Sul Global mostra como os países podem lidar com um Estados Unidos agressivo

Sul Global mostra como os países podem lidar com um Estados Unidos agressivo

Por Alexandra Sitenko

BERLIM, Alemanha (IPS) – O ataque dos Estados Unidos à Venezuela marca um ponto de inflexão fundamental na ordem mundial. Ainda não é possível prever como essa violação da soberania de outro Estado acabará se desenrolando.

Mas o episódio colocou em xeque a ordem global baseada na igualdade soberana. Especialistas falam em “dinâmicas de imitação imperialista” e em um retorno às esferas de influência — um mundo no qual as grandes potências ditam as regras e os Estados menores não têm outra opção senão obedecer.

Há uma dinâmica impulsionada pela intervenção dos EUA na Venezuela que não pode ser ignorada: países do Sul Global, especialmente potências médias, começaram a defender seus interesses de forma mais assertiva, estratégica e coordenada. Não por meio de confronto aberto, mas através de uma combinação de flexibilidade, adaptação, diversificação e resistência tática.

Nem todos os países do Sul Global condenaram abertamente o ataque americano à Venezuela, mas todos ao menos expressaram preocupação com o que ocorreu na América do Sul. Esses acontecimentos deixaram claro com que rapidez a força militar pode hoje ser utilizada para impor os interesses de um país, sem qualquer consideração pelos princípios fundamentais da ordem internacional — e quão limitadas são, de fato, as opções desses países, especialmente no campo militar.

Contenção e autonomia política

É exatamente por isso que a estratégia da América Latina tem sido a da contenção diplomática, buscando alcançar um acordo pragmático com os Estados Unidos. No ano passado, Donald Trump e o presidente colombiano Gustavo Petro se envolveram em uma intensa troca de acusações. As tensões se agravaram após o ataque dos EUA à Venezuela, e Trump chegou a ameaçar a Colômbia com ação militar.

Depois que os dois líderes conversaram por telefone, a situação começou a se acalmar. Petro agora se prepara para se encontrar pessoalmente com Trump nos Estados Unidos. Essa mudança do confronto público para o diálogo direto reflete uma estratégia deliberada de contenção diante de uma relação de poder desequilibrada: a pressão deve ser canalizada para uma diplomacia pessoal e controlada, a fim de evitar uma escalada.

Além da Colômbia, Cuba e México também se viram na linha de fogo dos Estados Unidos, que adotaram um tom visivelmente mais duro em relação a ambos. Cuba respondeu com uma estratégia cuidadosamente calibrada, demonstrando disposição para dialogar e melhorar as relações bilaterais, ao mesmo tempo em que enfatizou a importância do respeito mútuo em pé de igualdade.

Concessões políticas foram explicitamente descartadas. Isso pode ser visto como uma abordagem sensata de duas frentes — aliviar tensões enquanto se defende firmemente a soberania.

A presidente do México adotou um caminho mais pragmático sob a pressão de Washington. Claudia Sheinbaum fez apenas algumas concessões pontuais, especialmente em questões centrais de segurança e política comercial, como o endurecimento das ações contra redes de contrabando e o aumento de tarifas sobre importações chinesas, para evitar uma escalada.

No entanto, manteve sua posição quanto à reforma judicial criticada pelos Estados Unidos e ao aumento dos subsídios energéticos para Cuba. Com seu governo condenando abertamente a intervenção dos EUA na Venezuela, o México segue uma trajetória diplomática estável e ponderada: concessões limitadas combinadas com autonomia política. Resta saber se essa estratégia funcionará no longo prazo, sobretudo diante da natureza imprevisível e errática de Trump.

A diversificação das relações exteriores tornou-se a estratégia central do Sul Global para reduzir dependências e reforçar a autonomia política em tempos de incerteza global.

Não há razão para acreditar que China e Rússia — como outras grandes potências — possam ser vistas como contrapesos militares confiáveis no Hemisfério Ocidental. Nenhuma delas possui bases militares na região, nem está vinculada por obrigações explícitas de defesa mútua que envolvam ação militar.

A cooperação da Rússia com a Venezuela limitou-se ao apoio político e ao fornecimento de armas e sistemas de defesa aérea. Isso deixou à América Latina poucas alternativas além da desescalada e do diálogo com os Estados Unidos, combinados com a afirmação do direito de tomar decisões próprias.

A situação é semelhante na Índia. Nova Délhi respondeu ao ataque americano à Venezuela com uma declaração notavelmente contida, expressando “profunda preocupação”. Isso gerou fortes críticas internas, com a oposição alertando para o precedente que estaria sendo criado e para o risco de que o que aconteceu com a Venezuela pudesse ocorrer com qualquer outro país, inclusive a própria Índia.

O Sul Global é conhecido por adotar essa flexibilidade diplomática, diversificando deliberadamente suas relações externas e econômicas. Isso não é muito diferente da estratégia multivetorial que os Estados da Ásia Central, sob influência da Rússia e da China, vêm praticando com sucesso há décadas.

A Índia é um exemplo claro, mantendo relações estratégicas com os Estados Unidos enquanto permanece fortemente ligada à Rússia em matéria de política de defesa. Nova Délhi está atualmente prestes a concluir um acordo de livre comércio com a União Europeia e vem intensificando sua cooperação em segurança e defesa com países europeus.

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Essas tendências também são visíveis na América Latina. Não é coincidência que o acordo UE–Mercosul — recentemente assinado após mais de 20 anos de negociações — tenha sido concluído em um momento em que tanto a União Europeia quanto a América do Sul sofrem pressão das políticas comerciais e tarifárias dos Estados Unidos. Na mesma linha, a Colômbia aderiu à Iniciativa do Cinturão e Rota da China em 2025.

O presidente colombiano viajou recentemente à Arábia Saudita, Catar e Egito, articulando a lógica estratégica por trás dessas visitas: o caminho da América Latina não está em se juntar a um bloco de poder, mas em construir seu próprio polo autônomo de crescimento. A diversificação das relações exteriores tornou-se a estratégia central do Sul Global para reduzir dependências e fortalecer a autonomia política em tempos de incerteza global.

Uma postura notavelmente independente

A reação mais clara até agora veio da África. Vários Estados do continente responderam ao ataque dos EUA não com confronto aberto, mas com medidas simbólicas e politicamente significativas de distanciamento. O partido no poder da África do Sul condenou a agressão contra a Venezuela, com o representante do país nas Nações Unidas criticando a violação dos princípios centrais da Carta da ONU e enfatizando a importância da soberania, da não intervenção e da resolução de conflitos por meios diplomáticos.

Essa mensagem foi reforçada pela realização quase simultânea de exercícios navais conjuntos ao largo da costa sul-africana com vários países do BRICS, incluindo Rússia, China e Irã. Na cerimônia de abertura, o comandante da força-tarefa conjunta sul-africana afirmou que os exercícios eram mais do que um treinamento militar; eram também uma declaração política da intenção de cooperar mais estreitamente em um ambiente marítimo cada vez mais complexo.

O BRICS pode adotar uma postura mais firme em política de segurança no futuro — não necessariamente na forma de uma aliança militar, mas ao expressar sua autonomia estratégica diante da dominância ocidental.

Embora o comportamento dos EUA remeta à diplomacia das canhoneiras do século XIX, o mundo de hoje é muito diferente.

Gana, um país que tradicionalmente mantém relações estreitas com os Estados Unidos, também adotou uma postura notavelmente independente. Acra expressou claras reservas quanto à ação militar unilateral e alertou para o perigoso precedente que poderia minar a segurança, sobretudo dos Estados menores.

A União Africana seguiu uma linha semelhante e, até agora, é a única organização regional que conseguiu chegar a uma posição comum. Não surpreende que os países africanos tenham adotado uma postura relativamente firme, dado que muitos deles vêm deliberadamente ampliando suas parcerias de segurança e econômicas há anos.

A China é hoje um ator econômico central na África, enquanto a Rússia expandiu sua presença militar e cooperação em segurança. Moscou prepara atualmente a realização da terceira cúpula Rússia–África deste ano — uma forma especial de cooperação que antes era reservada aos vizinhos da Rússia na Ásia Central.

Embora o comportamento dos EUA evoque a diplomacia das canhoneiras do século XIX, o mundo atual é muito diferente. O conceito tradicional de esferas de influência pressupõe que Estados mais fracos permanecerão passivos — algo que o Sul Global vem demonstrando ser cada vez menos verdadeiro. Esses países são flexíveis e adaptáveis em suas relações diplomáticas, protegem conscientemente suas apostas estratégicas e cooperam simultaneamente com várias grandes potências, sem se alinhar excessivamente a nenhuma delas.

A narrativa das esferas de influência também subestima o papel das organizações regionais, como a ASEAN, o Mercosul, a União Africana e a Organização de Cooperação de Xangai, além de grupos transregionais como o BRICS. Essas uniões funcionam cada vez mais como plataformas coletivas que amortecem pressões externas, aumentam o poder de barganha de Estados menores e dificultam as tentativas das grandes potências de impor sua dominação.

O Sul Global não é um bloco homogêneo, nem apenas um campo de disputa para rivalidades geopolíticas. Muitos países estão explorando a ordem mundial caótica e fragmentada para expressar e defender seus interesses de forma mais assertiva. A operação americana pode funcionar como uma demonstração de poder no curto prazo, mas, a longo prazo, pode acabar acelerando a criação de uma ordem mundial mais pluralista e menos hierárquica.

*Alexandra Sitenko é consultora política independente e pesquisadora. Seu trabalho se concentra em paz e segurança global, geopolítica da Eurásia e relações entre a Rússia e o Sul Global.

Fonte: International Politics and Society, publicado pela Unidade de Política Global e Europeia da Fundação Friedrich Ebert, Hiroshimastrasse 28, D-10785 Berlim.

Este texto foi publicado originalmente pela Inter Press Service (IPS)

Na imagem, representantes do Sul Global, que forma alianças estratégicas / Picture Alliance / ZUMAPRESS.com | Gabinete do Primeiro-Ministro/Informação à imprensa

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