Mais de 1.000 trabalhadores humanitários mortos distribuindo alimentos, água, remédios

Por Tom Fletcher
Trechos de uma declaração de Tom Fletcher, Subsecretário-Geral para Assuntos Humanitários e Coordenador de Socorro de Emergência, ao Conselho de Segurança, em conformidade com a resolução 2730 (2024) sobre a segurança do pessoal humanitário e a proteção do pessoal das Nações Unidas e associados.
NAÇÕES UNIDAS – Em 2025, pelo menos 326 trabalhadores humanitários foram registrados como mortos em 21 países, elevando o total de humanitários mortos em três anos para mais de 1.010. Reconhecemos, lamentamos e honramos cada um de nossos 326 colegas, e dedicamos o trabalho futuro à sua memória.
Dessas mais de 1.000 mortes, mais de 560 ocorreram em Gaza e na Cisjordânia, 130 no Sudão, 60 no Sudão do Sul, 25 na Ucrânia e 25 na República Democrática do Congo.
Esse número — mais de 1.000 — se compara aos 377 registrados globalmente nos três anos anteriores — ou seja, quase triplicou. Isso não é uma escalada acidental — é o colapso da proteção.
Esses trabalhadores humanitários foram mortos enquanto distribuíam alimentos, água, medicamentos e abrigo. Morreram em comboios claramente identificados e em missões coordenadas diretamente com as autoridades. E, com demasiada frequência, foram mortos por Estados-Membros das Nações Unidas.
Os trabalhadores humanitários sabem que enfrentam riscos. Faz parte da natureza do nosso trabalho e dos lugares onde atuamos.
Essas mortes não ocorrem porque somos imprudentes com nossas vidas. Ocorrem porque as partes em conflito são imprudentes com nossas vidas.
Assim, em nome de mais de mil trabalhadores humanitários mortos e de suas famílias, perguntamos: por quê?
Será porque o mundo já não acredita na resolução 2730 do Conselho de Segurança, na qual vocês falaram com tanta urgência moral sobre o fim da violência contra trabalhadores humanitários?
Será porque o direito internacional humanitário, forjado por uma geração de líderes políticos mais sábios justamente para momentos como este, já não é conveniente?
Será porque é mais importante proteger aqueles que projetam, vendem, fornecem e utilizam armas letais — incluindo drones, ferramentas cibernéticas e inteligência artificial — do que proteger a nós?
Será porque aqueles que nos matam não enfrentam consequências por seus atos? Quantos foram processados? Quantos de seus líderes renunciaram? Em quantas investigações o Conselho de Segurança da ONU insistiu? Vocês foram seletivos em sua indignação?
Ou será porque os Estados-Membros veem esses números como danos colaterais, parte da névoa da guerra? Ou pior, passamos a ser vistos como alvos legítimos?
E talvez a pergunta mais perturbadora: se essas mortes eram “evitáveis”, por que não foram evitadas?
Mais de 110 Estados-Membros escolheram agir juntos por meio da declaração política sobre a proteção de trabalhadores humanitários. Ainda assim, em múltiplas crises, os trabalhadores humanitários não estão apenas sendo mortos.
Nossa atuação está sendo restringida, penalizada e deslegitimada. Dizem-nos aonde não ir, a quem não ajudar. Somos assediados ou presos por fazer nosso trabalho. E mentiras são espalhadas sobre nós — e essas mentiras têm consequências.
E, claro, quando trabalhadores humanitários são prejudicados, a ajuda muitas vezes para. Clínicas fecham, alimentos não chegam. No Iêmen, 73 funcionários da ONU e dezenas de trabalhadores de ONGs continuam arbitrariamente detidos pelos Houthis. No Afeganistão e no Iêmen, mulheres humanitárias são impedidas de exercer seu trabalho.
Em Gaza, Israel restringe agências da ONU e ONGs internacionais. Em Mianmar, a insegurança e as limitações de acesso interromperam a ajuda a mais de 100.000 pessoas em um único mês.
E na Ucrânia, ataques com drones forçaram grupos de ajuda a recuar de comunidades na linha de frente.
Em todos esses casos, o resultado das mortes de trabalhadores humanitários é, com demasiada frequência, a morte da esperança para milhões que dependem deles. Essas tendências, juntamente com o colapso do financiamento para nosso trabalho de salvar vidas, são um sintoma de um mundo sem leis, belicoso, egoísta e violento. Matar trabalhadores humanitários faz parte de um ataque mais amplo à Carta da ONU e ao direito internacional humanitário.
O direito internacional humanitário nunca foi, e não é agora, um exercício acadêmico. Em honra aos nossos colegas mortos, e em solidariedade àqueles que hoje arriscam suas vidas, pedimos que vocês ajam com muito mais convicção, consistência e coragem.
Normalmente concluo com três pedidos a este Conselho. Mas parece um insulto aos mais de mil colegas mortos repetir os compromissos da resolução 2730: proteção, integridade e responsabilização.
Não estamos aqui para lembrar esses compromissos, mas para desafiá-los a cumpri-los.
Porque, se abandonarmos esses princípios duramente conquistados, então a integridade deste Conselho — e as leis que estamos aqui para proteger — morrerão com nossos colegas.
IPS – Escritório da ONU
Na imagem, Shaun Hughes (à esquerda), Diretor Nacional do PAM para a Palestina, caminha em meio à destruição massiva em Gaza. Crédito: PAM/Maxime Le Lijour
Este texto foi publicado inicialmente pela Inter Press Service

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