Paz Pereira e Quiroga disputarão presidência boliviana em segundo turno histórico

Paz Pereira e Quiroga disputarão presidência boliviana em segundo turno histórico

Correspondente da IPS

LA PAZ – Partindo de um distante terceiro lugar nas pesquisas, o centrista Rodrigo Paz Pereira, do Partido Demócrata Cristiano (PDC), surpreendeu ao vencer o primeiro turno da eleição presidencial na Bolívia e disputará o segundo turno com o direitista Jorge “Tuto” Quiroga, que ficou em segundo lugar nos comícios de 17 de agosto.

Com esse resultado, já se consideram encerradas duas décadas de governos de esquerda com domínio do Movimento ao Socialismo (MAS), primeiro com o líder cocaleiro e indigenista Evo Morales (2006-2019) e depois com o atual presidente, Luis Arce, no poder desde 2020 após um ano de governo de facto de Jeanine Añez.

Paz obteve 32,14% dos pouco mais de cinco milhões de votos válidos; Quiroga, da agrupação Liberdade e Democracia, 26,81%; o empresário Samuel Doria Medina (Unidade) — a quem meios de comunicação e pesquisas apontavam como favorito —, 19,86%, e os candidatos de duas facções do MAS, Andrónico Rodríguez e o oficialista Eduardo del Castillo, somaram apenas 11,38%.

Porém, Morales, que convocou o voto nulo como protesto por não ter sido autorizado a se inscrever como candidato, demonstrou força e permanece como ator na política boliviana, pois foram registrados 1.246.826 votos nulos, 19,29% do eleitorado.

Já começou a batalha para conquistar o eleitorado que rejeitou o desgaste do governo e se afastou da liderança esquerdista que predominou durante duas décadas. Doria Medina anunciou seu apoio a Paz para o segundo turno previsto para 19 de outubro.

A eleição foi realizada em um ano marcado por escassez de dólares para importações e particularmente de gasolina, após a queda da produção e exportação de gás e outros bens, o que gerou inflação de 24% ao ano e grande mal-estar entre a população.

A crise na esquerda de viés indigenista, que chegou a mudar o nome oficial do país de “República” para “Estado Plurinacional”, cresceu com a amarga disputa pela liderança entre Morales — processado por suposto estupro e impedido de ser candidato por ter sido reeleito duas vezes — e Arce, que declinou de concorrer à reeleição.

Nesse contexto, o eleitorado, que no passado apoiou Morales e Arce com amplas maiorias, voltou seus olhos para as opções de direita e centro-direita.

Quiroga e Doria buscaram várias vezes a presidência, sem sucesso, enfrentando o MAS, e apresentaram essa longa oposição como credenciais, ao mesmo tempo que ofereceram superar a crise com fórmulas liberais de redução do Estado, estímulo às exportações e acordos com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para obter recursos.

Paz concordou com a necessidade de reduzir o papel empresarial do Estado, distribuir parte das receitas fiscais entre regiões, deu mais atenção que seus rivais a temas como a violência doméstica e considera que a economia pode se recuperar sem necessidade de recorrer ao FMI.

Quiroga, de 65 anos, engenheiro industrial e economista, trabalhou na empresa privada até que em 1993 ingressou na luta política e em 1997, aos 37 anos, foi vice-presidente no governo do general reformado Hugo Banzer (1997-2001), que havia governado de facto entre 1971 e 1978.

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Banzer deixou o cargo antecipadamente por motivos de saúde e “Tuto”, apelido familiar, o substituiu durante um ano (2001-2002). Quiroga tem sido um ativo opositor dos governos de esquerda em seu país e no restante da América Latina.

Celebrou o resultado do primeiro turno em 17 de agosto afirmando que “de agora em diante, a Bolívia será livre pelos séculos dos séculos. Com o voto, devolvemos a todos a fé na democracia e que se pode mudar o país com a força do voto, contra os bloqueios e sabotagens. Hoje ganhou a democracia boliviana”.

Paz, de 57 anos, formado em economia e relações internacionais, é senador e foi prefeito da cidade sulista de Tarija. É filho do ex-presidente social-democrata Jaime Paz Zamora (1989-1993) e nasceu em Santiago de Compostela, Espanha, durante um dos exílios de seu pai, perseguido por regimes militares bolivianos.

“Ainda não se ganhou nada”, advertiu seus partidários na noite da eleição, para mobilizá-los no que se prevê como uma campanha acirrada de dois meses.

Os resultados mostram que Quiroga conseguiu capitalizar mais que Doria sua imagem opositora e sua proposta de mudar radicalmente o que têm sido os governos do MAS, e que Paz conseguiu atrair os descontentes mais posicionados no centro e cansados de tantos anos com os mesmos protagonistas à frente da política.

Nos comícios também foi eleita a Assembleia Legislativa Plurinacional, o parlamento que tem câmaras de senadores e deputados, e ali foram mais contundentes a derrota do MAS e o triunfo de seus adversários.

Segundo projeções de pesquisadoras, dos 36 senadores entre 13 e 15 seriam para o PDC; Livre, de Quiroga, teria 11 ou 12; Unidade, seis ou sete; outro seria do grupo direitista Súmate, e os que faltam por definir ainda poderiam deixar sem assento o MAS.

Entre os 130 deputados, cerca de 45 seriam para o PDC, 37 para Livre, 28 para Unidade e seis para Súmate, enquanto as esquerdas mal conseguiram assegurar seis assentos, e ainda restam algumas cadeiras por definir.

Finalmente, a eleição significou um revés para as pesquisadoras, que até dias antes colocaram como favoritos Quiroga e Doria, com entre 20 e 24% das preferências, enquanto Paz figurou com intenções de voto de um só dígito, embora uma empresa do jornal El Deber tenha chegado a lhe atribuir até 16%.

Após o segundo turno de 19 de outubro, os novos presidente e parlamentares assumirão seus cargos em 8 de novembro. Arce assegurou que o país terá uma transição ordenada e democrática.

(+) Imagem em destaque: Rodrigo Paz Pereira (à esquerda), do Partido Demócrata Cristiano, e Jorge “Tuto” Quiroga (à direita), da coalizão Liberdade e Democracia, disputarão o segundo turno da eleição presidencial na Bolívia em 19 de outubro. O resultado marca o fim da hegemonia do Movimento ao Socialismo (MAS) no país. Foto: EFE/Luis Gandarillas e Gabriel Marquez (via Havana Times)

(++) Publicado originalmente em IPS – Inter Press Service

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