Na América Central, a imprensa enfrenta violência generalizada

Jornalistas centro-americanos e relatórios de organizações internacionais confirmam que os meios de comunicação são vítimas de assédio, criminalização e diversos tipos de violência na região. A pior parte recai sobre comunicadores em comunidades rurais, onde persistem conflitos por terra e a expansão da indústria extrativista
Por Edgardo Ayala
SAN SALVADOR – A imprensa na América Central, sobretudo os meios comunitários, sofre assédio, criminalização e violências de vários tipos, incluindo ataques físicos letais, perpetrados por instâncias do Estado e estruturas do crime organizado.
Todos esses fatores fazem da região uma das mais perigosas para exercer o jornalismo, segundo testemunhos recolhidos pela IPS e relatórios de organizações internacionais que defendem o trabalho de jornalistas.
Esse será um dos desafios com os quais terá de lidar, por exemplo, o novo presidente de Honduras, uma nação que deu uma guinada clara à direita nas eleições gerais de domingo, 30 de novembro, e que há décadas é golpeada pela criminalidade em geral — algo que também alcançou a imprensa.
Em uma região de sete países e 50 milhões de habitantes, marcada por problemas sociais, altos níveis de corrupção estatal e privada, além da criminalidade, profissionais da comunicação em Honduras e no restante da área enfrentam duras condições ao abordar esses temas.
“Em Honduras, temos que informar sobre a presença de gangues e do crime organizado, e ao ter esses temas em nossas agendas cotidianas, isso nos expõe mais”, disse à IPS por telefone Iolany Pérez, da Radio Progreso, localizada no município de El Progreso, departamento de Yoro, no norte do país.
O maior risco de ataques recai sobre os 34 correspondentes comunitários da rádio, que cobrem todo o território e reportam desde as comunidades, onde conflitos pela terra e a expansão de projetos extrativistas se intensificam cada vez mais, explicou Pérez.
“Em Honduras, temos que informar sobre a presença de gangues e do crime organizado… isso nos expõe mais”, afirmou Iolany Pérez.
A comunicadora acrescentou que a corrupção é outro tema que, ao ser abordado, gera violência ou, no mínimo, intimidação, em um contexto no qual, em alguns casos, prefeitos do interior do país estão vinculados ao crime organizado.
“Esse prefeito ou está vinculado ao narcotráfico, ou busca facilitar que grupos criminosos controlem determinado território”, destacou a jornalista da Radio Progreso, fundada em 1956 e vinculada ao Equipo de Reflexión, Investigación y Comunicación (Eric), da Companhia de Jesus.
Honduras é um país onde instituições estatais e a classe política em geral foram penetradas pelo crime organizado — mais especificamente, pelo narcotráfico.
Honduras, letal para o jornalismo
Os meios de comunicação hondurenhos vivem altos níveis de violência há mais de uma década, desde o golpe de Estado de 2009 contra o então presidente Manuel Zelaya, destaca um informe de 2025 da organização Repórteres Sem Fronteiras.
“O país continua sendo um dos mais mortíferos para o jornalismo no continente americano, o que gera um clima de autocensura e medo na imprensa”, afirma o relatório.
Em junho, Javier Antonio Salinas foi assassinado a tiros em Santa Rosa de Copán, no oeste do país — mais um crime contra comunicadores que permanece impune.
Salinas era salvadorenho e havia fugido de seu país por receber ameaças de morte. Em Honduras, trabalhava no meio digital A Todo Noticias e, nas horas vagas, atuava como taxista.
Em 19 de junho, a então diretora-geral da Unesco, Audrey Azoulay, condenou o crime e pediu investigação.
“Os jornalistas desempenham um papel crucial ao informar o público e garantir o livre fluxo de informações. Não se deve tolerar a impunidade dos delitos cometidos contra eles”, afirmou Azoulay.
Após o golpe contra Zelaya, a Rádio Progreso foi fechada pelos militares por apoiar as mobilizações sociais que exigiam o retorno da ordem constitucional.
“O golpe de Estado foi um divisor de águas que complicou ainda mais a situação em Honduras…, mas, nos últimos anos, sobretudo durante o governo nacionalista (do presidente Juan Orlando Hernández), que tinha muitos vínculos com o narcotráfico, a ameaça aumentou”, relatou Pérez.
A jornalista conta, desde 2010, com medidas de proteção concedidas pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, assim como vários de seus colegas da rádio.
Hernández foi preso em fevereiro de 2022 e extraditado no mesmo ano para os Estados Unidos, onde um tribunal federal de Nova York o condenou a 45 anos de prisão.
Mas, surpreendentemente, numa tentativa de favorecer o candidato conservador Nasry Asfura, o presidente Donald Trump anunciou, em 29 de novembro, que concederá indulto ao ex-presidente hondurenho.
Um mal endêmico regional
Um relatório sobre liberdade de expressão e meios de comunicação na América Central, publicado em 2024 pela Universidade da Costa Rica, aponta que, ao investigar violações de direitos humanos, corrupção ou crime organizado, jornalistas centro-americanos enfrentam assédio, campanhas difamatórias, intimidação e perseguição judicial.
Segundo o documento, após entrevistas com comunicadores sobre esses temas, 60% dos jornalistas desistiram de investigar casos de corrupção e 55% evitaram apurar temas ligados ao crime organizado por receberem ameaças diretas.
“O panorama se torna ainda mais preocupante quando se observa o aumento de casos de jornalistas, especialmente nicaraguenses, que se veem obrigados a abandonar seus países por ameaças”, assinala o relatório.
Além disso, em toda a região observa-se a consolidação de discursos estigmatizantes contra jornalistas e meios de comunicação, e nos cinco países analisados — Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua — esse discurso vem se fortalecendo.
Há também um retrocesso regional das liberdades de expressão e de imprensa, bem como das garantias para o exercício seguro da profissão.
Isso ocorre em um contexto de clima de confrontação contra jornalistas “incentivado pelo poder público em El Salvador e Costa Rica, e pela alta impunidade nos crimes contra a imprensa em Honduras”, sublinha o documento.
Também pesa “a ofensiva judicial contra jornalistas, ativistas e políticos por parte do ‘Pacto de Corruptos’ na Guatemala”.
Esse é o nome dado à aliança informal entre atores políticos, empresários, deputados e operadores judiciais que, em setembro de 2019, desmantelaram a Comissão Internacional Contra a Impunidade na Guatemala (Cicig), promovida pela ONU para investigar corrupção no país.
Essa ofensiva judicial é vivida pessoalmente pela jornalista Emy Padilla, que em 2015 fundou, junto com o colega Jorge Burgos, o jornal digital Criterio HN, dedicado ao jornalismo investigativo e considerado um dos meios mais independentes de Honduras.
Em outubro, o Ministério Público hondurenho exigiu que o meio revelasse a fonte que forneceu informações-chave para uma reportagem sobre o crime organizado.
“Estão atacando o princípio básico da liberdade de expressão e de imprensa, porque nem o jornalista nem o meio podem ser obrigados pelo Ministério Público a revelar sua fonte”, afirmou Padilla à IPS, desde Tegucigalpa.
E acrescentou: “O Criterio é um meio que não tem militância nem financiamento de governos, partidos políticos ou empresas privadas de Honduras, e trabalhar com essa independência nos torna alvo permanente de ataques — não só deste governo, mas também da oposição e de setores empresariais”.
Jornalistas comunitários na mira na Guatemala
Um documento do Comitê para a Proteção dos Jornalistas, publicado em julho, identificou um padrão de ameaças graves e persistentes contra comunicadores comunitários na Guatemala.
As ameaças incluem assédio legal, violência, intimidação, agressões de gênero, racismo estrutural — sobretudo contra mulheres jornalistas indígenas — e vigilância por autoridades locais e atores privados, entre outros riscos.
O jornalismo comunitário na Guatemala desempenha um papel vital na defesa da liberdade de expressão e do acesso à informação em contextos historicamente marginalizados. Desde seu surgimento, consolidou-se como um meio de representação, denúncia e construção de memória dos povos indígenas e comunidades rurais.
“No entanto, aqueles que o exercem enfrentam um ambiente hostil, marcado por criminalização, violência, censura, discriminação e abandono institucional”, destaca o relatório.
O documento acrescenta que a violência não se limita a discursos de ódio ou ameaças anônimas, mas inclui atos concretos de intimidação física, vigilância, apreensão de equipamentos e agressões diretas, destinados a silenciar vozes críticas.
O relatório detalha o caso da Rádio Nakoj, sediada em Santo Domingo Xenacoj, Sacatepéquez, no centro-sul do país.
A rádio enfrentou, em 2022, uma série de episódios de intimidação e violência após publicar investigações sobre corrupção e clientelismo político em nível local. Um dos membros do coletivo foi interceptado por indivíduos encapuzados enquanto voltava para casa.
Ele foi brutalmente espancado e teve seu celular e equipamento fotográfico roubados.
Na imagem, uma equipe de televisão entrevista uma ativista LGBTI em El Salvador / Luis Galdámez / IPS
Este texto foi publicado inicialmente pela Inter Press Service

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