Crianças adotam IA três vezes mais rápido do que adultos, diz Unicef
UNICEF alerta para riscos cognitivos, emocionais e de outras naturezas decorrentes de exposição acelerada, sem padrões de governança exigidos aos desenvolvedores da tecnologia. (Imagem: Bruno Peres/Agência Brasil)
POR CORRESPONDENTE IPS
Inter Press Service
NAÇÕES UNIDAS – As crianças estão avançando três vezes mais rápido do que os adultos na adoção da inteligência artificial (IA) para seus fins, revela estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), em dez países da Ásia, Europa e América Latina, divulgado nesta terça-feira (30/06).
“A inteligência artificial já está aqui. Ela é uma parte cada vez mais importante de nossas vidas. E está moldando a infância em todo o mundo, para o bem e para o mal”, resume o relatório do UNICEF.
O estudo destaca “a escala e a velocidade com que crianças em todo o mundo estão adotando a IA, ao mesmo tempo que revelam os riscos e as lacunas que a acompanham”, enfatiza a organização.
A análise baseia-se em pesquisas realizadas por organizações parceiras do UNICEF em 10 países: Armênia, Brasil, Colômbia, Jordânia, México, Montenegro, Macedônia do Norte, Paquistão, República Dominicana e Sérvia.
Dados desses 10 países sugerem que pelo menos 20 milhões de crianças já utilizaram inteligência artificial. Muitas delas estão progredindo mais rapidamente do que os adultos, adotando-a a uma taxa mais de três vezes superior.
“Mais de dois milhões de crianças – uma em cada dez – disseram recorrer à IA para obter conselhos sobre assuntos que lhes preocupam, e estima-se que 13 milhões de crianças a utilizem para melhorar a sua aprendizagem e o seu desempenho escolar”, afirma o estudo.
Com o rápido desenvolvimento e a ampla adoção na última década, a IA (Inteligência Artificial) tem sido identificada desde 1956 como o campo da ciência da computação que desenvolve sistemas capazes de imitar as funções cognitivas humanas.
A UNICEF alerta que “à medida que o uso da IA por crianças se acelera, as regras que regem seu uso – incluindo aquelas criadas para protegê-las – mal conseguem acompanhar o ritmo”.
Segundo essa organização, as crianças estão mais expostas aos sistemas de IA — incluindo seus projetos, modelos de negócios subjacentes e o uso que se faz de seus próprios dados — mas têm muito menos poder para evitá-los ou questioná-los.
Eles são “os primeiros a sentir os efeitos da má governança e serão os que terão de conviver com as consequências por mais tempo”, afirma o relatório.
Apesar disso, a maioria das políticas de governança de IA não prioriza as crianças. Embora a IA tenha o potencial de proporcionar às crianças oportunidades de aprender, brincar ou ser criativas, poucos testes foram realizados sobre seu papel no desenvolvimento cognitivo, na dependência emocional e na exposição a riscos.
“Uma geração inteira está crescendo em meio a um experimento global”, alerta a UNICEF. O estudo argumenta que “as próprias crianças reconhecem os riscos”, visto que, em pesquisas realizadas nos 10 países analisados, um terço dos participantes expressou preocupação com o uso da IA para aplicar golpes e enganar outras pessoas, ou para disseminar desinformação.
Um quarto dos entrevistados temia que suas imagens ou vídeos fossem distorcidos para criar deepfakes (imagens, vídeos ou áudios manipulados) de natureza sexualmente explícita.
“Existem sistemas demais aos quais as crianças têm acesso sem nenhuma medida de proteção em vigor; a segurança, ao que parece, é uma questão secundária”, lamenta o relatório.
A análise foi publicada antes do primeiro Diálogo Global sobre Governança da Inteligência Artificial, proposto pela Assembleia Geral da ONU e cuja primeira sessão ocorrerá nos dias 6 e 7 de julho em Genebra, na Suíça, onde Estados e outros atores-chave se reunirão para discutir a IA.
A UNICEF propõe que os direitos das crianças sejam incorporados à governança global da inteligência artificial, com ações que comecem pelo investimento em pesquisas sobre o impacto da IA no desenvolvimento e bem-estar das crianças, especialmente no que diz respeito aos riscos.
Em seguida, propõe o fortalecimento das leis, das estruturas de governança e da responsabilidade corporativa para acabar com a exploração e o abuso sexual facilitados pela IA.
Da mesma forma, pede que os sistemas de IA sejam projetados com máxima segurança e transparência, para que todas as crianças tenham a oportunidade de serem protegidas e, ao mesmo tempo, se beneficiarem das oportunidades.
A alfabetização em IA deve ser promovida e o apoio deve ser fornecido às crianças, bem como aos seus pais ou responsáveis, para ajudá-los a progredir no ambiente digital.
A UNICEF também afirma que é preciso investir em infraestrutura digital e conectividade eficaz para todas as crianças, seus pais ou responsáveis, tanto em casa quanto na escola, a fim de reduzir a disparidade em IA dentro e fora dos países.

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