Guerra no Oriente Médio já deslocou 700 mil pessoas no Líbano

Famílias libanesas estão fugindo de bairros na capital, Beirute, e de áreas no sul do país para escapar dos bombardeios israelenses e dos confrontos entre as forças israelenses e a milícia Hezbollah. O atual conflito no Oriente Médio, que começou com ataques aéreos dos EUA e de Israel contra o Irã, está afetando cada vez mais os países vizinhos à medida que a guerra se espalha. Imagem: ACNUR
GENEBRA – O Oriente Médio está passando por nova crise de civis forçados a se deslocarem, após 10 dias de guerra iniciada com bombardeios de Israel e dos Estados Unidos sobre o Irã. No Líbano, cerca de 700 mil pessoas tiveram que deixar suas casas para escapar dos bombardeios.
Essas pessoas forçadas a fugir da fronteira sul com Israel e de bairros na periferia de Beirute, das quais pelo menos 200 mil são crianças, “somam-se às dezenas de milhares que já foram desalojadas por escaladas anteriores”, observou o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
Não há alternativa, como relatou nesta cidade suíça, Edouard Beigbeder, diretor regional do UNICEF para o Oriente Médio e Norte da África. Pelo menos 83 crianças morreram e 254 ficaram feridas no Líbano desde que as hostilidades se intensificaram em 2 de março.
Israel lançou uma ofensiva contra o Líbano para conter a milícia Hezbollah, apoiada pelo Irã, que disparou foguetes contra o território israelense, e ordenou a evacuação de cidades e vilarejos no sul do Líbano e de várias áreas da capital do país vizinho, que possui 10.450 quilômetros quadrados e cinco milhões de habitantes.
Em sua atualização mais recente, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) informou que 294 pessoas morreram no Líbano e mais de 1.000 ficaram feridas nos primeiros oito dias da guerra.
No sábado, 7 de março, 41 pessoas foram mortas em uma única operação das forças israelenses na cidade de Nabi Sheet, no leste do Líbano, que também deixou dezenas de feridos, informou o OCHA, citando autoridades libanesas.
Em Tel Aviv, as autoridades israelenses relataram que 11 pessoas morreram e cerca de 2.000 ficaram feridas desde o início do conflito em 28 de fevereiro.
No Irã, as autoridades afirmaram que pelo menos 1.330 civis foram mortos na guerra em meio aos contínuos ataques israelenses e norte-americanos. Um dos primeiros bombardeios, em 28 de fevereiro, matou 165 pessoas em uma escola feminina no sul do país.
Na segunda-feira, dia 9, as autoridades do Bahrein informaram que mais de 30 pessoas ficaram feridas em um ataque de drone iraniano, enquanto as autoridades do Catar condenaram a morte de dois civis na Arábia Saudita.
Quase todos os países árabes próximos ao Irã sofreram ataques, vários dos quais abrigam bases militares norte-americanas, e mísseis iranianos também atingiram Chipre, Azerbaijão e Turquia.
Com a continuidade da guerra, incluindo bombardeios à infraestrutura militar e energética do Irã, além da retaliação iraniana, o chefe do OCHA, Tom Fletcher, alertou para impactos secundários mais amplos nos países vizinhos a leste, Afeganistão e Paquistão, “onde as necessidades já eram grandes”.
“Além disso, a atenção a crises existentes, como as do Sudão, Sudão do Sul e Ucrânia, está sendo relegada a um segundo plano, juntamente com um contínuo desrespeito ao direito internacional e às instituições, incluindo a ONU, que foram criadas para prevenir conflitos”, lamentou Fletcher.
Por outro lado, os ataques a navios no Estreito de Ormuz – a saída para o Oceano Índico a partir do Golfo Pérsico ou Arábico, entre o Irã e a Península Arábica – paralisaram grande parte do comércio nessa via navegável, por onde passa quase um quinto das remessas mundiais de petróleo, juntamente com grandes volumes de mercadorias.
Na sexta-feira, dia 6, pelo menos quatro marinheiros morreram e três ficaram gravemente feridos no Estreito de Ormuz, quando seu navio foi atacado.
Os ataques com drones aos portos de Omã também aumentaram as preocupações — e os custos — para o tráfego de navios fretados com destino à região. Segundo a Organização Marítima Internacional (OMI), cerca de 20.000 marinheiros permanecem retidos no Golfo Pérsico.
A interrupção no fluxo de petróleo já se reflete nos preços ao consumidor. Nos Estados Unidos, um galão de gasolina no Texas (sul) estava sendo vendido a US$ 3,12 na segunda-feira, em comparação com US$ 2,16 na semana anterior. Em Nova York (nordeste), o preço subiu para US$ 3,48 centavos acima do valor de janeiro.
O Programa Mundial de Alimentos (PMA) alertou que “o conflito já está tendo impactos imediatos na segurança alimentar no Oriente Médio”, após observar que uma parcela significativa do suprimento mundial de fertilizantes passa pelo Estreito de Ormuz.
“Ao mesmo tempo, o impacto do conflito no transporte comercial marítimo e aéreo está exercendo grande pressão sobre as cadeias de suprimentos humanitários gerenciadas pelo PMA, sobre a movimentação de pessoal e sobre a logística”, alertou Samer Abdeljaber, diretor da agência da ONU na região.

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