ONGs exigem fim do apoio aos ataques dos EUA contra barcos no Caribe

Operações contra suspeitos de tráfico de drogas no Caribe e no Pacífico Oriental resultaram na morte de pelo menos 175 pessoas; organizações civis exigem que governos cessem apoio a execuções extrajudiciais. (Imagem: Comando Sul)
POR CORRESPONDENTE IPS
Inter Press Service
WASHINGTON – Uma reunião de 125 organizações civis, religiosas e de direitos humanos das Américas, Europa e Ásia divulgou um apelo urgente nesta quinta-feira, dia 23, instando todos os países a cessarem o apoio aos ataques dos Estados Unidos contra “narcobarcos” no Mar do Caribe e no Oceano Pacífico.
“Apelamos a todos os Estados para que cessem imediatamente ou se abstenham de apoiar execuções extrajudiciais perpetradas pelos Estados Unidos no Mar do Caribe e no Oceano Pacífico”, afirmam em documento assinado por organizações não governamentais (ONGs) e grupos pacifistas e religiosos.
Entre as organizações constam Anistia Internacional, Human Rights Watch, Escritório Latino-Americano de Washington, União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), Igreja Episcopal, Muçulmanos por um Futuro Justo, Consórcio Europeu de Políticas Internacionais sobre Drogas e a ONG latino-americana Elementa.
As entidades alertam para uma campanha de ataques cinéticos letais (a partir de grandes altitudes) realizada pelas forças do Comando Sul dos Estados Unidos, desde setembro passado, contra embarcações identificadas como transportadoras de drogas destinadas a Washington, nas águas do Caribe e do Pacífico Oriental.
O Comando Sul já relatou o afundamento de mais de 50 embarcações – principalmente lanchas rápidas – em cerca de cinquenta ataques. Em quase todos os casos, os tripulantes morreram; em geral, três ou quatro pessoas em cada ataque.
A campanha norte-americana para eliminar suspeitos de tráfico de drogas, explodindo seus navios e ignorando práticas anteriores de perseguição e captura de tripulações e carregamentos, foi decidida e amplamente divulgada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e seus colaboradores.
As ONGs relatam que, desde setembro, “os militares dos Estados Unidos mataram mais de 175 pessoas a bordo de pequenas embarcações”. “A identidade da maioria das vítimas permanece desconhecida e não há evidências de que elas representassem uma ameaça iminente a indivíduos ou aos Estados Unidos”, afirma o documento.
“O governo Trump indicou que os ataques ilegais começarão e, na prática, se intensificarão por meio de ataques terrestres”, acrescenta o texto. Em outro trecho, as organizações afirmam que “especialistas jurídicos, sociedade civil, ex-advogados do governo dos EUA, bem como ex-membros e membros das Forças Armadas dos EUA concordam: os Estados Unidos estão cometendo execuções extrajudiciais, segundo o direito internacional”.
Lembre-se de que “o direito à vida e ao devido processo legal são princípios fundamentais do direito internacional”, portanto, “esses ataques — realizados fora de conflito armado, sem acusações ou julgamento, e dirigidos contra pessoas simplesmente acusadas de participar do tráfico de drogas, o que não constitui ameaça iminente ou ataque armado — configuram violações claras desses direitos”, reitera o documento.
Em artigo sobre o tema, os especialistas em drogas e Defesa, John Walsh e Adam Isacson, do Escritório para a América Latina em Washington, apontam que “qualquer tipo de processo legal tem sido negado” às vítimas dos ataques nos mares caribenhos. “Suas vidas estão sendo ceifadas por ataques de mísseis realizados sob as ordens do presidente Trump e do secretário (da Guerra, Peter) Hegseth, ou do comandante do Comando Sul, sem qualquer fundamento no direito americano ou internacional”.
“Eles estão exercendo uma licença aparentemente ilimitada para matar pessoas que o presidente considera terroristas”, declararam Walsh e Isacson.
Estados terceiros
A declaração das 125 organizações afirma que “Estados terceiros podem incorrer em responsabilidade legal por fornecer ajuda ou assistência a outro Estado na prática de atos ilícitos internacionais, incluindo execuções extrajudiciais e crimes contra a humanidade”.
“Formas de cooperação, como compartilhamento de informações, acesso a bases militares e fornecimento de apoio logístico, podem atingir este limiar, sendo consideradas ajuda e assistência ao facilitar a identificação, o rastreamento e a localização de embarcações”, observa o documento.
“Dada a natureza pública desses ataques e a flagrante falta de justificativa legal, os Estados não podem alegar plausivelmente desconhecimento dos riscos associados ao seu apoio”, reforça o texto.
No final de 2025, Sarah Yager, diretora da Human Rights Watch em Washington, argumentou que “o Reino Unido, o Canadá e outras nações aliadas que colaboram com os Estados Unidos na luta contra o tráfico de drogas têm provas suficientes de que Washigton está matando pessoas ilegalmente no mar”.
Países da região como Equador, República Dominicana e Trinidad e Tobago estão cooperando com as operações norte-americana.
A declaração exige que “todos os Estados cessem imediatamente ou se abstenham de fornecer qualquer tipo de assistência que possa contribuir para esses assassinatos ilegais”.
“A omissão nesse sentido facilita a continuação da campanha ilegal, mina o Estado de Direito e acarreta risco de responsabilização legal perante o direito internacional”, conclui o documento.

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