Gastos militares disparam e financiamento para a paz despenca
Por Oritro Karim
NAÇÕES UNIDAS – De 22 a 26 de junho, as Nações Unidas (ONU) realizaram sua primeira Semana da Consolidação da Paz, em comemoração ao 20º aniversário da sessão inaugural da Comissão de Consolidação da Paz da ONU. O evento explorou como a colaboração entre governos, organizações internacionais e o setor privado pode aumentar a visibilidade e a eficácia dos esforços de consolidação da paz em todo o mundo.
A Semana da Consolidação da Paz reuniu líderes mundiais, formuladores de políticas públicas, representantes da sociedade civil e defensores da paz em uma série de debates.
Seus objetivos são especialmente relevantes no momento atual, em que o aumento das tensões geopolíticas enfraquece a cooperação internacional e os graves déficits de financiamento esgotam os recursos disponíveis, dificultando a assistência às populações civis afetadas por conflitos.
Apesar do aumento histórico do número de conflitos armados ativos em todo o mundo nos últimos dois anos, o financiamento destinado à consolidação da paz e à ajuda humanitária sofreu uma queda expressiva de 40% entre 2024 e 2025, deixando milhões de pessoas em situação de extrema vulnerabilidade.
“A paz não surge automaticamente. Ela é construída por meio de uma diplomacia persistente, da ação coletiva e da vontade política”, afirmou Annalena Baerbock, presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas.
Ela acrescentou que “as guerras que nunca acontecem graças aos esforços de consolidação da paz, prevenção de conflitos ou desenvolvimento sustentável raramente ganham as manchetes. No entanto, como qualquer outra iniciativa, a consolidação da paz só é possível quando dispõe dos recursos necessários”.
No dia 26 de junho, o Centro de Impacto para a Consolidação da Paz — integrante do Escritório de Apoio à Consolidação da Paz (PBPSO), vinculado aos Departamentos de Assuntos Políticos e Consolidação da Paz e de Operações de Paz das Nações Unidas (DPPA-DPO) — apresentou seu primeiro relatório global sobre consolidação da paz, intitulado “Investir na Paz Quando o Mundo Paga pela Guerra”.
O relatório analisa dados coletados junto a governos, organizações da sociedade civil, pesquisadores e operações das Nações Unidas em campo, abrangendo diversos contextos ao redor do mundo.
Ao abordar as causas profundas dos conflitos e incentivar a adoção de tecnologias digitais — juntamente com a participação ativa da juventude e do setor privado —, o documento busca criar novos caminhos para uma consolidação da paz mais resiliente, inclusiva e apoiada internacionalmente.
Com o objetivo de identificar lacunas estruturais no compartilhamento de dados que impedem que informações essenciais sejam disseminadas internacionalmente e plenamente utilizadas por formuladores de políticas e pela sociedade, o relatório foi lançado durante o evento paralelo intitulado “Construindo a Paz em um Mundo em Transformação”.
Durante o evento, Paul Fargues, um dos autores do relatório e oficial de Assuntos Políticos do Departamento de Assuntos Políticos e Consolidação da Paz (DPPA) da ONU, afirmou aos jornalistas que o mundo vive atualmente uma “encruzilhada, em que os conflitos aumentam, a boa governança se deteriora e o espaço cívico se reduz”.
Segundo ele, esse cenário é agravado pelos severos cortes orçamentários e pelo investimento desproporcional em gastos militares, em detrimento da proteção da população civil e das iniciativas de prevenção, tornando cada vez mais difícil a realização de operações humanitárias.
De acordo com o relatório, nas últimas duas décadas, o mundo investiu apenas um dólar em iniciativas de consolidação da paz para cada 100 dólares destinados a gastos militares.
Fargues acrescentou que as populações mais vulneráveis serão as mais afetadas, especialmente em contextos extremos, onde a ajuda internacional representa mais de 60% de todo o financiamento externo e constitui uma verdadeira tábua de salvação.
Além disso, o DPPA constatou que aproximadamente dois terços dos países cujas economias dependem mais da ajuda da ONU também estão entre os mais atingidos pelos cortes de financiamento.
Fargues argumentou que um dos principais obstáculos para fortalecer os esforços de consolidação da paz é a persistente deficiência estrutural na produção e disseminação de evidências e dados, área que permanece muito menos desenvolvida do que os setores de desenvolvimento e assistência humanitária.
“A consolidação da paz carece de uma estrutura capaz de criar práticas compartilhadas para o uso de dados, produzir conhecimento em escala global que fortaleça decisões baseadas em evidências ou, simplesmente, comunicar seu valor a um público mais amplo e sem conhecimentos técnicos”, afirmou.
“Os promotores da consolidação da paz e seus apoiadores precisam melhorar sua capacidade de medir, demonstrar e comunicar esses resultados. Diante de contextos extremamente difíceis, produzir dados e evidências mais robustas sobre impacto é o mínimo necessário”, acrescentou.
Katherina Ahrendts, diretora-geral de Ordem Mundial, Nações Unidas e Ajuda Humanitária do Ministério Federal das Relações Exteriores da Alemanha, afirmou que, embora os motivos para investir em prevenção e proteção sejam evidentes, os compromissos políticos e financeiros continuam muito aquém do necessário.
Segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), cada dólar investido em políticas macroeconômicas preventivas pode gerar até 103 dólares em benefícios econômicos. O DPPA também calcula que investimentos adequados em prevenção e proteção poderiam reduzir as necessidades humanitárias em aproximadamente US$ 3,6 bilhões por ano.
Apesar desse enorme potencial, os argumentos econômicos em favor da consolidação da paz ainda exercem pouca influência sobre as prioridades globais de investimento.
“Estamos, sem dúvida, em um momento crítico, em que os conflitos violentos aumentam, os orçamentos estão sob forte pressão e o multilateralismo enfrenta desafios cada vez maiores”, afirmou Ahrendts.
“Do ponto de vista da política nacional, precisamos de argumentos muito mais sólidos, narrativas mais convincentes e melhores evidências. Precisamos demonstrar que a consolidação da paz é um instrumento inteligente, estratégico e economicamente vantajoso, capaz de evitar custos muito maiores no futuro.”
Ela acrescentou que isso significa apresentar a consolidação da paz não apenas como um imperativo moral, mas também como uma questão de segurança, estabilidade, interesses comuns e investimentos estratégicos. “Precisamos deixar claro que investir na consolidação da paz é parte integrante de uma estratégia eficaz de segurança.”
Ana Escobar, representante da organização Peace Direct junto à ONU — entidade que fortalece iniciativas locais de consolidação da paz e apoia abordagens conduzidas pelas próprias comunidades —, destacou que a consolidação da paz deve ser construída a partir das comunidades e adaptada às necessidades específicas das populações mais vulneráveis.
A Peace Direct considera que o verdadeiro impacto ocorre quando as comunidades se tornam mais seguras e resilientes muito tempo depois do encerramento do apoio externo.
Em vez de impor uma agenda previamente definida, a organização trabalha com líderes comunitários e agentes locais da paz para estabelecer, em conjunto, o significado de sucesso e identificar as mudanças que desejam alcançar.
“Isso significa fazer perguntas diferentes”, afirmou Escobar.
“As comunidades estão conseguindo resolver seus conflitos sem recorrer à violência? Como medimos isso? As mulheres, os jovens e os grupos marginalizados têm hoje maior influência nas decisões? A confiança entre as comunidades e as instituições está aumentando?”
“A consolidação da paz é mais eficaz quando poder, recursos e dados fluem na mesma direção: para as comunidades que convivem diariamente com os conflitos. Para os agentes locais da paz, prevenção significa que crianças frequentem a escola em vez de ingressarem em grupos armados; que agricultores retornem às suas terras; que mercados reabram; que mulheres possam circular com segurança; e que famílias permaneçam unidas. Esses são os resultados que as comunidades medem todos os dias”, acrescentou.
Cedric de Coning, pesquisador sênior do Grupo de Pesquisa sobre Paz, Conflito e Desenvolvimento do Instituto Norueguês de Assuntos Internacionais (NUPI), destacou a importância da chamada consolidação adaptativa da paz.
Essa abordagem exige monitoramento contínuo dos dados e atualização permanente das estratégias de consolidação, reconhecendo que a dinâmica das comunidades está em constante transformação. Em vez de entender a paz como uma estrutura rígida que simplesmente se “constrói”, Coning defende que ela deve ser vista como um processo contínuo que se “cultiva”.
“A consolidação adaptativa da paz nos mostra que não podemos conhecer previamente todas as respostas; elas precisam surgir das próprias pessoas afetadas pelos conflitos ou das sociedades que lutam para alcançar a paz”, afirmou.
“Como construtores da paz, devemos acompanhar essas sociedades, aprender continuamente com elas e adaptar constantemente nossa compreensão sobre aquilo que podemos apoiar. Mas também devemos ter cuidado para não medir a paz apenas por indicadores que façam sentido para projetos financiados por doadores.”
Na sua avaliação, “a paz é algo muito mais amplo. Precisamos medir essa transformação social mais abrangente: como as sociedades vivenciam a paz, como experimentam essa realidade. É isso que devemos observar, em vez de avaliar apenas projetos para satisfazer os financiadores.”
Este texto foi publicado inicialmente pela Inter Press Service (IPS)
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