Motocicletas invadem ambiente urbano e rural do Brasil
Ruas de São Paulo, com seu trânsito intenso, onde carros, ônibus e motocicletas utilizadas para serviços de entrega em domicílio coexistem. O boom das duas rodas está se proliferando nas cidades e áreas rurais do Brasil, onde as vendas devem ultrapassar as de carros até 2025. (Imagem: Rovena Rosa / Agência Brasil)
POR MARIO OSAVA
Inter Press Service
RIO DE JANEIRO – Alexandre da Silva foi atropelado por um carro enquanto pilotava sua motocicleta em um cruzamento de ruas em Saquarema, cidade litorânea brasileira de 95 mil habitantes, a 120 quilômetros do Rio de Janeiro, na noite de 19 de julho de 2022.
Ele sofreu três fraturas na perna direita e a motocicleta ficou completamente destruída após colidir contra um muro. O acidente exigiu que Silva se submetesse a duas cirurgias e dois anos de tratamento médico, incluindo o uso de uma tala metálica externa para sustentar a perna. Incapacitado para o trabalho, ele sobreviveu com a ajuda de amigos.
Mas ele escapou das crescentes estatísticas de mortes de motociclistas no trânsito cada vez mais caótico e congestionado de veículos de duas rodas nas cidades brasileiras.
Das 36.403 mortes no trânsito no Brasil em 2024, 14.994 foram de motociclistas, representando 41,2%, segundo dados do Ministério da Saúde. No início do século, essa proporção era inferior a 10%.
(Os motociclistas) são trabalhadores que percorrem de 200 a 400 quilômetros por dia, trabalhando de 12 a 15 horas diárias, Marcelo Matos
O número de motocicletas atualmente registradas no país, 35,1 milhões, representa apenas 28,3% do total de veículos motorizados (124 milhões), o que significa que a mortalidade por acidentes é mais alta em veículos de duas rodas.
As mortes acidentais de motoqueiros aumentaram 11,2% de 2023 para 2024, e a tendência é de que continuem.
“A culpa não é dos motociclistas, mas dos motoristas que não respeitam os motociclistas, que são pobres”, argumentou Silva, relatando seu caso à IPS por telefone de Araruama, cidade de 138 mil habitantes, vizinha de Saquarema, onde agora possui um pequeno negócio, após cinco anos dedicados a entregas em domicílio com sua motocicleta.
Motocicletas têm desempenho superior aos carros
O boom dos veículos de duas rodas levou a uma produção recorde de 2.197.308 motocicletas no Brasil no ano passado, superando a produção de automóveis de passeio, que atingiu 1.996.531, segundo dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Os aumentos anuais foram de 17,13% e 2,49%, respectivamente.
A invasão de motocicletas está ocorrendo tanto nas cidades quanto no campo. Sua presença cresceu mais no Norte e Nordeste, as regiões menos urbanizadas e mais pobres deste vasto país de 213 milhões de habitantes.
No interior do Nordeste, esses veículos substituíram os pequenos burros que costumavam transportar pessoas e mercadorias, principalmente em áreas rurais, nas últimas décadas. Como resultado, muitos desses animais abandonados se tornaram um sério risco de acidentes rodoviários.
Mais tarde, algumas empresas começaram a exportar sua carne e couro, principalmente para a China. A ameaça de sua extinção desencadeou um movimento em defesa do “jegue”, nome português para esse equino domesticado, símbolo da pobreza no Nordeste do Brasil.
Hoje, morrem mais motociclistas no Nordeste, região com 57 milhões de habitantes, do que na industrializada região Sudeste, com 88 milhões. Mas é nas grandes cidades do Sudeste, como São Paulo, que as motocicletas se tornaram um problema crucial.

Na Avenida 23 de Maio, em São Paulo, foi criada uma faixa exclusiva para motocicletas. Essas faixas dedicadas melhoraram o fluxo de tráfego, mas não reduziram os acidentes, já que as colisões com pedestres aumentaram devido à maior velocidade das motocicletas. Imagem: Rovena Rosa / Agência Brasil
Faixa exclusiva
Num esforço para reduzir acidentes e melhorar a mobilidade urbana, as autoridades municipais criaram a “faixa azul” em 2022, uma faixa exclusiva para motocicletas nas avenidas mais movimentadas. Hoje, existem 232 quilômetros dessas faixas em 46 vias. Estima-se que a cidade de 12 milhões de habitantes possua 1,3 milhão de motocicletas.
Mas um estudo conjunto realizado por algumas universidades brasileiras e pela organização internacional Vital Strategies determinou que a mortalidade não foi reduzida e os riscos aumentaram com o uso dessas faixas.
A conclusão do estudo é constestada pela Companhia Municipal de Engenharia de Tráfego de São Paulo, que apontou uma queda de 47,2% nas mortes de motociclistas nas vias beneficiadas.
A faixa azul reduziu as mortes de motociclistas, mas aumentou os acidentes com pedestres porque elevou a velocidade das motocicletas, explicou Igor Pantoja, coordenador de Relações Institucionais do Instituto Cidades Sustentáveis, uma organização não governamental.
“Os motociclistas estão caindo com menos frequência, são menos vítimas de acidentes, mas agora causam mais vítimas”, resumiu ele à IPS por telefone, de São Paulo, onde pelo menos 1,3 milhão de motocicletas congestionam o trânsito urbano.
De acordo com o Departamento de Trânsito do governo local, o número de pedestres mortos por motocicletas aumentou de 38 em 2022 para 66 em 2025 na cidade.
O argumento de que esses pequenos veículos melhoram o trânsito urbano também é inválido, segundo Pantoja, porque, em sua maioria, eles não substituem tanto os carros quanto o transporte público, especialmente os ônibus, que perderam quase metade de seus passageiros nas cidades brasileiras desde a última década.
Elas não resolvem o congestionamento, já que se trata de transporte individual e a cidade precisa de “um sistema de mobilidade urbana mais eficiente, com foco em transporte público de qualidade”, confirmou Helen Sousa, analista de projetos do Instituto de Energia e Meio Ambiente, uma organização não governamental.
Além disso, as motocicletas poluem o ambiente urbano mais do que os carros. O ruído, produzido intencionalmente por modificações nos escapamentos, é o que mais incomoda os moradores, mas o ar também se torna menos saudável devido às suas emissões.
Mais poluente
As motocicletas consomem menos combustível, o que pode sugerir menos gases de efeito estufa, mas emitem “outros gases, como monóxido de carbono e material particulado, que afetam a qualidade do ar em uma taxa maior do que os carros”, observou Sousa.
“Além disso, o impacto ambiental não é apenas produto das emissões de cada veículo, mas também da intensidade de uso da frota e de seu crescimento”, disse ela à IPS em uma conversa pelo Whatsapp.
Os impactos ambientais das motocicletas, considerando todos os fatores, são “um pouco mais fortes do que os dos carros”, afirmou.
Pantoja destacou a necessidade de melhor regulamentação e fiscalização da atividade que vem experimentando um crescimento explosivo no Brasil e no mundo, especialmente desde a pandemia de COVID-19, que começou em março de 2020.
O comércio digital, multiplicando a demanda por serviços de entrega e transporte de pessoas sob a gestão de plataformas como a Uber, com a incorporação de mulheres e jovens nesse mercado, impulsionou as vendas e a circulação de motocicletas nas cidades.
De 2015 a 2025, o número de motoristas que utilizam aplicativos digitais quase triplicou, passando de 770 mil para 2,1 milhões, enquanto a população empregada cresceu apenas 10%, segundo um estudo do Banco Central para definir sua política monetária.
“São trabalhadores que percorrem de 200 a 400 quilômetros por dia, trabalhando de 12 a 15 horas diárias”, destacou Marcelo Matos, diretor executivo do Sindicato dos Motociclistas do Estado do Rio de Janeiro (SindimotoRJ), em entrevista à IPS.

Ponto de mototáxi em Maricá, cidade de 210 mil habitantes a 64 quilômetros do Rio de Janeiro. Ali, a adoção do transporte público gratuito reduziu o número de mototáxis, que são numerosos em cidades de pequeno e médio porte no Brasil. Imagem: Mario Osava / IPS
Trabalhadores autônomos precários
O representante sindical os divide em trabalhadores autônomos, que trabalham para aplicativos, e aqueles formalmente contratados de acordo com as leis trabalhistas brasileiras, com todos os direitos, como férias, abono de Natal, assistência médica, alimentação, combustível e adicional por atividade de risco.
Os direitos dos trabalhadores autônomos dependem de regulamentações que vêm sendo debatidas há anos entre o governo, os motoristas e as plataformas digitais. As negociações têm demonstrado a dificuldade de se chegar a um consenso.
As plataformas defendem os motociclistas como trabalhadores autônomos, como pessoa jurídica, mas “hoje temos uma visão diferente, de trabalho explorado em que algoritmos manipulam toda a atividade”, destacou Matos.
Na opinião dele, as plataformas conseguiram “colocar os trabalhadores lutando entre si na tentativa de alcançar uma renda decente”, de forma que “os sindicatos ficam de mãos atadas, sem poder fazer nada”.
Consequentemente, o pagamento por cada serviço de entrega caiu para menos de um quarto do valor de 2014, quando os aplicativos chegaram ao Brasil. De 26 reais (cinco dólares), caiu para entre quatro e sete reais (80 centavos a 1,3 dólar) atualmente, lamentou o líder sindical.
Em contrapartida, o transporte de duas rodas oferece à população “agilidade, conforto e praticidade” na hora de fazer compras e viajar, beneficiando o trânsito urbano, concluiu ele.
É isso que justifica sua rápida expansão, mas também tem efeitos adversos, insiste Pantoja. Além de acidentes e danos ambientais, contribui para o desaparecimento gradual do comércio ambulante e dos pequenos negócios de bairro, promovendo as vendas online de grandes corporações, observou ele.
Isso empobrece o tecido urbano, a convivência social, e as cidades não estão preparadas para essa e outras mudanças sem regulamentação e monitoramento, concluiu ele.

É correspondente da IPS desde 1978, e está à frente da editoria Brasil desde 1980. Cobriu eventos e processos em todas as partes do país e ultimamente tem se dedicado a acompanhando os efeitos de grandes projetos de segurança, infraestrutura que refletem opções de desenvolvimento e integração na América Latina.
