Guterres pede moderação entre Estados Unidos e Venezuela

Guterres pede moderação entre Estados Unidos e Venezuela

Por Correspondente da IPS

NAÇÕES UNIDAS — O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, exigiu moderação e desescalada das tensões entre Estados Unidos e Venezuela, disse nesta quarta-feira 17 seu porta-voz, Farhan Haq, no dia seguinte a uma ordem de bloqueio naval parcial ditada pelo presidente estadunidense Donald Trump.

Guterres “pede a ambos os países que cumpram suas obrigações sob o direito internacional, incluindo a Carta das Nações Unidas e qualquer outro marco jurídico aplicável para salvaguardar a paz na região”, disse Haq a jornalistas na sede da ONU.

A presidente do México, Claudia Sheinbaum, também pediu em seu encontro habitual com a imprensa “que as Nações Unidas assumam seu papel. Não se a viu. Que assuma seu papel para evitar qualquer derramamento de sangue, e que se busque sempre a solução pacífica dos conflitos”.

Além disso, Sheinbaum ofereceu o México como sede de um eventual encontro para um diálogo entre Venezuela e Estados Unidos. “Podemos ser um ponto de reunião se assim considerem as partes. E se não, buscar mediadores que evitem qualquer conflito na região”, acrescentou.

Na véspera, Trump ordenou o “bloqueio total dos petroleiros sancionados” que entrem e saiam da Venezuela, dias depois de comandos militares de seu país assaltarem no Caribe o navio petroleiro Skipper, carregado com petróleo venezuelano, reterem a embarcação e Washington ter determinado confiscar a carga milionária.

A escalada começou quando em agosto os Estados Unidos desdobraram uma poderosa força aeronaval no Caribe, com o anúncio de combater o narcotráfico e a declarada intenção de pressionar a saída do presidente venezuelano Nicolás Maduro.

A força — que inclui um porta-aviões, uma vintena de navios de guerra, dezenas de aviões de combate e cerca de 15 mil efetivos — aponta seus canhões sobre a Venezuela, e em três meses e meio afundou 25 embarcações no Caribe e no Pacífico oriental, acusadas de transportar drogas, matando 95 ocupantes.

Trump anunciou que iniciarão ataques ao narcotráfico e seus cartéis em terra — incluiu Maduro e sua equipe como “chefes do Cartel dos Sóis” —, e com sua ação sobre navios petroleiros deixou claro que se propõe cercar e dobrar o governo de Caracas.

Em uma mensagem publicada em sua rede social Truth, o governante estadunidense disse que “o ilegítimo regime de Maduro está utilizando o petróleo desses campos roubados para se financiar, assim como para o narcoterrorismo, o tráfico de pessoas, o assassinato e o sequestro”.

Expôs que “pelo roubo de nossos ativos e por muitas outras razões, incluindo o terrorismo, o narcotráfico e o tráfico de pessoas, o regime venezuelano foi designado como organização terrorista estrangeira”.

“Portanto, ordeno um bloqueio total e completo de todos os navios petroleiros sancionados que entrem ou saiam da Venezuela”, sentenciou Trump.

Parte das exportações petroleiras venezuelanas realiza-se em navios apontados de operar triangulações em alto mar para evadir as sanções determinadas pelos Estados Unidos e a União Europeia sobre operações do país sul-americano, Irã e Rússia.

Segundo economistas venezuelanos, até 40% do petróleo que esse país exporta — sua principal fonte de renda — move-se empregando essas embarcações, e sua previsível paralisação levará a um forte impacto sobre a economia venezuelana.

Trump disse que o cerco militar sobre a Venezuela continuará “até que devolva aos Estados Unidos todo o petróleo, as terras e demais ativos que nos roubaram”.

A frase, que parece conter informação inexata — a nação venezuelana é dona do petróleo em seu subsolo — e propósitos ambíguos, poderia apontar para se ressarcir pela estatização de empresas petroleiras estadunidenses na primeira década deste século, algumas com demandas pendentes por reparações.

Porém, meios venezuelanos fizeram notar que a empresa estadunidense Chevron mantém operações na Venezuela e despacha seu cru para os Estados Unidos.

O governo da Venezuela rejeitou mediante uma declaração a “grotesca ameaça” do governo de Trump, e acusou os Estados Unidos de “violar o direito internacional, o livre comércio e a livre navegação”.

Após denunciar que em suas redes sociais Trump “assume que o petróleo, terras e riquezas minerais da Venezuela são de sua propriedade e a Venezuela deve entregá-las imediatamente”, Caracas fez “um chamado ao povo dos Estados Unidos e aos povos do mundo para rejeitar por todos os meios esta extravagante ameaça”.

Por sua parte, a empresa estatal que administra a indústria, Petróleos da Venezuela (Pdvsa) assegurou que as exportações de cru e derivados “desenvolvem-se com normalidade”, e os barcos a seu cargo “continuam navegando com pleno seguro, apoio técnico e garantias operativas”.

A Venezuela exportou até 900 mil barris (de 159 litros) diários de petróleo como média em alguns meses de 2025. A maior parte de suas exportações vai para a China, e em menor medida aos Estados Unidos e Cuba.

(+) Imagem em destaque: Unidades da força aeronaval dos Estados Unidos durante exercícios no Caribe. Crédito: Reprodução/Southcom

(++) Publicado originalmente em IPS — Inter Press Service

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