCarthy. Imagem: Mario Osava/IPS

Água, termômetro da crise

A água reflete a gravidade da crise, seja por sua escassez ou o excesso em alguns momentos.

Bogotá sofreu uma seca em 2024 e enfrenta o risco permanente de deslizamentos quando recebe um fluxo excessivo de chuvas amazônicas, das quais depende, destacou à IPS o prefeito da capital colombiana, Carlos Galán.

Os fenômenos La Niña e El Niño, provocados pelo resfriamento ou o aquecimento da água superficial no Pacífico e que levam mais chuvas ou secas nas distintas partes da América do Sul, têm efeitos mais intensos nos países andinos, advertiu.

São efeitos que afetam também Lima, onde passam décadas sem chover, porém os riscos de desabamentos foram destacados por seu prefeito, Renzo Reggiardo. É que descem desde os Andes até a capital do Peru as águas de três bacias com fluxos mais variáveis, devido à mudança climática, explicou à IPS.

Ante a intensificação dos eventos extremos, o Fórum das Cidades Amazônicas elaborou um plano de trabalho para 2026-2027, voltado à adaptação climática, à assistência técnica para aproveitar melhor os recursos e a cooperação regional.

Um “Guia de boas práticas na gestão ambiental urbana em municípios da Amazônia Legal” foi apresentado pelo Ministério das Cidades do Brasil. A Amazônia não é apenas florestas e água, mas é principalmente urbana, destacaram vários palestrantes no fórum. Cerca de 70% de seus 50 milhões de habitantes vivem nas cidades, ressaltaram.

O prefeito de Londres, Sadiq Khan, copresidente do C40 Cidades, rede que promove a articulação entre 97 municipalidades do mundo, especialmente na ação climática, rodeado de outros líderes locais. Imagem: Local Leaders Forum Bloomberg Philanthropies

Boas práticas climáticas

O fórum mundial dos prefeitos, que incluiu vários governadores do Brasil e Estados Unidos, enfatizou a necessidade de políticas multiníveis, de cooperação entre os governos nacionais, estaduais e municipais, para lidar com a crise climática.

Foi principalmente um encontro para divulgação de boas experiências de cidades ao longo de todos os continentes.

A cidade indiana de Mumbai, por exemplo, informou que seus planos para alcançar zero emissões líquidas de gases de efeito estufa contam com um orçamento de 25,5 bilhões de dólares para 2025-2026 destinado especialmente à energia renovável e à construção.

Chengdu, uma das megacidades da China, apoia 32 de suas comunidades a eliminar suas emissões com energia solar e reformas dos edifícios.

Londres, sob a gestão de Sadiq Khan, conseguiu reduzir a poluição do ar a um ponto que se previa alcançar apenas dentro de 200 anos.

Em Accra, capital de Gana, na África, o problema dos resíduos sólidos segue preocupante, porém a coleta do lixo aumentou de 75% para 87% em dois anos e a reciclagem de 5% para 18%.

Porém dados impressionantes indicam uma forte ligação da cultura artística com a ação climática, em 45 cidades criativas que participam em um Fórum cultural mundial. 88% dos grupos culturais colaboram com as autoridades ambientais e 76% apoiam a descarbonização dos transportes.

No Brasil, um grupo de 3 organizações sociais identificou e compilou o Banco de Soluções Climáticas com 55 casos exemplares de ações em energia, transporte, infraestrutura urbana, água, agricultura, sistemas alimentares e outros setores.

(+) Imagem em destaque: Participantes no Fórum de Líderes Locais, antessala da COP30, com o Pão de Açúcar ao fundo. Crédito: Reprodução/Bloomberg Philanthropies

(++) Publicado originalmente em IPS — Inter Press Service

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