Nicarágua vive “apagão informativo” com censura e perseguição a jornalistas

Por José Mendieta
MANÁGUA — Dos 15 departamentos e duas regiões autônomas da Nicarágua, só a capital Manágua tem veículos de comunicação independentes, mas com pauta limitada, marcada pela autocensura e espionagem do Estado.
A denúncia é de Gerall Chávez, presidente de Jornalistas e Comunicadores Independentes da Nicarágua (PCIN), entidade de defesa da liberdade de imprensa que funciona em San José, na Costa Rica, onde vive a maioria dos jornalistas nicaraguenses exilados.
Chávez afirma que chamam o fenômeno de “apagão informativo”, porque mesmo existindo alguns poucos veículos privados, eles cobrem apenas notícias locais, notas policiais, esportes, cultura e notícias internacionais “curiosas”.
“Não há quem noticie a violação sistemática de direitos humanos, os abusos de poder da ditadura, a corrupção e as denúncias de desaparecimentos, torturas e mortes de presos políticos”, disse Chávez à IPS da capital costarriquenha.
O relatório anual 2024 da PCIN, divulgado em janeiro de 2025, apontava “apagão informativo” em 12 dos 15 departamentos do país, mas ao começar o último trimestre de 2025, a atualização indica que só em Manágua ainda há jornalistas trabalhando em veículos locais, com pauta limitada.
A Fundação para a Liberdade de Expressão e Democracia (Fled) diz em relatório que o regime nicaraguense usa múltiplas estratégias para silenciar jornalistas: assédio, intimidação, confisco de bens, prisões, exílio forçado e outras perseguições.
“Nesse contexto, os desertos informativos aparecem como um dos rostos mais visíveis e alarmantes da censura estrutural que domina a Nicarágua”, afirma à IPS o consultor de comunicação da Fled, Guillermo Medrano.
O último recurso usado por agentes do regime sandinista, segundo relatório da Fled sobre o trimestre de julho a setembro, é visitar jornalistas aposentados ou desempregados para tentar forçá-los a atuar como “espiões” dos jornalistas exilados, sob ameaça de prisão se recusarem.
Os danos aos veículos de comunicação foram devastadores desde o início da crise política em 2018, aponta a Fundação. Desde então, 56 veículos cancelados e confiscados e 289 jornalistas exilados ou banidos, condenados à apatridia com o apagamento de seus registros civis, acadêmicos e profissionais dos sistemas do Estado.
Naquele ano, milhares de nicaraguenses se rebelaram contra o governo de Daniel Ortega, no poder desde 2007, por causa de reformas na Previdência Social que cortavam benefícios dos trabalhadores.
As autoridades reprimiram as manifestações com uso letal das forças de segurança. O saldo foi de 355 mortes, mais de 2 mil feridos e milhares de pessoas detidas, torturadas e exiladas, segundo dados da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).
Depois, foram criadas leis para legalizar prisões arbitrárias e criminalizar protestos e dissidência como “traição à pátria”.
Pelo menos outros 300 comunicadores que trabalhavam em diferentes veículos locais e nacionais abandonaram a profissão com o fechamento dos veículos e por medo de perseguição e represálias.
Medrano explica que, como forma de sobrevivência, os poucos jornalistas independentes que ainda ficam no país — colaborando discretamente com algum veículo, desempregados ou afastados da profissão — foram obrigados a usar suas redes sociais para replicar mensagens de “normalidade” ou adotar frases do discurso oficial.
Os que ainda informam do exílio não assinam suas reportagens com seus nomes e usam recursos como “Redação Central”, “Colaboração” e “Jornalista”.
A maioria foi banida, mas quatro deles seguem presos em desaparecimento forçado, incluindo Fabiola Tercero, detida em julho de 2024 e sobre quem nada se sabe desde então.
O apagão informativo e o assédio aos jornalistas chamou atenção internacional.
O documento conclui que este país centro-americano de 6,7 milhões de habitantes vive uma fase alarmante de erosão do Estado de direito, marcada pelo enfraquecimento das garantias fundamentais, fechamento dos espaços democráticos e uso do aparato estatal para reprimir a oposição.
O relatório aponta que as reformas à Lei Especial de Ciberdelitos punem de forma arbitrária conteúdos que possam causar “alarme” ou “inquietação”, termos que o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos (Acnudh) considera incompatíveis com normas internacionais e que facilitam a perseguição de vozes críticas.
No período analisado, pelo menos 17 pessoas foram processadas por publicações críticas ao governo em redes sociais.
O relatório mostra que a Nicarágua caiu para o posto 172 de 180 na Classificação Mundial de Liberdade de Imprensa, refletindo piora acelerada das condições para o jornalismo.
O documento também denuncia que a repressão atingiu veículos independentes no exílio. Em março de 2025, a Universidade Nacional de Engenharia bloqueou arbitrariamente os domínios “com.ni” de cinco veículos de comunicação, limitando sua visibilidade online.
A Fled aponta que o número de jornalistas que abandonaram a profissão continua crescendo, resultado de um ambiente cada vez mais hostil para a imprensa independente.
“A repressão, a estigmatização e o risco constante transformaram o jornalismo em trabalho de alto perigo, obrigando muitos profissionais a abandonarem completamente a profissão para dar prioridade à sua segurança e à de suas famílias”, diz a Fled.
Muitos dos que ficam no país optaram pelo silêncio, anonimato ou afastamento total, mesmo sem ter chegado à idade de aposentadoria.
Outros, já idosos, passam anos longe do jornalismo ativo, mas continuam sendo perseguidos.
Um exemplo da intolerância ao jornalismo livre na Nicarágua aconteceu em maio, quando a Unesco concedeu seu Prêmio Mundial de Liberdade de Imprensa Guillermo Cano ao jornal La Prensa.
O La Prensa, fundado em 1926, mantém linha crítica contra Daniel Ortega e sua esposa e copresidenta Rosario Murillo, que ordenaram seu fechamento e confisco em 2021.
A equipe deixou o país um ano depois e desde então continua informando pela internet do exílio na Costa Rica, Estados Unidos, México, Espanha e Alemanha.
Após o anúncio, a ditadura divulgou comunicado duro anunciando sua saída da Unesco e acusando o organismo de estar a serviço dos imperialistas.
O governo nicaraguense chamou de “vergonhoso” o prêmio ao jornal mais antigo do país, classificado como “engendro diabólico de antipátria nicaraguense”.
Um jornalista do veículo, que mora em San José, disse à IPS que o melhor exemplo da impossibilidade de manter veículos na Nicarágua aparece nesse episódio.
“A Nicarágua tinha uma carteira de projetos de mais de 30 milhões de dólares com a Unesco, mas prefere perder dinheiro e ajuda a tolerar que se dê reconhecimento a um jornal. Isso mostra o nível de desprezo pelo jornalismo”, afirmou.
Outra jornalista do Caribe nicaraguense, que acabou de se exilar na Costa Rica em maio, disse que resistiu o quanto pôde colaborando da Nicarágua com veículos no exílio, mas o custo desse esforço prejudicava sua saúde mental.
“Viver todo dia com medo de ser descoberta é desgastante. Cada policial, cada viatura que passa perto, a gente acha que vêm te buscar. Isso não é vida”, disse à IPS, pedindo para não revelar sua identidade porque está lutando para tirar os filhos do país.
(+) Imagem em destaque: Jornalistas cobrem em Manágua, em 2021, o anúncio da ex-candidata presidencial Cristiana Chamorro. Ela foi detida, sua organização cancelada e boa parte dos jornalistas participantes processados judicialmente. Crédito: Reprodução/José Mendieta
(++) Publicado originalmente em IPS — Inter Press Service

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