Ordem executiva de Trump visa estrangulamento energético de Cuba

Ordem executiva de Trump visa estrangulamento energético de Cuba

Aumento da escassez de combustível tem sido um dos primeiros sintomas das novas medidas do presidente dos EUA, Donald Trump, contra as compras de petróleo de Cuba. (Imagem: Jorge Luis Baños / IPS)

POR DARIEL PARADAS

HAVANA – A nova ordem executiva do presidente dos EUA, Donald Trump, concretizou suas ameaças anteriores de restringir ainda mais as importações de petróleo de Cuba e as chances do país de superar sua profunda crise energética.

“Agora somos uma ameaça para o país mais poderoso do mundo. Resumindo, só posso resistir sozinha, como sempre fiz. Não acho que o governo (cubano) vá recuar, nem que a comunidade internacional se arrisque a impor tarifas”, disse Rocío Leyva, moradora de Havana e vendedora em uma empresa privada.

Assinada em 29 de janeiro, a medida intitulada “Enfrentando as Ameaças do Governo de Cuba aos Estados Unidos” declara um “estado de emergência nacional” em relação a Cuba e anuncia a imposição de tarifas sobre os países que fornecem petróleo à ilha, por constituírem “uma ameaça incomum e extraordinária” à segurança dos Estados Unidos.

“Parece que não vai conseguir sobreviver. Cuba não vai conseguir sobreviver”, disse Trump a repórteres naquela mesma quinta-feira à noite, durante a estreia do documentário “Melania”, sobre o papel de sua esposa nos dias que antecederam sua posse em janeiro de 2025.

O ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, condenou veementemente a ação, chamando-a de “uma nova escalada dos Estados Unidos contra Cuba”. Em sua conta no Twitter, Rodríguez rejeitou as acusações de Trump como “uma longa lista de mentiras (…) destinadas a retratar Cuba como uma ameaça que ela não é”.

Desde 4 de janeiro, um dia após o ataque militar em que os Estados Unidos sequestraram o presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores – onde 32 militares cubanos morreram – Trump vem insistindo que o governo da ilha cairia, após mais de 60 anos de resistência sob o bloqueio de seus antecessores.

Em sua rede social Truth Social, ele escreveu no dia 11 que “não haverá mais petróleo nem dinheiro para Cuba” vindo da Venezuela, a menos que a ilha chegue a um acordo com seu país.

“Ontem passei seis horas na fila para encher o tanque. Hoje, quando fui, a fila estava três vezes maior”: Mario Fernández

A nova ordem executiva estipula que poderá ser modificada caso Cuba ou os países afetados “tomem medidas significativas para lidar com a ameaça ou se alinhem aos objetivos de segurança nacional e política externa dos EUA”.

No sábado, dia 31, o próprio Trump anunciou à imprensa, durante uma viagem à Flórida, que o diálogo com os líderes cubanos já havia começado.

“Acho que vamos chegar a um acordo com Cuba. Vamos ser amigáveis. Eles não têm dinheiro, não têm petróleo”, disse ele.

O vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, Carlos Fernández de Cossío, por sua vez, disse na segunda-feira, dia 2, em entrevista à Associated Press, que até então as únicas conversas com os Estados Unidos eram as de praxe – migração e drogas, essencialmente – no âmbito das relações diplomáticas bilaterais.

“Se me perguntarem se temos uma mesa de diálogo hoje, a resposta é não”, afirmou Fernández de Cossío.

No entanto, ele reiterou que Cuba está disposta “a manter esse diálogo informal com os Estados Unidos” para discutir “as diferenças”, respeitando o modelo político da ilha.

Uma balsa de passageiros navega perto da refinaria de petróleo Ñico López, próxima a Havana. Cuba extrai apenas cerca de 40% do petróleo bruto que necessita, enquanto o restante é importado, algo que os Estados Unidos agora pretendem bloquear. Imagem: Jorge Luis Baños / IPS

O fundo do poço

A ameaça de tarifas visa principalmente o México, que se tornou o principal fornecedor de petróleo bruto depois da interrupção dos embarques da Venezuela.

No entanto, o petroleiro Ocean Mariner que chegou à refinaria Ñico López em Havana, em 9 de janeiro, com uma carga de 80.000 barris de petróleo do México, foi o último navio registrado enviado pela estatal Petróleos Mexicanos (Pemex) para a ilha.

A presidente mexicana Claudia Sheinbaum argumentou que os carregamentos de petróleo enviados por seu governo visam tanto a ajuda humanitária quanto o cumprimento de contratos entre a estatal petrolífera e o governo cubano.

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Segundo estimativas de Jorge Piñón, diretor do Programa de Energia para a América Latina e o Caribe da Universidade do Texas, com base em dados do Escritório Nacional de Estatísticas e Informações de Cuba (Onei), o México forneceu 17.200 barris por dia (bpd) dos 100.000 que constituem a demanda nacional de Cuba.

Desses 100 mil barris por dia, a ilha extrai 40 mil, utilizados em usinas termoelétricas. O restante foi quase inteiramente importado da Venezuela, México, Rússia — que enviou seu último carregamento em outubro — e da Argélia, que o fez em fevereiro de 2025, segundo a revista britânica Financial Times.

Cuba sofre com apagões cada vez mais frequentes, programados ou não, devido a um déficit na geração de energia elétrica que representa mais da metade da demanda nacional, com repercussões no abastecimento de água para a população, entre muitos outros problemas.

Na sequência da ordem executiva de Trump, uma pressionada Sheinbaum afirmou na sexta-feira, dia 30, que seu governo buscará “uma maneira, sem colocar o México em risco, de demonstrar solidariedade ao povo cubano”.

No domingo, ela anunciou o envio de ajuda humanitária a Cuba na forma de alimentos e outros produtos esta semana e reafirmou que seu país está trabalhando por meio de canais diplomáticos para fornecer combustível à ilha.

Entretanto, longas filas de carros se formaram nos postos de gasolina de Havana. O combustível está se tornando cada vez mais escasso, embora geralmente só possa ser encontrado em redes de postos que vendem diretamente em dólares — a US$ 1,30 o litro — ou no mercado negro, pelo equivalente a US$ 2 o litro.

“Ontem passei seis horas na fila para encher o tanque. Hoje, quando passei por lá, a fila estava três vezes maior”, disse à IPS o fotógrafo Mario Fernández, morador de Havana.

A terceira opção, comprar combustível em pesos e de forma formal, depende de um aplicativo digital que marca quando é a vez de cada morador ir ao posto de gasolina, mas Fernández está por volta da posição 3000 na lista.

“Pode levar meses para que isso aconteça com você”, disse ele.

Pessoas caminham por uma rua escura durante um dos apagões cada vez mais frequentes em Havana. Atualmente, a geração de eletricidade não cobre nem metade da demanda de Cuba. Imagem: Jorge Luis Baños / IPS

Vale o preço?

Com essa nova escalada de pressão sobre Cuba, políticos cubanos-americanos no Congresso dos EUA pediram apoio da comunidade cubana.

Na quinta-feira, dia 29, por exemplo, a congressista republicana Maria Elvira Salazar (Flórida) escreveu no X que “este é o momento de parar tudo: chega de turismo, chega de remessas”. Ela ainda disse que o sofrimento de mães e crianças é um preço que vale a pena pagar por uma mudança de regime em Cuba.

“Esse é precisamente o dilema brutal que enfrentamos como exilados: aliviar o sofrimento a curto prazo ou libertar Cuba para sempre”, escreveu.

Já o congressista cubano-americano, Mario Díaz-Balart, comemorou a medida e disse estar certo de que “Donald Trump será o libertador do Hemisfério Ocidental”.

Os que apoiam a ordem de Trump ignoraram dois pontos que, no documento, caracterizam Cuba como uma suposta ameaça aos Estados Unidos: a existência de bases de inteligência russas e o refúgio dado a membros de grupos terroristas islâmicos como o Hezbollah e o Hamas.

O Ministério das Relações Exteriores afirmou no domingo, dia 1º, em um comunicado oficial, que Cuba “não abriga, apoia, financia ou permite organizações terroristas ou extremistas”, tampouco “sedia bases militares ou de inteligência estrangeiras”, negando que o país “é uma ameaça à segurança dos Estados Unidos”.

“O que eles estão tentando alcançar? Estão tentando cometer um genocídio… Se isso se materializar por meio de tarifas, o efeito será a paralisação da geração de eletricidade, do transporte, da produção industrial, da produção agrícola, da disponibilidade de serviços de saúde, do abastecimento de água… em suma, de todas as esferas da vida”, afirmou Jorge Legañoa, diretor da agência estatal de notícias Prensa Latina, em rede nacional de televisão, na quinta-feira, dia 29.

Artigo publicado originalmente na Inter Press Service.

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