Milei impulsiona as importações e destrói a indústria e o emprego na Argentina

Milei impulsiona as importações e destrói a indústria e o emprego na Argentina

Por Daniel Gutman


BUENOS AIRES – “Mantive dez funcionários por mais de um ano, embora quase não houvesse trabalho. No final, os demiti, paguei as indenizações e fiquei com apenas um, que na verdade é um amigo”, conta o argentino Diego Martínez, pequeno empresário têxtil de Buenos Aires, que iniciou a incerta aventura de recomeçar do zero, com o mínimo indispensável.

Durante mais de 30 anos, Martínez confeccionou roupas para marcas líderes do mercado argentino de vestuário, cujas compras de fabricantes locais caíram drasticamente nos últimos dois anos.

“Passaram de comprar 30.000 peças por temporada para apenas 3.000. A abertura indiscriminada às importações foi um golpe terrível, e a isso se somaram a queda nas vendas ao público, devido à deterioração da atividade econômica, e o aumento dos custos de produção por causa das tarifas de serviços públicos”, explica à IPS.

Hoje, esse empresário está tentando se reinventar para produzir um item diferenciado, em menor quantidade, que seja vendido pela sua originalidade. “As grandes marcas já não precisam mais de nós, que fabricamos na Argentina”, reconhece em seu ateliê agora sem funcionários, cujo nome pediu para manter anônimo.

O setor têxtil é uma das principais vítimas da destruição industrial que a Argentina governada pelo ultradireitista Javier Milei vem enfrentando desde dezembro de 2023.

Desde novembro daquele ano — último mês completo do governo anterior — até outubro passado, perderam-se 18.333 postos de trabalho nesse setor, segundo números oficiais.

O dado central que explica essa realidade é que as importações de vestuário cresceram 188% no terceiro trimestre de 2025, em comparação com o mesmo período de 2023, de acordo com dados privados.

A deterioração da indústria é geral. Considerando tanto empregos formais quanto informais, desde novembro de 2023 foram perdidos quase 100.000 postos de trabalho — cerca de 5.000 por mês —, segundo um relatório recente da Universidade de Buenos Aires (UBA).

Mas Milei não parece ter problemas com os danos à capacidade produtiva da Argentina e seu impacto no emprego. Pelo contrário, afirmou repetidamente que empresas que não conseguem competir oferecendo melhores produtos a preços mais baixos devem fechar.

Uma das demonstrações mais claras das convicções do presidente foi sua decisão de eliminar da estrutura do governo as Secretarias de Indústria e de Pequenas e Médias Empresas, com o argumento de “otimizar” o Estado. Isso deixou os pequenos empresários sem interlocutores.

Os resultados aparecem nos próprios números oficiais: entre novembro de 2023 e dezembro de 2025, desapareceram 22.698 empregadores ou unidades produtivas, em termos líquidos — considerando tanto fechamentos quanto aberturas.

O fenômeno afetou 22 das 23 províncias do país: apenas a patagônica Neuquén escapou, onde está localizada Vaca Muerta, o grande campo de petróleo e gás de xisto que tem crescido fortemente e impulsionado a economia local.

O caso mais emblemático desse processo de deterioração industrial — que causou grande comoção em fevereiro — foi o fechamento da principal fábrica de pneus da Argentina, a Fate, com 80 anos de história, que deixou 920 trabalhadores desempregados.

A empresa atribuiu a decisão, em comunicado, às “mudanças nas condições de mercado”.

Longe de buscar alternativas para evitar o fechamento ou demonstrar solidariedade aos demitidos, Milei criticou o dono da Fate e outros empresários que questionaram o aumento das importações.

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“Quando falam de abertura indiscriminada, estão pedindo para caçar no zoológico. Quem defende a indústria nacional são ladrões”, disse em março, durante uma de suas frequentes viagens aos Estados Unidos.

Vencedores e perdedores

Desde que Milei assumiu, os setores vencedores têm sido os serviços financeiros, a mineração, o petróleo e gás e a agricultura em grande escala — atividades que geram pouco emprego. Em contrapartida, junto com a indústria, o comércio e a construção entraram em profunda crise.

“Essa é claramente a marca do modelo econômico de Milei. Há uma mudança na matriz produtiva da Argentina, que está destruindo as atividades que geram mais empregos e de melhor qualidade”, afirma à IPS o economista Martín Kalos.

Kalos dirige a consultoria Epyca, que em relatório recente sustenta que a ideologia de Milei colocou um limite ao crescimento econômico e deixou vários setores fundamentais em crise permanente.

“Do ponto de vista de médio prazo, essa decisão pode ser muito custosa: para que tipo de economia estamos caminhando, com menos empresas, menos empregos e menos capacidades científicas e tecnológicas?”, questiona o relatório.

“Milei acredita que as empresas quebram porque não são produtivas — e às vezes isso é verdade, mas às vezes não: é resultado dos incentivos do modelo econômico atual, que favorece encerrar a produção nacional e importar”, diz Kalos.

Além disso, acrescenta, “o consumo caiu muito devido à redução da renda das famílias. Com um mercado interno menor, produzir no país significa produzir em menor escala e a custos mais altos, o que torna importar ainda mais vantajoso”.

Dados públicos também mostram o aumento de empresas em risco, com crescimento dos chamados processos preventivos de crise, previstos na legislação argentina para permitir negociações com sindicatos e evitar fechamentos ou demissões.

Segundo a Secretaria do Trabalho, em 2023 houve 42 casos, em 2024 foram 131 e em 2025 chegaram a 158.

Desregulamentações

Com sua postura desreguladora, Milei facilitou importações diretas sem tarifas, que hoje podem ser feitas pelo próprio consumidor argentino por meio de aplicativos estrangeiros, impactando não apenas a indústria, mas também o comércio.

“O comércio nacional está sofrendo porque hoje as pessoas recebem em casa produtos comprados em aplicativos chineses e indianos que evitam impostos provinciais e municipais argentinos”, afirma à IPS Armando Farina, vice-presidente da Câmara Argentina de Distribuidores e Atacadistas (Cadam).

“O governo precisa buscar mudanças tributárias para gerar uma concorrência mais justa”, acrescenta.

O caso mais impactante no comércio ocorreu em março, com o fechamento da Garbarino, uma conhecida rede de eletrodomésticos com lojas em todo o país, que não conseguiu superar suas dívidas.

A situação está afetando o humor da sociedade, segundo pesquisas realizadas neste ano, que mostram uma deterioração progressiva da imagem de Milei.

Hoje, o momento de euforia da direita em outubro de 2025 — quando candidatos do presidente venceram as eleições legislativas de meio de mandato — parece distante.

Na imagem, protesto realizado em março em Buenos Aires contra o fechamento da Fate, histórica empresa argentina fabricante de pneus que encerrou suas atividades em fevereiro e deixou 920 trabalhadores desempregados / Nuevo Encuentro Nacional

Este texto foi publicado originalmente pela Inter Press Service (IPS)

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