O Ocidente está se desvencilhando de Israel?

NAÇÕES UNIDAS — Quando acontecer a reunião de alto nível de mais de 150 líderes mundiais nas Nações Unidas, de 22 a 30 de setembro, um dos momentos políticos mais importantes será o anúncio de pelo menos 10 países ocidentais do reconhecimento da Palestina como Estado soberano.
Os 10 países — alguns dos quais já fizeram seu reconhecimento antes da reunião da ONU — são Reino Unido, França, Canadá, Austrália, Portugal, Malta, Bélgica, Espanha, Irlanda e Noruega, o que mostra que o apoio tradicional a Israel está diminuindo aos poucos no mundo ocidental.
Segundo a CNN, o Ministério das Relações Exteriores de Israel “rejeitou” os pedidos recentes de reconhecimento dos países europeus, chamando-os de “recompensa ao Hamas” que prejudicam os esforços para conseguir um cessar-fogo, enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, criticou duramente os pedidos de reconhecimento.
Mesmo assim, os Estados Unidos, defensor incondicional de Israel, usarão seu veto no Conselho de Segurança contra qualquer tentativa de reconhecimento de um Estado palestino como “membro pleno das Nações Unidas”.
Até agora, o Estado da Palestina foi reconhecido como nação soberana por 147 dos 193 Estados membros, ou seja, mais de 76% de todos os membros da ONU. Já é “Estado observador não membro” da Assembleia Geral da ONU desde novembro de 2012.
Enquanto isso, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, disse ao jornal The New York Times: “Dissemos a todos esses países (europeus) que se fizessem isso do reconhecimento, tudo seria falso, nem mesmo real. Se fizerem isso, vão criar problemas. Haverá uma resposta”.
O governo Trump, talvez como contramedida, cancelou os vistos americanos de todos os delegados palestinos que iam participar da 80ª Assembleia Geral (AG), o órgão máximo da ONU, que começa oficialmente nesta terça-feira, 9 de setembro.
Como resultado, surgiu a possibilidade de transferir pelo menos uma sessão da AG para Genebra, como foi feito quando o líder da Organização de Liberação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, teve o visto americano negado em 1974, ou que os delegados palestinos participassem remotamente.
Quando foi perguntado sobre informações atualizadas, o porta-voz da ONU, Stephane Dujarric, disse aos jornalistas na primeira semana de setembro: “Estamos em contato com o Departamento de Estado para tentar obter algum esclarecimento e, obviamente, esperamos uma revogação da decisão baseada nas obrigações do Acordo (entre Estados Unidos e a sede da ONU)”.
Dado as restrições de visto dos Estados Unidos, existe a possibilidade de a semana de alto nível da Assembleia Geral acontecer em algum lugar fora dos Estados Unidos? perguntou um dos jornalistas.
“Não”, respondeu Dujarric. “Não vi nenhum movimento sério nesse sentido”. Depois acrescentou: “Quero dizer que os Estados membros podem decidir fazer uma reunião onde decidirem fazê-la. Essa seria uma decisão da Assembleia Geral. Mas, francamente, não vi nenhum impulso sério nessa direção”.
Alon ben Meir, professor aposentado de relações internacionais do Centro de Assuntos Globais da Universidade de Nova York (NYU), disse à IPS que não se pode subestimar o papel importante dos países europeus no apoio à independência palestina.
O apoio deles, disse, deve ir além do simbolismo e focar no que é essencial para promover a causa palestina. As medidas que devem ser tomadas incluem:
– Dar apoio econômico direto às instituições e infraestrutura palestinas, garantindo ao mesmo tempo a prestação de contas.
– Estabelecer acordos comerciais bilaterais com os palestinos para impulsionar a economia deles, independentemente de Israel.
– Promover a melhoria do status de observador e a participação da Palestina nos organismos internacionais, oferecendo fóruns jurídicos para conseguir aceitação e direitos internacionais.
– Elevar o nível diplomático dos escritórios de representação do consulado palestino em suas capitais.
– Financiar uma campanha de diplomacia pública em suas respectivas capitais para conseguir apoio à criação de um Estado palestino.
Oferecer treinamento e apoio às forças de segurança interna palestinas em coordenação com Israel para manter a ordem e estabilidade, disse Ben Meir, que deu aulas sobre negociação internacional e estudos sobre Oriente Médio.
James Jennings, presidente da Conscience International e defensor há muito tempo dos direitos humanos dos palestinos, disse à IPS que o grupo de países europeus que pretende reconhecer a Palestina e exigir a criação de um Estado palestino em Nova York durante este mês, infelizmente, não vai mudar a situação no terreno.
Na opinião dele, chegam com décadas de atraso e não têm condições de dar poder aos palestinos para que estabeleçam seu Estado.
“A sinceridade do plano também pode ser questionada. A medida pode estar programada para desviar a atenção da votação da Assembleia Geral da ONU e do fracasso quase certo de conseguir reconhecimento do Conselho de Segurança. Afinal, alguns desses mesmos países têm armado Israel com as bombas que, nos últimos dois anos, mataram regularmente mulheres e crianças palestinas desarmadas em Gaza”, analisou.
A Palestina ainda não é uma nação, apesar de seu amplo reconhecimento diplomático. Primeiro deve alcançar uma soberania real. A história mostra que a verdadeira independência deve ser conquistada, não concedida, afirmou.
“A Cisjordânia e a Faixa de Gaza são territórios ocupados. Neste momento, a Palestina é apenas uma ideia, um grupo de pessoas com uma bandeira e um aparato político e administrativo limitado. A forte identidade coletiva dos palestinos é seu principal trunfo, o que significa que, aconteça o que acontecer, o povo da Palestina está em sua terra para ficar”, afirmou Jennings, que também é diretor executivo da organização Acadêmicos dos Estados Unidos pela Paz.
A nação palestina conta com o apoio de um número cada vez maior de pessoas nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, mas a questão é como colocar a ideia em prática.
A solução de dois Estados tem sido debatida há muito tempo, mas agora os observadores próximos da política internacional a consideram morta.
Os fatos no terreno, com quase seis décadas de ocupação militar opressiva e o alto número de colonos israelenses que vivem agora dentro da chamada Linha Verde de 1967, tornam extremamente difícil, se não impossível, estabelecer um Estado palestino, considerou Jennings.
O reconhecimento mundial da Palestina está crescendo. A posição conjunta das nações europeias pode ajudar a focar a atenção no problema da falta de Estado dos palestinos, mas não substitui a luta ativa contra o domínio de Israel sobre a Cisjordânia e Gaza. Seu maior valor pode ser focar a atenção na falta de vontade coletiva da comunidade internacional para impor uma solução.
“Até agora, Israel se recusou até mesmo a definir suas próprias fronteiras. O Knesset (parlamento), sob o Likud (o partido extremista do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu), está disposto a tomar e nacionalizar todo o território palestino, o que significa que não pode haver dois Estados, mas apenas um: Israel”, disse Jennings.
Lembrou que “o embaixador dos Estados Unidos em Israel, Mike Huckabee, apoia essa posição e proclama que Deus entregou a Palestina aos judeus”.
Portanto, é pouco provável que a pressão externa sobre Israel por parte desse grupo de países funcione sem a liderança do principal apoiador de Israel, os Estados Unidos, concluiu Jennings.
Expandindo essa posição, Ben Meir disse que, embora esse reconhecimento seja significativo, continua sendo simbólico a menos que todos os atores envolvidos adotem muitas medidas críticas para diminuir as quatro razões seguintes que explicam os fracassos no avanço da perspectiva de estabelecer esse Estado.
Em primeiro lugar, Israel fez tudo que estava ao seu alcance, especialmente agora com o apoio do governo Trump, para impedir que isso aconteça.
Em segundo lugar, a Autoridade Palestina fez pouco para estabelecer um governo representativo legítimo e um aparato político que responda às necessidades da população, apesar de 147 países já a terem reconhecido.
Em terceiro lugar, os Estados árabes, embora tenham mostrado publicamente seu apoio, deram alguma ajuda financeira, mas não fizeram nenhum esforço conjunto ao longo dos anos para tornar a ideia realidade.
E, em quarto lugar, os países que reconheceram a condição de Estado palestino não tomaram medidas significativas para garantir sua implementação.
“Para abrir de forma realista o caminho para a condição de Estado palestino, os atores envolvidos terão que tomar medidas importantes e manter o rumo, apesar de Israel resistir veementemente e pressionar os Estados Unidos para que usem sua influência para impedir tal resultado”, concluiu Ben Meir.
(+) Imagem em destaque: Manifestantes protestam frente ao campus da Universidade de Columbia na cidade de Nova York. Crédito: Evan Schneider / ONU
(++) Publicado originalmente em IPS — Inter Press Service
Thalif Deen, chefe do escritório das Nações Unidas da IPS e diretor regional da América do Norte, cobre a ONU desde o final dos anos 1970. Ex-subeditor de notícias do Sri Lanka Daily News, ele também foi redator editorial sênior do The Standard, com sede em Hong Kong. Ex-oficial de informação do Secretariado da ONU e ex-membro da delegação do Sri Lanka nas sessões da Assembleia Geral da ONU, Thalif é atualmente editor-chefe da revista Terra Viva United Nations – IPS.
