Terremoto expõe tragédia das restrições taliban que condenam mulheres afegãs à morte

Terremoto expõe tragédia das restrições taliban que condenam mulheres afegãs à morte

Por Correspondente da IPS

CABUL — Em tempos normais, as mulheres do Afeganistão enfrentam condições de vida muito duras em comparação com outras mulheres ao redor do mundo, devido ao rígido controle da repressão taliban. Nesse contexto, o poderoso terremoto de magnitude 6,0 que atingiu as províncias orientais afegãs de Kunar, Nangarhar e Laghman no final de agosto teve consequências extraordinárias para elas.

Foi o terremoto mais mortífero que atingiu o Afeganistão em décadas, um país sujeito a tremores de terra, e os esforços humanitários para alcançar os mais vulneráveis — normalmente mulheres, crianças e idosos — foram insuficientes.

Nas regiões afetadas, a grave escassez de médicas resultou em um maior número de vítimas entre as mulheres, já que os médicos homens não conseguiam acessar facilmente as vítimas do sexo feminino devido à segregação por gênero.

Segundo as autoridades afegãs, apenas em Kunar cerca de 700 mil casas foram danificadas, além de 500 hectares de terras agrícolas.

Mas o único fator que não decorreu de uma força da natureza foram as restrições baseadas no gênero impostas pelos taliban, que agravaram a crise das mulheres afegãs atingidas pelo terremoto.

Nas áreas atingidas, a grave falta de médicas resultou em maior mortalidade entre as mulheres, uma vez que os médicos homens não conseguiam acessar facilmente as vítimas do sexo feminino devido à segregação por gênero, que os proíbe de atender mulheres e até mesmo de tocá-las.

“Os decretos taliban proíbem as mulheres de circularem livremente sem um acompanhante masculino, as impedem de exercer muitas formas de trabalho e limitam rigorosamente o acesso aos cuidados de saúde”, conforme relatório da Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão.

Após o terremoto mortal, moradores de Kunar e Jalalabad relataram que as mulheres dessas regiões enfrentavam escassez de abrigos seguros e água potável, enquanto lutavam contra problemas de saúde feminina.

A situação das mulheres e crianças em outras áreas, como Kunar, Nangarhar e Laghman, era igualmente precária.

O número total de vítimas mortais do terremoto é estimado em 2.200 pessoas. O número exato de mulheres mortas ainda não está claro, mas profissionais de saúde das áreas afetadas relataram um elevado número de óbitos entre mulheres e crianças.

Sharifa Aziz (nome fictício), membro da equipe de socorro do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que passou três dias em várias partes da província de Kunar, disse por telefone: “A situação é extremamente grave. Quando chegamos, as mulheres choravam de alegria ao nos ver. Diziam: ‘Os anjos de Deus vieram até nós'”. Sua alegria era compreensível.

Não havia trabalhadoras suficientes para atender às necessidades das mulheres, devido à repressão generalizada dos taliban contra a participação feminina no mercado de trabalho. Sua participação no trabalho de organizações humanitárias internacionais também é estritamente limitada.

Enquanto o terremoto ainda se desenvolvia, Susan Ferguson, representante especial da ONU Mulheres no Afeganistão, fez uma declaração: “As mulheres e meninas serão novamente as mais afetadas por esta catástrofe, por isso devemos garantir que suas necessidades estejam no centro da resposta e recuperação”, alertou.

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Segundo ela, após o grande terremoto que atingiu Herat em 2023, “quase seis em cada dez pessoas que perderam a vida eram mulheres, e quase dois terços dos feridos eram mulheres”.

Após o terremoto, os veículos de comunicação locais começaram a relatar que a maioria das vítimas eram mulheres e crianças.

Em algumas famílias, até cinco ou seis crianças perderam a vida, e o número de mortes entre mulheres e idosos foi alarmantemente alto.

Segundo Abdulqadeem Abrar, porta-voz da Sociedade do Crescente Vermelho Afegão, os taliban finalmente enviaram uma equipe de profissionais de saúde móveis para Kunar apenas depois que imagens das redes sociais circularam na televisão local mostrando a escassez de médicas na área afetada.

No entanto, os moradores afirmam que, com o aumento do número de feridos, continuam enfrentando a falta de pessoal médico feminino.

“Depois do terremoto mortal em nossa área, viemos ao hospital e trouxemos os pacientes aqui. Há uma grave escassez de médicas. Se houvesse mais médicas aqui, não teríamos que transferir nossos pacientes para outros lugares”, reclamou Chenar Gul, morador de Kunar.

Como observou Tajudeen Oyewale, representante do Unicef no Afeganistão, em uma publicação no X, o papel das médicas é fundamental ao responder a desastres como terremotos.

Acrescentou que as médicas tratam crianças e mulheres, assim como homens afetados pelo terremoto nessas províncias. No entanto, em agências humanitárias que não contam com pessoal feminino, ou nas quais o acesso é restrito, teme-se que as mulheres possam ficar sem tratamento por várias horas.

A crescente preocupação com a escassez de médicas e profissionais de saúde femininas, fator que contribui para o elevado número de vítimas entre as mulheres, deveria ter feito os taliban compreenderem o impacto negativo de suas políticas. Porém, em declarações recentes, Zabihullah Mujahid, líder taliban, classificou a questão da educação das meninas como “menor”.

Por quatro anos consecutivos, os taliban mantiveram fechadas todas as universidades, instituições e centros de formação médica para meninas e mulheres, incluindo os centros especializados em enfermagem e tecnologia médica.

A magnitude da destruição causada pelo terremoto de magnitude 6,0 foi agravada pela infraestrutura deficiente e pela fragilidade do sistema de saúde, legado de um país que emerge de décadas de conflito militar, o que explica o número inaceitavelmente elevado de vítimas.

No entanto, está ao alcance humano mitigar o grave impacto desses eventos recorrentes nas mulheres. O único necessário é que a comunidade internacional se solidarize com as mulheres afegãs exercendo pressão implacável sobre o regime taliban.

(+) Imagem em destaque: Terremoto de magnitude 6,0 sacudiu o leste do Afeganistão na noite de 31 de agosto, com epicentro próximo a Jalalabad, na província de Nangarhar. A segregação de gênero deixou mulheres vítimas sem atendimento por escassez de médicas. Crédito: Amin Meerzad/Unicef

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