Cuba entra em estado de emergência devido à escassez de combustível

Cuba entra em estado de emergência devido à escassez de combustível

As medidas incluem uma semana de trabalho de quatro dias para economizar energia elétrica, teletrabalho, ativação do ensino à distância nas universidades e racionamento da venda de combustível para pessoas físicas, informou a Presidência da República. (Foto: Luiz Baños/ IPS)

POR CORRESPONDENTE IPS

HAVANA – Cuba intensificou suas medidas de emergência e racionamento a partir desta segunda-feira, dia 9, em resposta à escassez de combustível que enfrenta, sem solução à vista, após os Estados Unidos ordenarem novas tarifas para punir os países que fornecem petróleo à ilha.

As medidas incluem uma semana de trabalho de quatro dias para economizar energia elétrica, teletrabalho, ativação do ensino à distância nas universidades e racionamento da venda de combustível para pessoas físicas, informou a Presidência da República.

No caso de veículos motorizados, um aplicativo é ativado para que os usuários saibam em qual dia da semana podem obter até 20 litros de combustível nos postos de serviço, evitando assim longas filas nos postos de gasolina.

O resultado imediato nesta capital e em outras cidades foi uma queda na atividade, com ruas desertas, frequência mínima em estabelecimentos e escritórios, menos tráfego de ônibus, aumento das tarifas de táxi e dificuldades para muitos funcionários chegarem aos seus locais de trabalho.

As companhias aéreas foram notificadas de que, a partir desta terça-feira, dia 10, não haverá combustível disponível para as aeronaves, o que prenuncia um impacto severo no turismo, uma fonte de renda muito importante para a ilha.

Em crises anteriores, aeronaves comerciais tiveram que adicionar uma escala aos seus voos para reabastecer em países vizinhos, como Bahamas, Panamá, República Dominicana e até mesmo os Estados Unidos.

No ano passado, Cuba recebeu 1,8 milhão de turistas, que deixaram pouco mais de 900 milhões de dólares na ilha, e já foi um ano particularmente ruim em comparação com os últimos anos da década passada, quando Cuba recebia até quatro milhões de visitantes anualmente.

Em Varadero, o principal balneário de Cuba, a cerca de 150 quilômetros a leste de Havana, hotéis com baixa ocupação fecharam e os turistas foram transferidos para outros estabelecimentos, como parte do programa de economia de energia.

Em 30 de janeiro, o presidente dos EUA, Donald Trump, ordenou medidas para estrangular a economia da ilha, alegando que “a situação em relação a Cuba representa uma ameaça incomum e extraordinária”, e declarou “estado de emergência nacional em relação a essa ameaça”.

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Nessa linha, ele ordenou o estabelecimento de um sistema de tarifas contra os produtos de países estrangeiros que, direta ou indiretamente, fornecem qualquer tipo de petróleo a Cuba.

A ilha de 9,7 milhões de habitantes era abastecida com combustível da Venezuela, mas esse fornecimento cessou abruptamente quando os Estados Unidos atacaram o país sul-americano em 3 de janeiro e fizeram prisioneiros o presidente Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores, aliados fiéis de Havana.

Washington assumiu o controle das exportações de petróleo da Venezuela e proibiu o envio delas a Cuba, entre outras medidas impostas ao governo de Delcy Rodríguez, sucessora interina de Maduro.

Isso deixou o México praticamente como o único fornecedor possível de petróleo para Cuba no hemisfério, mas a ameaça de novas tarifas paralisou o fornecimento, em meio a relações já complicadas entre os países da América do Norte.

No domingo, o México enviou 814 toneladas de alimentos e outros produtos para a população cubana a bordo de dois navios de sua Marinha, mas não combustível.

A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, lamentou a situação nesta segunda-feira, dia 9, em sua habitual coletiva de imprensa matinal, e afirmou que seu país está trabalhando no âmbito diplomático para viabilizar o envio de combustível para a ilha.

“Continuaremos a apoiar e a tomar todas as medidas diplomáticas necessárias para recuperar os carregamentos de petróleo, porque não se pode estrangular um povo assim, desta forma. É muito injusto”, disse Sheinbaum.

Ele criticou a decisão de Trump, afirmando: “Essa sanção não pode colocar o povo cubano na situação em que se encontra, independentemente de se concordar ou não com o governo cubano. Não está certo.”

O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, expressou sua gratidão nas redes sociais pelo gesto mexicano: “Obrigado, México. Pela solidariedade, pelo carinho, pelo sempre caloroso abraço de Cuba”, escreveu ele.

A Rússia também denunciou as “medidas de estrangulamento” dos Estados Unidos contra Cuba, e o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que seu país está em negociações com as autoridades cubanas para fornecer ajuda e assistência.

O ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, reconheceu que “o cenário é difícil e exigirá grandes sacrifícios”, porque para Washington “o objetivo, como sempre, é quebrar a vontade política do povo cubano. Esse objetivo é impossível de alcançar”, escreveu em sua conta nas redes sociais.

Artigo publicado originalmente na Inter Press Service.

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