O auge populista da direita no Japão

O auge populista da direita no Japão

Por Andrew Firmin

LONDRES – As filas para comprar arroz, algo impensável até pouco tempo atrás, começaram a aparecer em maio. À medida que o preço deste alimento básico alcançava níveis recordes, os consumidores frustrados quebraram um tabu cultural e começaram a adquirir arroz da Coreia do Sul. Foi um símbolo do colapso da segurança econômica do Japão, que criou terreno fértil para uma mudança política.

Isso aconteceu em 20 de julho, quando o Japão se juntou à lista de países nos quais os partidos de extrema direita estão ganhando terreno. O partido Sanseitō obteve 15,7% dos votos nas eleições para o Senado, enquanto a coalizão governista formada pelo Partido Liberal Democrático (PLD) e o Kōmeitō perdeu sua maioria. O resultado augura problemas para a sociedade civil japonesa.

Das teorias conspiratórias ao Parlamento

O Sanseitō, fundado durante a pandemia de covid-19, surgiu de um canal de YouTube de extrema direita. Inicialmente, difundiu teorias conspiratórias sobre o vírus e se opôs às máscaras e às vacinas, terreno que globalmente proporcionou pontos de entrada para a radicalização da extrema direita. Desde então, adotou uma política excludente.

O líder do partido, Sohei Kamiya, afirma que quer ser o Donald Trump do Japão. Seu programa “Japão primeiro”, acompanhado de abundante retórica xenófoba, defende limites rígidos à imigração.

O Sanseitō mostra profunda hostilidade em relação aos grupos excluídos. Se opõe firmemente aos direitos LGBTIQ+, apesar de estes serem limitados no Japão, e pede a revogação da Lei de Promoção da Compreensão LGBT de 2023.

O partido ultraderechista se opõe ao casamento entre pessoas do mesmo sexo; apesar das ações legais da sociedade civil que resultaram em sentenças judiciais contraditórias, o Japão continua sendo o único membro do Grupo dos Sete (G7) de grandes países industriais que não reconhece a igualdade matrimonial.

Kamiya culpou as mulheres jovens pela queda da natalidade no Japão, afirmando que estão muito centradas em sua carreira e que deveriam ficar em casa e ter filhos. Também disse que apoia as medidas de Trump para eliminar as proteções climáticas e pede a militarização do Japão, posições que costumam adotar os populistas de direita em todo o mundo.

Crise econômica e corrupção política

Mudanças se aproximam na política japonesa, até então estagnada. O PLD, um partido de direita de amplo espectro, esteve no poder, seja sozinho ou em coalizão com o Kōmeitō, durante quase todo o tempo desde sua fundação em 1955.

Durante muito tempo foi creditado por ter reconstruído a economia japonesa, devastada após a Segunda Guerra Mundial, e por ter restabelecido as relações internacionais por meio de uma política externa fortemente alinhada com os Estados Unidos.

Porém, seu domínio desmoronou sob o peso da estagnação econômica e dos escândalos de corrupção. O PLD perdeu a maioria na Câmara Baixa nas eleições antecipadas de outubro de 2024, convocadas pelo primeiro-ministro Shigeru Ishiba após assumir a liderança com a renúncia de seu antecessor, obrigado a renunciar por um escândalo.

Em novembro de 2023, revelou-se que cerca de quatro milhões de dólares em fundos ilícitos não declarados vinculados a facções-chave do partido haviam sido ocultados. Este escândalo seguiu o assassinato em julho de 2022 do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe, cujo assassino nutria rancor contra a Igreja da Unificação, movimento religioso amplamente considerado como uma seita.

O assassinato pôs em evidência os amplos vínculos entre a igreja e o PLD.

A crise política coincidiu com o mal-estar econômico. A inflação é pouco habitual no Japão, mas, assim como em muitos outros países, os preços dos alimentos dispararam e os salários não acompanharam o mesmo ritmo.

A crise do arroz, devida em parte aos efeitos das mudanças climáticas, foi o símbolo mais potente, já que afetou um alimento básico profundamente enraizado na identidade nacional. O governo reagiu aos altos preços liberando parte de suas reservas, mas rejeitou os pedidos para reduzir o imposto sobre o consumo de 10%, que o Sanseitō quer abolir.

Demografia e temores sobre a imigração

Por trás desses problemas econômicos está o desafio demográfico do Japão. Estima-se que 30% da população tenha 65 anos ou mais, e cerca de 10% tenha mais de 80 anos. O outro lado da moeda é a baixa taxa de fertilidade: atualmente prevê-se que cada mulher tenha 1,2 filhos, muito abaixo da taxa de 2,1 necessária para manter uma população estável.

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A demografia japonesa ameaça minar sua base econômica, já que pode não haver contribuintes suficientes para financiar os gastos com seguridade social. O governo, que até então se mostrava relutante, foi obrigado a suavizar os controles rígidos de imigração e a atrair mais pessoas em idade produtiva.

Os residentes nascidos no exterior representam agora cerca de 3% da população japonesa, proporção pequena para a maioria das economias do norte global, mas uma mudança muito visível numa sociedade que antes era amplamente homogênea.

O Sanseitō utilizou essa mudança demográfica como arma, desencadeando retórica xenófoba para aproveitar a ansiedade pela mudança cultural e culpando os estrangeiros pelos problemas internos. A preocupação com a taxa de natalidade também proporcionou amplo terreno para transformar o feminismo e os movimentos pelos direitos LGBTIQ+ em bodes expiatórios.

Desinteresse político e divisões geracionais

O fracasso da classe política em se conectar com as gerações mais jovens também criou uma vulnerabilidade perigosa.

Uma pesquisa realizada em 2024 revelou que apenas um terço dos eleitores estava satisfeito com o funcionamento atual da democracia japonesa, e mais da metade não se identificava com nenhum partido político. O desencanto é maior entre os jovens, agravado pelo fato de que os políticos costumam ser uma ou duas gerações mais velhos.

A guinada para o Sanseitō sugere que pelo menos alguns dos desencantados com a política estabelecida encontraram algo pelo que votar.

O partido conta especialmente com o apoio dos jovens, e em particular dos homens jovens. É beneficiado pelo fato de ter uma presença muito mais forte nas redes sociais que os partidos estabelecidos, com cerca de 500 mil seguidores no YouTube, contra os 140 mil do PLD.

Em muitos países, antes se assumia que os jovens eram mais progressistas que as gerações mais velhas, mas cada vez menos isso é verdade. Em economias nas quais os jovens têm dificuldades, qualquer coisa que pareça nova e prometa romper com a política tradicional fracassada, mesmo que seja extremista, pode resultar atraente.

Instabilidade e polarização pela frente

O Sanseitō afirma que não quer colaborar com nenhum partido estabelecido e, como visto em outros países, poderia usar sua presença parlamentar para montar espetáculos e buscar publicidade.

É improvável que seu apoio tenha alcançado seu pico e, embora não tenha poder, pode esperar ter influência: uma vez que a retórica da extrema direita passa para a corrente principal, se infiltra e muda o debate político em geral.

A guinada à direita do Japão poderia se estender além do Sanseitō. O descontentamento com o PLD fez com que outro partido de direita, o Partido Popular Democrático, ganhasse apoios. Essas mudanças poderiam levar o PLD a responder às suas perdas adotando um rumo mais nacionalista e conservador, associado ao seu antigo líder Abe.

A trajetória do Japão reflete padrões preocupantes nas democracias do Norte global, como França, Alemanha, Itália e Portugal, onde os partidos populistas de direita ganharam protagonismo provocando indignação, semeando a divisão e atacando os grupos excluídos, junto com a sociedade civil que defende seus direitos.

Tudo isso sugere um perigo para os grupos excluídos e a sociedade civil do Japão. À medida que o Japão avança por este caminho preocupante, sua sociedade civil deve estar preparada para defender os direitos humanos.

O que começou como uma crise do arroz se transformou numa prova para determinar se as instituições democráticas do Japão, incluindo sua sociedade civil, podem resistir à tempestade populista que se aproxima.

Andrew Firmin é editor-chefe da Civicus, codiretor e editor da Civicus Lens e coautor do Relatório sobre o Estado da Sociedade Civil da organização.

(*) Imagem em destaque: Manifestação do movimento de extrema direita japonês Zaitokukai em 2013. Imagem: Kurashita Yuki/Creative Commons

(**) Publicado originalmente em IPS – Inter Press Service

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