Nova Rota da Seda da Ásia Central: países sem litoral agora conectados

Nova Rota da Seda da Ásia Central: países sem litoral agora conectados

POR MAXIMILIAN MALAWISTA

NAÇÕES UNIDAS – Antes isolados por não possuírem litoral, agora conectados: o Pacto Global das Nações Unidas construiu uma ponte entre Europa, Ásia e Oriente Médio – muitos já chamam de “Nova Rota da Seda”.

O Pacto Global da ONU lançou oficialmente sua Rede da Ásia Central em um encontro especial realizado em Astana, capital do Cazaquistão, com o objetivo de impulsionar o progresso na região em relação aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), conectando mais de 140 empresas participantes à maior iniciativa empresarial de sustentabilidade do mundo.

Essa iniciativa fornecerá ferramentas e recursos necessários para promover práticas empresariais sustentáveis e alinhadas aos ODS da ONU, que devem ser cumpridos até 2030, conforme previsto na chamada Agenda 2030.

O Pacto Global é uma iniciativa das Nações Unidas pela sustentabilidade corporativa, lançada em 2019, que promove a participação ativa das empresas na conquista do desenvolvimento sustentável.

O Cazaquistão sediará o escritório multinacional da Rede da Ásia Central, que conectará Cazaquistão, Quirguistão, Uzbequistão, Tajiquistão e Turcomenistão.

A rede foi lançada durante o encerramento da segunda cúpula entre a China e os cinco países da região, realizada em Astana entre os dias 17 e 19 de junho, cujos detalhes o Pacto Global agora apresenta na sede da ONU em Nova York.

Essas cinco nações, que anteriormente atuavam de forma isolada, agora farão parte de uma plataforma unificada que integrará uma estratégia econômica verde e promoverá o desenvolvimento regional.

“Com o lançamento de uma rede nacional aqui, estamos consolidando o investimento responsável e a sustentabilidade neste corredor dinâmico”, disse Sanda Ojiambo, diretora-executiva e conselheira do Pacto Global da ONU.

Ela acrescentou: “Estamos aproveitando o potencial ainda inexplorado do setor privado da região para impulsionar o crescimento verde, melhorar a transparência e fomentar a coesão social”.

A região abrangida pela nova Rede tem enorme potencial. 60% da população tem menos de 30 anos, o que representa um capital humano significativo para apoiar uma nova geração na criação de empregos, desenvolvimento de infraestrutura e capacidades logísticas.

A Iniciativa do Cinturão e Rota: um novo aliado

Em 2023, o Pacto Global e a Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI, na sigla em inglês) da China formalizaram em Pequim uma aliança voltada a harmonizar o desenvolvimento de infraestrutura com a sustentabilidade de longo prazo.

Como parte dessa parceria, foram introduzidas duas ferramentas:

Os 10 princípios do Pacto Global aplicados ao setor de infraestrutura no âmbito da BRI: um guia prático para os atores do setor privado.

Maximizar o impacto nos ODS: ferramenta de orientação e avaliação para empresas promoverem infraestrutura sustentável no contexto da BRI.

Esses recursos fornecem aos agentes do setor privado uma estratégia não apenas para atingir os ODS, mas também para avançar no planejamento, financiamento e execução de projetos de infraestrutura, promovendo assim a conectividade regional.

Resultados concretos já começaram a aparecer.

Durante a segunda cúpula China-Ásia Central, realizada de 17 a 19 de junho em Astana, o presidente da agência de notícias Xinhua, Fu Hua, assinou um acordo de cooperação com Arman Kyrykbayev, assistente do presidente do Cazaquistão, prevendo a criação de centros de big data e de um Centro de Intercâmbio e Cooperação entre China e Cazaquistão.

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Esse novo centro apoiará o comércio, liquidações em moeda estrangeira e transações transfronteiriças de propriedade intelectual, refletindo o papel crucial da BRI na integração e conectividade da Ásia Central.

O centro é apenas um dos quatro principais lançados no contexto da colaboração entre a China e a Ásia Central. Os outros três são voltados à redução da pobreza, intercâmbio educacional e combate à desertificação.

Em seu discurso de abertura da cúpula, no dia 17 de junho, o presidente chinês Xi Jinping apresentou o chamado “Espírito China-Ásia Central”, definido como um exemplo de “respeito mútuo, confiança mútua, benefício mútuo e assistência mútua em busca conjunta da modernização através do desenvolvimento de alta qualidade”.

Durante o evento, Xi e os líderes dos cinco países da Ásia Central assinaram um tratado de boa vizinhança e cooperação amistosa, formalizando uma visão comum para um futuro de expansão regional.

O impacto dessas parcerias econômicas e diplomáticas já é perceptível.

O comércio entre a China e a Ásia Central alcançou, em 2024, US$ 94,8 bilhões – um aumento de US$ 5,4 bilhões em relação ao ano anterior.

Em perspectiva, esse volume de comércio equivale ao PIB total de um dos países da região, o Uzbequistão – um salto impressionante para uma região que até recentemente estava à margem do comércio e dos negócios globais.

Infraestrutura: os trens e navios do presente

Se por um lado política e valores abriram caminho, a infraestrutura é quem está pavimentando a estrada. Novos centros ferroviários e de transporte de carga estão transformando rapidamente a Ásia Central – antes sem acesso ao mar – em um megacentro logístico essencial.

Os projetos ferroviários China-Quirguistão-Uzbequistão e o China-Europe Caspian Sea Express são exemplos dessa transformação. Essas novas rotas conectam a Ásia Central ao Oriente Médio, Sul da Ásia e Europa, ampliando significativamente seu acesso aos mercados.

Cidades chinesas estão abrindo novas rotas ferroviárias de carga e voos diretos para a Ásia Central, o que fortalece ainda mais as cadeias de suprimento e aumenta a eficiência nas viagens.

Em 30 de junho, o China-Europe Caspian Sea Express partiu de Pequim com destino a Baku, capital do Azerbaijão, em uma viagem multimodal de aproximadamente 15 dias – tempo mais de duas vezes menor do que a rota tradicional.

O trem transportava 104 contêineres equivalentes a 20 pés (TEU), com cerca de 2.300 toneladas de mercadorias para exportação, percorrendo mais de 8 mil quilômetros. O corredor também distribuirá cargas para Geórgia, Turquia e Sérvia, entre outros destinos regionais.

A realidade da cooperação regional

A transformação das cadeias de suprimento da Ásia Central não é teoria – está acontecendo agora, com novos acordos sendo firmados a cada dia.

Antes fragmentada e isolada, a Ásia Central está se tornando o novo elo entre Oriente e Ocidente, acelerando sua expansão global.

Graças à coordenação entre o Pacto Global da ONU, a Iniciativa do Cinturão e Rota da China e parcerias regionais, a Ásia Central se posiciona como novo centro de inovação verde, comércio sustentável e revitalização econômica liderada por sua juventude.

T: MF / Edição: EG.

Artigo publicado originalmente na Inter Press Service.


Foto de capa: Presidente da China, Xi Jinping (中国新闻社 / Wikipedia)

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