Mais de 330 milhões de pessoas usam drogas, revela ONU

Mais de 330 milhões de pessoas usam drogas, revela ONU

Segundo “Relatório Mundial sobre Drogas da ONU 2026”, 331 milhões de pessoas usaram drogas em 2024, representando 6,2% da população mundial entre 15 e 64 anos, em comparação com 5,2% em 2014. Cannabis conta com 256 milhões de usuários, seguida de opioides (63 milhões), anfetaminas (32 milhões e cocaína (25 milhões). Imagem: Paulo Pinto/Agência Brasil

CORRESPONDENTE IPS
Inter Press Service


VIENA – Os traficantes de drogas estão se aproveitando da tecnologia e da instabilidade global para introduzir novas drogas, experimentar diferentes rotas e métodos de comércio e entrar agressivamente em novos mercados, afirmou o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).

“Estamos testemunhando um aumento sem precedentes no número de novos tipos de drogas no mercado e, preocupantemente, algumas são mais potentes ou perigosas do que antes”, disse a cientista política queniana Monica Juma, diretora executiva do UNODC.

Juma afirmou que “já estamos sofrendo as consequências: milhões de mortes prematuras e anos de vida saudável perdidos desnecessariamente; redes de tráfico de drogas que distorcem as economias; a destruição de vidas, comunidades e meios de subsistência; e o agravamento da insegurança e da violência”.

Segundo o “ Relatório Mundial sobre Drogas da ONU 2026 ”, publicado na sexta-feira, dia 26, pelo UNODC, 331 milhões de pessoas usaram drogas em 2024, representando 6,2% da população mundial entre 15 e 64 anos, em comparação com 5,2% em 2014.

A cannabis (maconha) continua sendo de longe a droga mais consumida, com 256 milhões de usuários em 2024, seguida por opioides (63 milhões), anfetaminas (32 milhões), cocaína (25 milhões) e ecstasy (21 milhões).

O relatório afirma que os fabricantes de drogas ilícitas continuam a inventar novas drogas sintéticas numa tentativa de contornar os regulamentos e evitar a deteção: em 2024, foram encontrados cinco vezes mais tipos de drogas em apreensões do que antes de 2000.

Por exemplo, o número de novas substâncias psicoativas (NSP) em circulação nos mercados de drogas atingiu 755 em 2024, das quais 118 foram relatadas pela primeira vez.

Em relação aos opioides, a proibição de drogas no Afeganistão em 2022 continuou a limitar severamente a produção ilícita de ópio e heroína.

Embora a produção dessas drogas em Myanmar tenha aumentado de 420 toneladas em 2021 para mais de 1.000 em 2025, esse aumento (juntamente com as quantidades produzidas em outros países, como Laos e México) não compensa a diminuição no Afeganistão que, em 2022, produziu mais de 6.000 toneladas de ópio.

A crescente disponibilidade no mercado de novos opioides sintéticos, como o fentanil, a nitazena e a orfina, sugere que os traficantes estão buscando alternativas à heroína.

A mudança de opiáceos à base de plantas para opiáceos sintéticos pode levar a uma transformação permanente no mercado global de opioides, com repercussões no uso dessas drogas e nos danos que elas causam, alerta o UNODC.

Quanto à metanfetamina, seu mercado agora é global: novas rotas de tráfico e a expansão gradual de sua produção criaram novos mercados para essa droga, especialmente no Oriente Médio, na África e em partes da Europa.

As apreensões aumentaram em média 13% ao ano, um aumento impulsionado principalmente pelas quantidades apreendidas no Leste e Sudeste Asiático.

Embora Myanmar (também conhecido pelo seu antigo nome, Birmânia) continue sendo o principal país de origem da metanfetamina, a alta demanda também atraiu fornecedores da América do Norte, da África Ocidental e Austral e do Sudoeste Asiático.

Veja Também:  O trágico, interminável drama

A metanfetamina proveniente da América do Norte também está atravessando o oceano e chegando a países da bacia ocidental do Pacífico, o que leva ao aumento do tráfico e do consumo em muitas ilhas dessa região.

No Oriente Médio, as perturbações no mercado de captagon após a queda do antigo regime de Bassa al-Assad na Síria, em dezembro de 2024, e a subsequente duplicação do preço de um comprimido de captagon em vários locais, podem levar os consumidores a recorrer à metanfetamina.

Cannabis

Em relação à cannabis, a mudança na percepção sobre seu uso e efeitos está impulsionando o aumento do número de usuários e novos padrões de tráfico, observa o UNODC.

A produção, o tráfico e o consumo de cannabis estão em constante evolução, provavelmente em parte devido a mudanças na percepção da droga, coincidindo com a adoção, por muitas jurisdições, especialmente na América do Norte, de políticas de legalização e/ou descriminalização.

O número de pessoas que consomem cannabis aumentou 40% na última década, enquanto a prevalência do seu consumo passou de 3,8% da população entre 15 e 64 anos em 2014 para 4,8% em 2024.

As apreensões de cannabis também atingiram níveis historicamente altos em 2024: cerca de 10.000 toneladas, o dobro do registrado em 2000.

Historicamente, a maior parte do tráfico de cannabis ocorreu dentro de regiões, principalmente porque a cannabis pode ser cultivada em qualquer lugar.

No entanto, o comércio inter-regional está crescendo, com o fornecimento proveniente da América do Norte: entre 2015 e 2024, 57 países ou territórios identificaram a região como a origem das apreensões de cannabis, em comparação com apenas 11 na década anterior.

Cocaína

Em relação à cocaína, o UNODC estima que o aumento da oferta poderá em breve ultrapassar a procura.

A produção continuou a crescer em 2024, multiplicando-se mais de quatro vezes nos últimos 10 anos, atingindo mais de 4.000 toneladas (em forma pura), impulsionada principalmente pelo aumento da produtividade e da área cultivada.

Grupos do crime organizado continuam a enviar quantidades crescentes de cocaína para mercados de destino estabelecidos e emergentes, num esforço para maximizar os lucros e expandir a sua base de clientes para além dos seus maiores mercados já consolidados na Europa, América do Norte e Oceânia.

A evidência dessa expansão contínua pode ser vista na África e na Ásia, onde, apesar das quantidades relativamente baixas de apreensões, alguns países dessas regiões registraram as maiores taxas de crescimento de apreensões de cocaína em nível global durante o período de 2020 a 2024.

Em seu relatório, o UNODC descreve o impacto do uso de drogas na segurança, que está associado a crimes contra o patrimônio, violência doméstica e social e vitimização por usuários de drogas.

No entanto, esses resultados também são influenciados por fatores como o contexto de consumo, o histórico pessoal dos consumidores (como pobreza, falta de moradia e problemas de saúde mental) e fatores contextuais, como a possível falta de acesso a tratamento e serviços sociais.

Esses são fatores que devem ser considerados como pontos de partida para intervenções e medidas de prevenção, afirma o relatório.

“A necessidade de concentrar esforços no combate aos grupos do crime organizado nunca foi tão grande. Devemos intensificar as ações de dissuasão, aumentar o compartilhamento de informações e coordenar operações conjuntas, além de investir mais em prevenção e combate”, concluiu Juma.

Tagged: