Crianças morrem em silêncio em cenário pós-apocalíptico em Gaza

Por Correspondente da IPS
AMMAN – A fome se alastra pela Faixa de Gaza e crianças e adultos, incluindo trabalhadores humanitários, desmaiam de inanição, assim como os reféns israelenses nas mãos das milícias islamistas Hamas e Jihad Islâmica, destacou novo relatório da Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinos (UNRWA).
Philippe Lazzarini, comissário-geral da UNRWA, disse que “quando vivemos uma situação onde até mesmo quem cuida e socorre começa a desmaiar, significa que toda a estrutura do sistema humanitário está desmoronando. E é exatamente isso que vemos hoje em Gaza”.
“É uma espécie de cenário pós-apocalíptico, onde as crianças estão morrendo silenciosamente de fome, e aquelas que ainda não chegaram a esse ponto pedem para fugir desse inferno”, comentou Lazzarini.
Ele explicou que a lógica de muitas crianças, cujas palavras a UNRWA registrou, é que “talvez fosse melhor morrer, porque no céu ou no inferno pode haver comida, mas em Gaza não tem”.
Os 2,1 milhões de moradores da faixa de 365 quilômetros quadrados enfrentam há meses uma grave escassez de alimentos e outros suprimentos, por causa do bloqueio que Israel – em guerra contra o Hamas – mantém sobre a entrada de ajuda fornecida pelas agências da ONU e outras organizações humanitárias.
Israel só permite a entrega de alimentos através da Fundação Humanitária de Gaza, que criou junto com os Estados Unidos e que, em poucos pontos de distribuição, entrega comida no meio do caos causado por tiroteios onde morrem palestinos desesperados atrás de alimento.
Mais de cem adultos e crianças já morreram de fome, e entre maio, junho e julho morreram cerca de 1.500 pessoas quando foram buscar comida nos pontos estabelecidos pela Fundação de Israel e Estados Unidos.
Já as agências da ONU dizem que em países vizinhos há cerca de 6 mil caminhões carregados com alimentos e outros suprimentos, prontos para entrar na Faixa assim que as autoridades israelenses liberarem.
No último fim de semana, piorando ainda mais o drama, as milícias Hamas e Jihad Islâmica divulgaram vídeos mostrando seus reféns israelenses famélicos em condições deploráveis e implorando para serem libertados logo.
O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu pediu à Cruz Vermelha para tentar levar alimentos e outros auxílios aos reféns. O Hamas anunciou que vai permitir essa operação se Israel abrir corredores humanitários e deixar entrar em Gaza a ajuda urgente para os moradores.
O alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, pediu novamente a libertação dos reféns e que seja liberada a entrada de ajuda para a população, junto com outros responsáveis da ONU que dizem que “o pior cenário possível, a fome generalizada, já começou”.
Lazzarini disse que “todos os dias chegam pedidos de socorro de populações famintas e até mesmo de nossos colegas da UNRWA. Como posso responder a essas mensagens de desespero? Elas me deixam envergonhado e aumentam minha sensação de impotência”, frisou.
Há duas semanas, jornalistas da agência francesa AFP, com apoio do governo francês, fizeram um apelo desesperado para ajudar seus colaboradores na Faixa a conseguir alimentos para suas famílias.
Para Lazzarini, “as autoridades israelenses estão matando de fome civis, incluindo um milhão de crianças” que fazem parte da população de Gaza.
Israel autorizou lançamentos aéreos de suprimentos essenciais por mais de uma semana, declarando pausas nos combates para fins humanitários em certas áreas durante algumas horas por dia.
Jordânia, Emirados Árabes Unidos, França e Reino Unido informaram sobre lançamentos aéreos de alimentos e itens básicos, e a Alemanha pretende organizar uma “ponte aérea humanitária para Gaza” via Jordânia.
Mas muitos observadores consideram essas operações caras e pouco eficazes, já que a ajuda que consegue chegar dessa forma é pouca e não há controle adequado para que chegue realmente a quem mais precisa.
A guerra atual começou depois que o Hamas atacou o sul de Israel em 7 de outubro de 2023, matando cerca de 1.200 pessoas e levando umas 250 como reféns. Com a resposta militar israelense, morreram mais de 60 mil palestinos e a maior parte de tudo que foi construído em Gaza virou escombros.
(+) Imagem em destaque: Mulheres e crianças fazem fila em centro de distribuição de alimentos em Gaza. Crédito: ONU
(++) Publicado originalmente em IPS – Inter Press Service

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