Governo Milei sofre revés com vitória expressiva do peronismo

Por Correspondente da IPS
BUENOS AIRES — O presidente ultradireitista da Argentina, Javier Milei, sofreu sua pior derrota em seus quase dois anos de governo, porque a oposição peronista conseguiu no domingo 7 uma vitória que surpreendeu por sua expressividade, na eleição do parlamento da província de Buenos Aires.
A frente Força Pátria, que reuniu as correntes peronistas, obteve 47,2% dos votos na eleição para senadores e deputados dessa província que reúne 40% do registro eleitoral nacional, quase 14 pontos a mais que o partido de Milei, A Liberdade Avança, e seus aliados, que reuniram 33,7% dos sufrágios.
O governador provincial e artífice da vitória peronista, Axel Kicillof, proclamou ante seus partidários que “as eleições demonstraram que há outro caminho e hoje começamos a percorrê-lo”, e advertiu Milei que “não podes governar para os de fora, para os que mais têm; tens que governar para o povo”.
A expresidente peronista Cristina Fernández (2007-2015), em prisão domiciliar após uma condenação por corrupção, escreveu em sua conta da rede X “Viste, Milei? Banalizar o ‘Nunca Mais’, que representa o período mais trágico da história argentina, não é grátis. Rir da morte e da dor de teus oponentes, tampouco”.
O mandatário reconheceu a derrota na mesma noite de domingo 7: “Hoje tivemos uma clara derrota e há que aceitá-la”.
Porém, a respeito de sua política econômica de ajustes, ultraliberal, que tem posto em prática desde dezembro de 2023, com respaldo do Fundo Monetário Internacional (FMI), advertiu que ninguém deve esperar grandes mudanças: “Não se retrocede nem um milímetro na política do governo, o rumo vamos acelerar mais”.
“Se cometemos erros no político vamos processá-los e vamos fazê-lo melhor para ganhar em outubro”, quando se renovará o Congresso Nacional com a eleição de um terço dos 72 senadores e quase a metade dos 257 deputados.
Milei tem conduzido uma campanha de desregulamentação, cortado o gasto público e demitido dezenas de milhares de empregados, mas o crescimento da economia tem sido lento, a inflação se reduziu pouco e os salários continuam deprimidos.
O mandatário enfrentou denúncias de fraude após promover uma desconhecida criptomoeda chamada $Libra, vetou projetos de lei para aumentar pensões e benefícios por deficiência, e sua irmã Karina, sua mais próxima colaboradora no governo, se viu envolvida em um recente esquema de corrupção.
O analista Andrés Oppenheimer, colunista habitual em diferentes meios do hemisfério, opinou que “Milei fez bem em aceitar sem rodeios sua derrota eleitoral. Isso o diferencia de (o presidente dos Estados Unidos, Donald) Trump e outros”.
“Ante os olhos do mundo, perdeu umas eleições locais importantes, mas acatou as regras da democracia e descolocou aqueles que o acusam de aspirante a ditador. Tomara que diminua sua violência verbal e busque alianças com setores moderados”, acrescentou Oppenheimer.
Para Juan Gabriel Tokatlián, diretor do Departamento de Ciência Política na bonaerense Universidade Torcuato Di Tella, “este não é ainda o pior momento do governo de Milei, senão o começo de seu pior momento”, em alusão às eleições parlamentares de meio período.
O resultado da eleição de domingo pôde ser de importância menor se o próprio Milei não tivesse dado um peso nacional à consulta, com ares de plebiscito, após qualificá-la como uma “batalha de vida ou morte” contra a oposição.
Inclusive a apresentou como oportunidade para “colocar um último prego no caixão do kirchnerismo”, a corrente peronista que respalda com mais vigor a expresidente Fernández, viúva do também ex-mandatário Néstor Kirchner (2003-2007).
Agora, em contrapartida, deverá lidar com a experiente oposição do movimento peronista, revigorado com os resultados da eleição em Buenos Aires, e com a desconfiança dos mercados sobre o acerto de suas medidas econômicas.
Nesta segunda-feira 8, as ações das empresas argentinas em Wall Street despencaram até 21%, e o risco país — o diferencial que o país paga por seus títulos com respeito aos dos Estados Unidos — disparou até os 1.100 pontos.
A moeda argentina abriu com uma queda de seis por cento em relação à cotação da semana prévia à eleição e alcançou os 1.460 pesos por dólar, ainda que depois se moderou até 1.425 por nota verde.
Milei, destacaram os meios locais, se reuniu pelo menos duas vezes durante a jornada com seu gabinete, iniciando o que se augura como uma corrida contra o relógio, política e econômica, antes da eleição parlamentar de 26 de outubro.
(+) Imagem em destaque: Milhares de peronistas celebram vitória eleitoral junto ao governador de Buenos Aires, Axel Kicillof. Crédito: Fuerza Patria
(++) Publicado originalmente em IPS — Inter Press Service

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